Paulo Francis, o homem-bomba

“Ele vai fazer falta”, dizia o necrológio da Veja. Mas, 13 anos depois, o jornalista mais barulhento e menos ignorado do Brasil desde Carlos Lacerda precisa de um filme para ser relembrado. Leia aqui seis depoimentos sobre este campeão da polêmica

Paulo Francis, aliás, Franz Paulo Heilborn, morreu na manhã de 4 de fevereiro de 1997, no duplex em que morava com a mulher, Sonia Nolasco, na Dag Hammarskjöld Plaza, vizinha da ONU, em Manhattan. Sofreu um enfarte fulminante.

Vinha se queixando de dores no ombro esquerdo, mas Paulo Francis – nome artístico que adotou quando se aventurara pelos palcos, sob a tutela do diretor Paschoal Carlos Magno – não lhe deu maior importância. Bursite, tinha diagnosticado o doutor Jesus Cheda, médico que costumava acudir a colônia brasileira em Nova York e que, segundo depoimento de Lucas Mendes, âncora do programa Manhattan Connection, da GNT, não lhe cobrava as consultas.
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Aos 66 anos, Francis andava afiadíssimo. Morando desde os anos 1970 na cidade que para ele simbolizava o umbigo da civilização, fez-se, no Brasil, uma celebridade à distância. Assinava no Globo e no O Estado de S. Paulo uma coluna semanal que, se fosse para ser mordida, mataria instantaneamente pelo veneno que destilava.

Catapultado para a telinha, deu plena vazão ao ator que nunca chegara plenamente a ser, histriônico, caricato, mas categórico, uma espécie de kaiser do achincalhe e da esculhambação. Esbaldava-se no jornal da noite da Globo. E cantarolava, xingava e caluniava no Manhattan Connection. Virou ícone da TV – à altura do Chacrinha e da Zebrinha da Loteria Esportiva.

Ganhou, ao morrer, capa da Veja (“Ele vai fazer falta”). Contudo, por mais que tenha gerado uma prole de admiradores e epígonos – “Ao contrário de FHC, o que consagrou Francis foi a comparação com seus sucessores”, comenta o jornalista Luís Nassif -, passaram-se 12 anos até que alguém se lembrasse de encarar a responsabilidade de avaliar-lhe seriamente o legado.

Caro Francis, o documentário de 90 minutos de Nelson Hoineff, é, desde o título, uma homenagem escarrada da parte de quem viveu com Francis uma amizade que descia à intimidade de hospedar-se na casa dele e de disputar com os outros afilhados espirituais o campeonatinho de quem melhor sabia nomear, um por um, todos os gatos da família Heilborn. Carinho à parte, o diretor tratou de ouvir desafetos de um polemista que se comprazia em tê-los, aos montões. Temerosos, porém, de que Hoineff produzisse um panegírico, alguns desses inimigos, ou adversários, preferiam nem conferir depois o filme.

Trailer de Caro Francis:

Assim como atraía o ódio, colhia afeto. A persona pública de Paulo Francis, seu ego – palavra adequada – jornalístico acometido por uma permanente diarreia de impropérios, sua performance operística de homem-bomba a serviço de uma única causa – a causa Paulo Francis -, não combinava com um sujeito caseiro, propenso à rotina, extremamente atencioso com os amigos dispostos a escutá-lo em seus solilóquios quase sempre notívagos. Era como se o Paulo Francis público fosse o heterônimo desgovernado do Franz Paulo pacífico e amoroso.

Ah, tinha humor. O que muitas vezes deixava o interlocutor sem saber se a virulência de suas palavras tinha conteúdo ou era fogo de artifício movido pela contemplação de seu próprio brilhantismo (neste momento, Francis estava criando a escola de jornalismo brasileiro, segundo a qual os personagens citados nos textos, pejorativamente ou nem tanto, não correspondem às pessoas que elas de fato encarnam).

Atraiu tempestades que semeou. Em uma crônica publicada em 1983 na Folha de S. Paulo, provocou – logo quem! – Caetano Veloso, chamando-o de “pajé doce e maltrapilho”. Reclamava do excesso de reverência de Caetano em uma entrevista com Mick Jagger. Levou o troco. O baiano chamou Francis de “bicha amarga” e “mau caráter” e arrematou: “Essas bonecas travadas são danadinhas”.

Mulheres de têmpera decididamente o agastavam, haja vista Hillary Clinton (a quem se referia como “a bunda”), a prefeita de São Paulo, Luiza Erundina, ainda por cima petista, nordestina e solteira, a atriz Ruth Escobar, a “tamanqueira” que o levou à Justiça.

