Ruy Castro entrevista Bellini, o grande capitão de 58

Primeiro, Bellini foi uma estátua. Depois, a estátua se tornou Bellini. Todo o Brasil de 1958 viu-se no seu gesto de levantar a taça acima da cabeça

Jader Neves, da Manchete, Luiz Carlos Barreto, de O Cruzeiro, e vários outros fotógrafos brasileiros na Copa do Mundo de 1958, na Suécia, não eram homens baixos. Longe disso. E, com a fulgurante vitória do Brasil naquela Copa – campeão do mundo pela primeira vez -, sentiam-se mais altos ainda. Mas, com aqueles retratistas europeus de 3 metros de altura à sua frente, não podiam ver direito o capitão do time, Bellini, segurando a taça no palanque da Fifa ao fim do jogo decisivo, vencido pelo Brasil.

“Levanta, Bellini! Levanta!”, gritaram – em português, naturalmente.
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Segundos antes, ao receber a taça na tribuna de honra do Estádio Nya Ullevi, em Estocolmo, das mãos do rei Gustavo Adolfo, Bellini não sabia muito bem o que fazer com ela. Ninguém o instruíra sobre o protocolo da premiação – e duvida-se que alguém na delegação brasileira soubesse algo a respeito. O natural seria que ele a levasse à altura do peito ou do rosto, como quem a usasse para tomar champanhe, e a beijasse. Afinal, era uma taça – uma coupe – de ouro, encimando uma mulher alada, e para isto fora criada: para que, nela, os heróis bebessem o champanhe da vitória. Até então, todos os capitães dos países campeões do mundo tinham feito assim.

Mas, sob os gritos dos fotógrafos, Bellini, com as duas mãos, levantou a taça acima da cabeça, em direção ao céu. Também por mero acaso, seu olhar mirou o alto das arquibancadas de Nya Ullevi e apontou para o infinito, naquele fim de tarde de verão sueco, 29 de junho de 1958. Estava consumada a pose. As Nikon e as Rolleiflex metralharam – e Bellini, sem saber e sem querer, tornou-se a estátua de si mesmo.
Até então, aquele gesto nunca ocorrera a um atleta. E, de lá para cá, nunca mais ocorreria outro diferente. Todos os dias, em todas as partes do mundo, os campeões de todas as modalidades esportivas o repetem. E, quando fazem isso, estão eternizando e imortalizando Bellini. Mesmo os que nunca ouviram falar dele e nem desconfiam de que alguém tenha criado aquele gesto.

No Rio, quatro anos depois, em 1962, a imagem de um atleta levantando a taça acima da cabeça foi reproduzida em bronze numa estátua em homenagem aos agora bicampeões do mundo – porque o Brasil ganhara também a Copa do Mundo do Chile naquele ano, e Mauro, novo capitão do time, repetira o gesto de Bellini. A estátua fora uma iniciativa do empresário carioca Abraão Medina, dono das lojas de eletrodomésticos O Rei da Voz, que mandara fundi-la e plantá-la na entrada principal do Estádio do Maracanã. Bonita homenagem. Pena que, como também idolatrasse o cantor Francisco Alves, morto em 1952, Medina tivesse ordenado ao escultor Matheus Fernandes que fizesse a cabeça de Chico Alves no corpo do homem que levantava a taça.

A intenção do empresário era boa, mas de dúbia sensibilidade. O cantor de “Aquarela do Brasil” ficaria muito melhor abraçado ao violão ou diante de um microfone, e sua estátua se sentiria mais à vontade defronte ao edifício de A Noite, na Praça Mauá, onde funcionava a Rádio Nacional. E Bellini merecia uma estátua de verdade, só para ele, pelo seu porte de super-homem, de 1,82 metro e 80 quilos, quase todo músculos – a que a escultura decididamente não fazia justiça -, e pela beleza de seu rosto, que impressionava até os homens. Mas, desde o começo, os torcedores cariocas não quiseram nem saber. Não apenas os do Vasco, clube que celebrizou o jogador, mas também os de Flamengo, Fluminense e Botafogo, todos, num raro gesto ecumênico, passaram a referir-se a ela como “a estátua do Bellini”. E, até hoje, marcam encontro “no Bellini”, brigam “no Bellini” e fazem tudo aos pés “do Bellini”.