Da remota agressão a Tônia Carrero, ainda quando ele assinava críticas de teatro, nos anos 1950, Francis se arrependeria. O título do artigo era: “Tônia sem peruca”. Insinuava que Tônia subiu na vida vendendo o corpinho. Anos depois, Paulo Francis apontou sua metralhadora contra… Paulo Francis. “O artigo é sórdido, imperdoável, uma das mais repugnantes vergonhas de minha vida”, escreveu. A autocrítica não veio a tempo de evitar um soco desferido pelo ator italiano Adolfo Celi, marido de Tônia, e uma cusparada do sempre cavalheiresco Paulo Autran. Num caso e no outro, Francis não reagiu.

Foi trotskista na juventude – o que, ao contrário do que se supõe, não configura uma militância “de esquerda” – e admirador da Revolução Cubana, mas, quando a gangorra oscilou para o outro lado, Francis foi capaz de se encantar com Fernando Collor e tornou-se comensal de Paulo Maluf, que costumava convidá-lo para jantares feéricos quando de passagem por Nova York. Maluf lhe continua fiel. Sobre Caro Francis, disse: “Paulo Francis foi homem de enorme sinceridade”.

A política, para Francis, era feita de simpatias e ojerizas. Não passava nem pela reflexão nem pela informação. A bílis o guiava, soberana. Por isso, a mistura de disparates preconceituosos com intuições geniais. Coerência, só para com os inimigos. A esquerda, o PT, “Ribamar” (o então presidente José Sarney), Lula, Itamar Franco. De Fernando Henrique, disse: “É elegante, é bonito. É um presidente que nos orgulha, porque temos sido governados por tipos estranhíssimos”. Mas também sabia ser hostil a FHC.

Preso quatro vezes pelo regime fardado, defendia o fechamento do Congresso e uma espécie de ditadura dos bem-nascidos e bem-pensantes. Queria entregar a Amazônia aos americanos e privatizar, se não simplesmente fechar, a Petrobras, “cabine de emprego” e “uma estatal ineficiente e inoperante”. A Petrobras é hoje a quinta maior companhia de energia do mundo – a maior da América Latina.

É à Petrobras, aliás, que Elio Gaspari, então correspondente de Veja em Nova York e parceiro de Francis nas capitosas massas do restaurante Bravo Gianni, atribui o assassinato – sem metáfora – do amigo. No Manhattan Connection, Francis afirmara que os diretores da estatal tinham contas milionárias no exterior. Milhões e milhões de dólares. Mesmo vindo de alguém como Paulo Francis, a frase parecia tão estapafúrdia que Lucas Mendes, o âncora do programa, cobrou: “Mas que diretores? A fonte é segura?”. O documentário de Nelson Hoineff reproduz o constrangimento da bancada. Francis reitera: “É verdade. Um amigo meu, advogado…”

A diretoria da Petrobras entrou com um processo cobrando 100 milhões de dólares por danos morais. Pior: na corte americana. Francis não quis desmentir e, bem a seu estilo, reagiu: “Estão querendo me silenciar”. Nos bastidores, sentiu o golpe. Andava cabisbaixo e agoniado, nos últimos dias de vida.

Francis passara por apertos financeiros, no início de seu exílio voluntário na América, mas acabou por amealhar um patrimônio mais do que razoável (os dois apartamentos em Manhattan, uma casa em Petrópolis, o salário mensal de 20 mil dólares só no Estadão e a conta bancária avaliada em três milhões de dólares e administrada, sabe-se hoje, por seu amigo Ronald Levinsohn, aquele da Caderneta Delfin). Tudo isso podia, de repente, virar pó.

Era de fato tão sensível a essa questão de dinheiro que chegou a comentar com um amigo a gênese de sua blindada aversão a Lula e a Brizola, por ocasião da primeira eleição pós-ditadura, em 1989. Suspeitava que um dos dois, se eleito, viesse a declarar a moratória da dívida brasileira. Quando aconteceu a revolução dos aiatolás, lembrava Francis, os bancos americanos congelaram os depósitos das empresas e dos cidadãos iranianos nos Estados Unidos. Era uma ideia meio delirante, das muitas que teve, mas Francis temia de fato que acontecesse o mesmo com o Brasil.

Não sobreviveu para ver o operário nordestino, de esquerda e de poucas letras, presidente da República. Fácil adivinhar que não haveria de lhe conceder um só minuto de trégua, em suas diatribes no papel e no vídeo. Não haveria de poupá-lo nem mesmo no irônico dia em que, na contramão de todas as expectativas sabichonas, Lula, isso sim, saldou de vez a conta que o Brasil de seus antecessores pendurava junto ao FMI.

NELSON HOINEFF
Jornalista e cineasta, escreveu e dirigiu o documentário Caro Francis, lançado no final de 2009

Paulo Francis era um sujeito que, se soubesse que você estava resfriado, era capaz de pegar um avião em Nova York e trazer uma aspirina para você no Rio de Janeiro. Ele me passava essa disposição. Enquanto eu filmava Caro Francis, me surpreendi que não era só comigo. O documentário é uma sucessão de depoimentos em que as pessoas mostram como ele era gentil, prestativo, amigo dos amigos. Não é por acaso este título afetivo, Caro Francis. Ele era afetuoso com os outros, o filme quer ser afetuoso com ele. Houve quem reclamasse: ‘Só fala bem…’. Nunca tive a pretensão de fazer uma peça jornalística, isenta e investigativa. Nem por isso deixei de ouvir gente que discordava dele.

Em setembro de 1978, fui fazer mestrado em Comunicação – o curso se chamava, então, Media Ecology – na Universidade de Nova York, NYU. Algum amigo, não me lembro quem, me fez aquele pedido clássico: ‘Preciso que você entregue esse livro aí pro Francis…’. Eu não tinha especial interesse em conhecer o Francis, tinha a imagem de um cara arrogante, antipático. Minha mulher ligou para casa dele e avisou que deixaria o pacote na portaria. ‘Não, vocês vêm jantar aqui conosco.’ Ainda resisti, mas me resignei. Cheguei lá na casa do Francis e da Sonia às 8 horas de uma noite de outono. Às 8h05, ele já era meu melhor amigo de infância. Continuou assim, por 20 anos: o melhor amigo que já tive.

Em Nova York, depois no Rio, ele me ligava todos os dias. Era um privilégio ouvir suas tiradas. Mas ele não só falava. Era capaz de ouvir os amigos, preocupar-se com eles. Eu trabalhava na TV Manchete e um dia o Silvio Santos, ele próprio, me ligou. Bem objetivo: ‘Quanto você ganha aí?’. Eu respondi, digamos: ’1.400′. O Silvio: ‘Então, te dou 14 mil pra você trabalhar aqui no SBT’. Bem, correu a notícia de que eu ia sair da Manchete. Recebi três telefonemas da Globo. ‘Sabemos que você está saindo da Manchete….’ Soube depois que o Paulo Francis, preocupado, tinha acionado os amigos. Tive de explicar que o SBT estava me pagando dez vezes mais.

Falei com ele na noite antes da morte. Nada especial. Ele me falou da bursite. Não estranhei: dor no braço todo mundo tem. No dia seguinte, o Roberto Moura, meu amigo e crítico de música, ligou cedo: ‘Essa história aí de que o Francis morreu….’. Eu respondi: ‘Besteira, só pode ser trote’. Mas já estava na televisão. Liguei para a Sonia Nolasco, ainda incrédulo. ‘O corpo dele está aqui na minha frente’, disse ela.

Foi a Sonia quem sugeriu, quatro ou cinco anos depois, aqui no Rio: ‘Por que não um filme sobre o Francis?’. Convoquei o Daniel Piza, também muito amigo dele, e rascunhamos um pré-roteiro. Saí para vender, não consegui. Várias empresas, nada. Dois ou três anos depois, nova tentativa: um documentário sobre o Francis pelo filtro de quem o conheceu. Um dia, recebo telefonema da Esso: ‘Está de pé aquele projeto? Temos aqui uma sobra de Lei Rouanet’. Era para um DVD que seria distribuído para 600 pessoas na noite da entrega do Prêmio Esso de Jornalismo.

O documentário é um longa de 90 minutos, nem dez minutos a mais do que o DVD. Acrescentei, por exemplo, o depoimento do Fernando Henrique. E também o do José Serra. Curioso: encontrei o Serra depois do lançamento, quando estava gravando um documentário sobre o Cauby Peixoto com apoio do governo de São Paulo. Ele reclamou que tinha saído mal no Caro Francis. Eu quis saber por quê. Aí, ele confessou que nem tinha visto o filme.

Os que estão lá não reclamaram da edição. Os que não estão também não se queixam. O Elio Gaspari não quis aparecer. O Ivan Lessa alegou problemas na voz. O Millôr também desconversou. O Jaguar, eu nem chamei. Queria fugir daquela coisa obsessiva do Pasquim e o Ziraldo já tinha resumido aquele momento lá com uma frase genial: ‘No Pasquim, todo mundo se considerava Deus’. O Francis não era diferente dos outros.