Ou seja, primeiro, Bellini foi uma estátua. Depois, a estátua se tornou Bellini.

No dia em que levantou a taça, ele tinha 28 anos, completados três semanas antes, no dia 7 de junho, na véspera do primeiro jogo do Brasil na Copa, contra a Áustria. Era solteiro, o que fazia revirar os olhinhos das garotas em todo o país, mas dizia-se que tinha uma noiva na paulista Itapira, sua cidade natal, a 180 quilômetros de São Paulo – o que jogava um balde d’água no entusiasmo das ditas. Fora para o Vasco em 1952 e, rapidinho, aos 22 anos, tornara-se o titular da zaga central, barrando o experiente Rafanelli, e ganhara seu primeiro título carioca. Em 1956, quando voltou a ser campeão carioca, já usava também a braçadeira de capitão.

Era um jogador bem de acordo com sua posição de zagueiro central. Como o jogador mais recuado do seu time, o zagueiro central era também uma espécie de guardião pessoal do goleiro. Para isso, precisava ficar fixo à frente da área, tática e tacitamente proibido de se deslocar em direção às laterais e de abandonar o posto de penúltima instância entre sua meta e o inimigo. Num futebol de funções mais definidas, como o de 1958, o zagueiro central, com o número 3 às costas, marcava o centroavante adversário – o número 9 -, o qual, quase sempre, era um jogador tão forte e pesado que os locutores o chamavam de “tanque”. Daí que o número 3 também tinha de ser corpulento – para enfrentar homens como Henrique, do Flamengo, Valdo, do Fluminense, e Paulo Valentim, do Botafogo, que eram os centroavantes com quem Bellini, pelo Vasco, cruzava tíbias e perônios, várias vezes por ano, no Maracanã.

Nesses confrontos, imperava a verdadeira valentia e não havia lugar para timoratos: tanto o atacante quanto o defensor davam de bico, iam na bola para rachar e, embora apenas os zagueiros levassem fama de cruéis – Pavão, do Flamengo, Pinheiro, do Fluminense, e Tomé, do Botafogo, foram, durante anos, os equivalentes de Bellini na tarefa de limpar a área -, era comum que terminassem um jogo com as pernas tão ensangüentadas quanto os centroavantes. E é bom saber que Bellini nunca quebrou ninguém. Ao contrário, ele é que, em seus tempos de Vasco, teve o malar afundado e um menisco rompido. Só não ia regularmente para o estaleiro por sua excepcional condição atlética. Por sinal que seu apelido, tanto no Vasco quanto na seleção, era “Boi” – sinônimo de força, trabalho, resistência.

Ninguém jamais o considerou um beque classudo – ao contrário do admirado Mauro, zagueiro central do São Paulo e seu reserva na seleção. Aliás, nunca houve dúvida de que, entre os titulares de 1958, Bellini era o único jogador comparativamente sem técnica. Mas, com quem era comparado? Com Didi, Pelé, Garrincha, Nilton Santos, Djalma Santos, Orlando, Zito, Zagallo e o próprio Vavá. Apesar disso, ninguém discutia que, por tudo que Bellini representava – a correção, a sobriedade, a liderança, a personalidade -, o capitão daquele time só podia ser ele. Enquanto o tivesse com a braçadeira, a seleção brasileira seria um time equilibrado – porque haveria um homem lá atrás, para garantir o cerebralismo de Didi, as firulas de Garrincha ou a juventude de Pelé. Ninguém mais líder e com maior autoridade, inclusive para dar broncas nos jogadores mais velhos e famosos e, quando preciso, chamar o time à responsabilidade.

Foi o que aconteceu durante toda a Copa e, mais ainda, na partida final, quando a Suécia fez o primeiro gol, aos 4 minutos de jogo, sem que o Brasil tivesse tocado na bola. Naquele momento, ouvindo o jogo pelo rádio, 50 milhões de brasileiros se entreolharam. Mais uma vez, por melhor que fosse a campanha que viesse fazendo, o Brasil iria tremer na decisão. Era o fantasma de 1950, quando o Brasil ganhara de todo mundo e perdera o último jogo, contra o Uruguai, em pleno Maracanã. E, agora, de novo: a seleção vinha muito bem, passara por todo mundo – Áustria, Inglaterra, URSS, País de Gales e França – e chegara à final contra os donos da casa como favorita absoluta. Pois, de repente, a Suécia fazia 1 x 0!

Ficou famoso o gesto de Didi caminhando lentamente com a bola debaixo do braço, da área do Brasil ao meio-de-campo, tranqüilizando os colegas e dizendo: “Calma, pessoal. Vamos encher esses gringos”. Mas poucos sabem que, enquanto os suecos comemoravam o gol, quem recolheu a bola no fundo das redes de Gilmar e a entregou calmamente a Didi foi Bellini, instruindo-o a segurar o time. O Brasil logo se reencontrou, começou a dar show e virou para 4 x 1. Ainda tomou um segundo gol (irregular, o sueco estava impedido), mas fechou o placar em 5 x 2, com o quinto gol (de Pelé) coincidindo com o apito final do árbitro francês. Terminava ali a Copa do Mundo e, 20 minutos depois, Bellini faria o gesto histórico.

A conquista da Copa deu um novo status a todos os jogadores quando eles voltaram para seus clubes no Brasil (sim, todos jogavam aqui). Bastava ser campeão do mundo para cada um deles nunca mais precisar pagar um cafezinho, um jantar ou uma corrida de táxi em qualquer cidade do país – pelo menos no primeiro ano. As homenagens não paravam – aonde fossem, era um festival de banquetes, discursos e diplomas. (Já a casa própria, os carros e a aposentadoria precoce nunca saíram da promessa.) Os considerados mais fotogênicos, como Gilmar, Orlando e Zito, foram convidados a estrelar anúncios de automóveis, de camisas e de barbeadores elétricos.

Bellini, então, nem se fala. Anunciou toda espécie de produtos, apareceu de galã numa fotonovela e foi convidado (pelo diretor Lima Barreto, que começava a preparar Quelé do Pajeú) a tentar o cinema – chegou até a fazer um teste, em que tinha de beijar a jovem estrela Rossana Ghessa. E o empresário Harry Stone, “embaixador” do cinema americano no Brasil, tentou a todo custo levá-lo para a Fox, em Hollywood. De repente, Bellini poderia estar contracenando, quem sabe, com Carol Lynley, Diane Varsi ou Lee Remick, as jovens estrelas da Fox naquele ano. Mas o Vasco – que já tinha recusado uma proposta do Real Madrid pelo seu passe – não o liberou, e Bellini também não se esforçou para dobrar os cartolas. Tinha o bom senso de só aceitar as propostas mais realistas – nada de pôr seu chapéu onde não pudesse alcançar.

Além disso, ele não era apenas o capitão, mas uma espécie de símbolo do Vasco. E foi nessa condição que comandou a Cruz de Malta na grande campanha do time no Campeonato Carioca daquele 1958 – até acontecer algo que ameaçou balançar o pedestal do herói.

A duas rodadas do final do campeonato, disputado por pontos corridos, o Vasco estava quatro pontos à frente de seus mais próximos perseguidores, o Botafogo e o Flamengo. Justamente os adversários que ele iria enfrentar nas duas últimas partidas. Um empate numa delas garantiria o título – porque cada vitória representava na época dois pontos. Pois o Vasco perdeu os dois jogos – para o Botafogo por 2 x 0, demolido por Garrincha, e, no domingo seguinte, para um Flamengo irresistível, por 3 x 1. Com isso, os três times terminaram empatados em primeiro lugar, o que obrigaria a um torneio triangular para apurar o campeão. Ou supercampeão, porque aquele parecia um supercampeonato.

Foram para o turno extra, e uma combinação quase impossível de resultados aconteceu: o Vasco derrotou o Flamengo, o Flamengo derrotou o Botafogo e o Botafogo derrotou o Vasco. Tudo igual de novo, os clubes teriam de voltar a se enfrentar e, a esta altura, a competição já se tornara um supersupercampeonato, como nunca tinha havido antes. Mas, em São Januário e nos armazéns da Rua do Acre, no Centro do Rio, redutos dos ricos portugueses vascaínos, estes começaram a se perguntar: por que o Vasco dera para perder justamente no fim do campeonato?

Um dirigente mais afoito sugeriu que a súbita queda de produção se devia ao fato de que alguns dos jogadores-chave da equipe, como Bellini, o quarto-zagueiro Orlando, o meio-campista Écio, o atacante Almir (o “Pernambuquinho”) e outros, moravam em Copacabana e freqüentavam as agitadas noites do Posto 6, em torno das boêmias ruas Leopoldo Miguez e Miguel Lemos. O baixo rendimento coincidia também com uma reivindicação dos jogadores por melhores prêmios nas vitórias – o chamado “bicho”. Como não tivessem sido atendidos, os jogadores estariam fazendo corpo mole. Bellini, como capitão do time, fora o encaminhador do pedido dos jogadores. Mas, e se fosse também o líder da rebelião? Além disso, morava (com Almir, na Leopoldo Miguez) no meio da zona dos “inferninhos” de Copacabana. Bellini defendeu seus colegas e se defendeu, mas os dirigentes não pareceram se convencer.

Os ataques eram injustos, e Bellini se ressentiu. Era o tipo de coisa que o esmagava: ver sua palavra e seu caráter postos em dúvida. Conhecia seus colegas e sabia que ninguém no Vasco estava dando menos do que podia – empates e derrotas faziam parte do futebol, e o Vasco não era o único time cheio de campeões do mundo (o Botafogo e o Flamengo também tinham os seus).

Com esforço, engolindo sapos, Bellini conseguiu apagar os incêndios junto à diretoria. E, graças aos jogadores, o Vasco chegou aonde queria: ao título do campeonato. Para isso, ganhou do Botafogo, o Botafogo empatou com o Flamengo e o Flamengo não passou do empate com o Vasco. Donde, Vasco supersupercampeão – título que, com justiça, tornar-se-ia um dos orgulhos dos cruz-maltinos. Por causa dele, muito depois, nos anos 1980, Bellini seria eleito o zagueiro central do “Vasco de todos os tempos”, escolhido pelos leitores da revista Placar. Já então ninguém se lembrava de que aquela conquista nascera na esteira de uma crise que deixara o capitão do Vasco profundamente magoado. Ele era assim: quase indestrutível por fora, frágil e sensível por dentro.

Em 1959, mudaram os dirigentes, e Bellini continuou no clube, mas algo se quebrara. Motivo pelo qual, em 1961, não se opôs quando o Vasco, já contando com o jovem e promissor Brito, vendeu seu passe para o São Paulo, que, um ano antes, perdera Mauro para o Santos.

E, com Mauro, Bellini viveu um episódio na seleção que, no futebol profissional, talvez nenhum outro jogador teria protagonizado.

Em 1962, o Brasil partiu para o Chile a fim de defender seu título de campeão mundial. Os jogadores estavam quatro anos mais velhos, e muita gente boa surgira entre uma Copa e outra. Mas a superstição, a tradição ou seja o que for fizeram com que a então CBD (hoje CBF) resolvesse manter a base do time de 1958. E, com isso, Gilmar, Djalma Santos, Bellini, Nilton Santos, Zito, Didi, Garrincha, Vavá, Pelé e Zagallo embarcaram como titulares. A única modificação era o quarto-zagueiro do Bangu, Zózimo, reserva em 1958, no lugar de Orlando, então jogando na Argentina – acredite ou não, os jogadores que atuavam fora do país não costumavam ser convocados. (A outra alteração seria uma fatalidade: Pelé se contundiria logo no segundo jogo, sendo substituído pelo botafoguense Amarildo.) Como de praxe em todas as partidas da seleção naqueles quatro anos, Bellini seria o capitão. E Mauro, mais uma vez, seu reserva.

Mas, então, algo aconteceu. Ao ser informado pelo treinador Aymoré Moreira de que, embora estivesse treinando melhor do que todos, continuaria na reserva, Mauro não se conformou. Já fora reserva de Pinheiro, na Copa de 1954, e de Bellini, em 1958. A Copa de 1962, com ele às vésperas dos 32 anos, seria provavelmente a sua última. Diante de Aymoré, foi calmo, mas firme: desta vez, ou jogava ou preferia voltar para o Brasil. Os dirigentes não esperavam por essa reação. Mas Aymoré, safo à beça, não passou recibo. Emendou de primeira:

“Era o que esperávamos ouvir, Mauro. O titular será você. E será também o capitão.”

Tudo indicava uma crise na seleção. Onde já se vira um jogador se auto-escalar no grito? E nem Bellini se permitiria ser barrado naquelas condições. Muitos pressentiram ali a taça batendo asas. Pois, para surpresa geral, ao se ver despojado da condição de titular e capitão de um time que tinha tudo para ser bicampeão do mundo, Bellini apenas disse:

“É justo. Agora é o Mauro.”

Todos se admiraram. O próprio Mauro se surpreendeu. Quem, além de Bellini, teria essa grandeza? Não que os dois fossem assim tão amigos. Davam-se bem – cumprimentavam-se antes das partidas, mas só isso, sem maiores profundidades. E o mais impressionante é que, embora quase ninguém soubesse, os dois tinham a mesma origem clubística.

Mauro, nascido em Poços de Caldas (MG), também em 1930, e revelado pelo time de sua cidade, fora contratado pela Sociedade Esportiva Sanjoanense, da pequena São João da Boa Vista (SP), em 1947. Suas atuações – realçadas por seu 1,85 metro, pela elegância com que desarmava os adversários e pela alta categoria com que tratava a bola – fizeram com que chamasse a atenção de um olheiro do São Paulo, e este o levou para suas cores em 1948. Com isso, o Sanjoanense viu-se, de repente, em falta de um zagueiro. Pois um de seus dirigentes recomendou a contratação de um jovem, “tão bom quanto Mauro”, que se revelara em Itapira – ninguém menos que o garoto Bellini. E, assim, em meados daquele ano, Bellini sucedeu Mauro na zaga central do Sanjoanense! Que outro clube do porte deste pode se gabar de ter cedido os zagueiros – e capitães – do Brasil em duas Copas do Mundo?

Do Chile em diante, Bellini e Mauro passaram a ver-se como irmãos. Durante 40 anos, até a morte de Mauro, em 2002, foram os melhores amigos um do outro.

Entre 1958 e 1963, o Brasil tinha dois dos três homens mais bonitos do mundo: o zagueiro Hideraldo Luiz Bellini, o compositor de bossa nova Antonio Carlos Jobim e, como se chamava mesmo, ah, sim, aquele ator francês, Alain Delon. E honni soit qui mal y pense, porque essa era a opinião de um homem acima de qualquer suspeita: o também compositor da bossa nova Ronaldo Bôscoli, um dos grandes garanhões da República. Bôscoli dizia isso porque era o que ouvia de todas as mulheres que conquistava – e pode crer que sua amostragem era representativa. Dos três, no entanto, Delon morava longe, em algum lugar na França, e Jobim, além de solidamente casado, só circulava pelos bares e praias de Ipanema. O único que podia ser visto, ao vivo ou pela televisão, publicamente, todos os domingos e, como se não bastasse, de calção (e chuteiras) era Bellini.

Não admira que, de repente, muitas vedetes do teatro da Praça Tiradentes, uma ou outra ex-miss Brasil e algumas cantoras de rádio (não necessariamente vascaínas) tivessem começado a se interessar por futebol – rara a semana em que os “Mexericos da Candinha”, da Revista do Rádio, não ligavam uma delas a Bellini. Tentando conquistar uma fatia do público feminino, também as revistas esportivas, decididamente masculinas, viviam estampando Bellini em suas capas. E sabe-se lá quantas moças não o esperaram no portão em São Januário à saída dos treinos? Moças, aliás, que eram a principal clientela de sua loja, a Calçados Bellini, no Centro Comercial de Copacabana, na Rua Siqueira Campos. Mas, mesmo com a classe dos sapatos que vendia, todos finos e feitos à mão, a loja não deu certo – porque, viajando com o Vasco ou com a seleção, ele pouco parava no Rio. (Acabou vendendo-a para Fernando, goleiro do Flamengo.)

Com tudo isso, ninguém conseguia flagrar Bellini em off-side com uma fã. Sua própria “noiva” em Itapira, soube-se depois, era apenas uma velha amiga. Bellini até posara com ela para uma reportagem da Manchete Esportiva feita na cidade, mas era de araque. Foi por isso que, numa homenagem que seus conterrâneos lhe prestaram logo depois da Copa de 1958, ao conhecer uma linda colegial itapirense chamada Giselda, Bellini não viu nenhum problema em… apaixonar-se!

Os dois foram apresentados numa festa, e Giselda também gostou dele, mas não deu muita importância à coisa. Não que estar na presença de um herói nacional, e sentir o interesse dele por ela, não a alterasse. O problema era que tinha apenas 15 anos – e Bellini, 28. O próprio Bellini, só algum tempo depois, se deu conta da diferença de idade – “Eu podia ser seu pai!” -, mas, quando isso aconteceu, já se sentia “namorado dela”. As famílias se encantaram com o romance e ficou combinado que o casamento esperaria até que Giselda se formasse como normalista.

Foi uma longa espera – até que, finalmente, se casaram, em janeiro de 1963. A esta altura, Bellini já estava jogando no São Paulo e ainda teria mais uma passagem pela seleção: na Copa do Mundo na Inglaterra, em 1966. Ele e outros veteranos das Copas anteriores: Gilmar, Djalma Santos, Orlando, Altair, Zito, Dino Sani, Garrincha e Pelé. Exceto Pelé, todos tinham sido convocados não pelo que estavam jogando, mas por serviços prestados no passado – a CBD achava que eles tinham “o direito de ser tricampeões do mundo”, título que a entidade dava como no papo. Bem, o Brasil não foi tri daquela vez e a decepção foi tanta que, na volta para casa, muitos daqueles jogadores consideraram a hipótese de encerrar a carreira.

Bellini era um deles. Já estava com 36 anos e ninguém o censuraria se fizesse isso. Mas sentia-se bem no São Paulo, ainda gostava de jogar e se julgava com fôlego para mais dois ou três anos – nunca fumara, nunca bebera, nunca fora de farras. O que o desanimava era a falta de títulos, porque aqueles eram os anos de Pelé no Santos, e não sobrava para ninguém no futebol paulista.

No começo de 1968, foi para o Atlético Paranaense, onde reencontrou na lateral direita seu velho amigo Djalma Santos, também às vésperas da aposentadoria. Para um clube fora do eixo Rio-São Paulo, devia ser um luxo contar com dois bicampeões do mundo, mas nem por isso o Atlético Paranaense conquistou um título. E, assim, Bellini declarou penduradas as chuteiras no dia 20 de julho de 1969. Data, para ele, difícil de esquecer: quase no mesmo instante em que ele se despedia de seu território – a grande área -, o astronauta americano pisava pela primeira vez na Lua.

O velho clichê do jogador de futebol que pára de jogar e não sabe o que fazer da vida nunca se aplicou a Bellini. Sua segunda carreira, fora dos campos, foi tão surpreendente quanto vitoriosa. De 1970 a 1978, em sociedade com os cunhados, aplicou seu capital e prestígio em um supermercado (o Viva Bem), na Avenida Brigadeiro Luiz Antonio; nos dois anos seguintes, jogou-se com grande prazer na aventura de uma superdoceria na Avenida Sumaré, especializada em milho verde – não por acaso, chamada Milho Verde & Cia. Mas, como costuma acontecer com quem passou a vida nos gramados, às vezes sentia-se incompleto sem uma bola nos pés. Daí, trabalhou na Secretaria Municipal de Esportes, abriu uma escolinha de futebol no Brooklin e prestou bons serviços à Philips (a múlti dos eletroeletrônicos), organizando campeonatos de futebol para os funcionários da empresa em São Paulo.

Até aí, tudo normal – nada que o distinguisse de tantos ex-jogadores. Acontece que Giselda, sua mulher (e mãe de seus filhos Carla e Junior), achava que ele podia fazer melhor. Sabia que, por causa do futebol, Bellini não completara nem o ginásio. Mas sabia também que ele era um homem viajado e inteligente, que falava inglês, espanhol e italiano como autodidata e tinha grande potencial. Por que não convencê-lo a voltar a estudar, mesmo às vésperas dos 50 anos? A própria Giselda, aos 28, em 1971, cursara letras na PUC e se formara quatro anos depois. Ela induziu Bellini a fazer o supletivo, cumprindo em um ano o ciclo secundário, e depois prestar o vestibular para direito. Daí, numa sucessão de triunfos, Bellini passou no vestibular, fez o curso nas Faculdades Integradas de Guarulhos (FIG) e formou-se aos 54 anos. Depois, submeteu-se ao exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), no qual também passou, e, com isso, ganhou a ambicionada carteirinha de advogado. Mas nunca exerceu a profissão – porque não quis. Continuou com sua escolinha de futebol, recusando ofertas para tornar-se técnico ou comentarista esportivo, até aposentar-se de vez.

Giselda, por sua vez, nunca parou. Lecionou na PUC durante oito anos, tempo em que, com orgulho, carregou a imagem de “mulher do Bellini”. Depois, mudou-se para o Colégio Sion, onde está até hoje, cuidando de todos os segmentos da área de língua portuguesa tendo em vista o vestibular. E o jogo se inverteu: certa vez, Bellini foi buscá-la na escola e tiveram de rir quando ele foi anunciado como o “marido da professora”.

Giselda se orgulha de sua carreira no magistério, mas o que gosta mesmo é de dedicar-se a Bellini. Os dois formam um atraente casal quando passeiam, bonitos e no capricho, pelas ruas do bairro de Higienópolis, onde moram. Os filhos, cada qual em sua especialidade, estão realizados.

Aos 78 anos, feitos por estes dias, Bellini mantém o mesmo peso e quase a mesma altura (subtraia, talvez, 1 ou 2 centímetros) dos tempos em que, pelo Vasco ou pela seleção, enfrentava craques como o francês Fontaine, o húngaro Puskas, os argentinos Di Stéfano e Sívori, o português Eusébio e – por que não? – os brasileiros Dida, Evaristo, Quarentinha, Julinho, Ademir da Guia. Ou que, pelo São Paulo, de repente via-se sozinho diante de Dorval, Mengalvio, Coutinho, Pelé e Pepe – todo o ataque do Santos – entrando a galope na sua área, trocando passes, a bola quase invisível. E, olhe, ele não fazia feio.

Há muito do que se lembrar. E devem ser lindas as lembranças, bem protegidas do mundo, que Bellini guarda no fundo da memória.

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Lista de Comentários

    Bellini obituaryAKTK - AAJ KI TAZAA KHABAR | AKTK - AAJ KI TAZAA KHABAR - 23 de março de 2014

    […] a football player, particularly the hard, combative player I am said to be.” According to an interview in 2008 with Brasileiros magazine, he also trained as a lawyer, though he never practised. In recent years he had suffered from […]

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    Bellini | goalpost360: Nigeria Football / Soccer, Highlights, Scores - 23 de março de 2014

    […] a football player, particularly the hard, combative player I am said to be.” According to an interview in 2008 with Brasileiros magazine, he also trained as a lawyer, though he never practised. In recent years he had suffered from […]

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    Beline - 20 de março de 2014

    Ha jogadores que são queridos por todas as torcidas mesmo entre os maiores adversários.
    Leonidas, Zizinho,Garrincha, Pelé,Nilton Santos ,Beline, Junior, Socrates,Neimar

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