FERNANDO JORGE
Professor e jornalista, é biógrafo de Aleijadinho, Getúlio e Olavo Bilac

Lancei Vida e Obra do Plagiário Paulo Francis dois meses antes de Paulo Francis falecer. Dizem que ele estava lendo o livro no banheiro quando teve o treco. Infelizmente, não foi bem assim. Não sei sequer se chegou a lê-lo. Mas Sonia Nolasco, a viúva, se queixou, tempos depois, com meu editor (Luiz Fernando Emediato, da Geração Editorial): ‘Você viu, Emediato? Você ajudou a matar o Francis’. Repito: infelizmente, não foi bem assim.

A rigor, o livro foi uma vingança, tenho de confessar. Meu pai era descendente de árabes e certo dia apresentou-se a mim, velhinho, lágrimas nos olhos, ofendido com um artigo do Paulo Francis: ‘Você viu o que ele escreveu sobre os árabes?. Disse que o Alcorão era um livro de autenticidade duvidosa e punha em questão a virgindade das nossas mulheres’. ‘Ah, é?’ – respondi. ‘Ele vai sentir na pele como podemos ser, os beduínos.’

Era fácil criticar Paulo Francis. Ele não sabia escrever, cometia erros selvagens, primários. E se apoderava de frases alheias, pensamentos inteiros, sem usar aspas. Assim, assaltou Shakespeare, Winston Churchill, James Baldwin, Machado de Assis. Pelo nível dos escritores que extorquiu, dá para sentir que ele se tinha em alta conta. Mas como romancista foi um fracasso.

Só num país de pessoas muito mal informadas é que ele poderia ser considerado um intelectual. Seus plágios e suas besteiras eram blindados por uma arrogância que beirava o terrorismo cultural. Ele ameaçava retaliação, difamava, chantageava, patrulhava – e assim se protegia atrás de uma barreira de silêncio amedrontado. Chegava a achincalhar mesmo a quem já não podia se defender. Disse do jornalista Tarso de Castro, de O Pasquim: ‘Um moleque, um patife, um celerado’. Aparentemente, tinham sido amigos.

Suas infâmias tinham tal poder de fogo que Paulo Francis ganhou uma página no jornal de quem ele chamara, no Pasquim, de ‘o homem porcaria’, ‘aquele cuja característica é a imbecilidade’. Tenho dúvidas se foi generosidade do Roberto Marinho. Os ataques de natureza pessoal que ele desencadeava no Globo e no Estadão tinham sua lógica. Foi o Lula, a quem ele chamava de asno ‘petelho’, ignorante, boçal, quem me chamou atenção: ‘Sabe por que os ataques? Porque os Mesquita e os Marinho não têm coragem de dizer o que o Paulo Francis diz, ainda que tivessem vontade de dizê-lo. Paulo Francis é o porta-voz pago por eles’. Lula me disse que não lia Paulo Francis. ‘Ele me odeia. Ele é fascista.’

Fascista e racista e entreguista e colonialista. Queria que a Amazônia fosse entregue a uma potência estrangeira. Tinha desprezo pelos pobres, pelos nordestinos, pelos operários, pelo Brasil. A ex-governadora Benedita da Silva, que foi vítima da artilharia dele pelo fato de ser negra, dizia que Paulo Francis tinha ‘mentalidade de feitor de escravos’.

Mas mesmo com seu poder de intimidar – e o apoio dos jornais para os quais escrevia -, ele não pôde evitar reações como a do teatrólogo Guilherme de Figueiredo, irmão do futuro presidente João Figueiredo. Paulo Francis esculhambou uma peça do Guilherme, naquela sua habitual linguagem. O autor caçou-o por um mês nos bares e restaurantes do Rio até, enfim, topar com ele. Francis comia uma feijoada. Guilherme avançou, apresentou-se e desferiu um único e certeiro soco. Francis desabou sobre a farofa, a linguiça, o feijão, numa queda tão fragorosa como a queda da Bastilha. É justo reconhecer que ele era incapaz de reagir.

Talvez alguns dos clones de Paulo Francis – seus pizzaiolos literários – tenham se convencido sinceramente de que ele era um gênio. Talvez ele próprio se compenetrara tanto em seu papel que acreditou, de fato, ser de uma raça superior. Morreu muito rico de dinheiro – como gostava de alardear junto aos amigos – e muito pobre de espírito. ‘Eu não lhe guardo ódio. Nunca tenho ódio de ninguém; eu me divirto’.

SERGIO AUGUSTO
Jornalista, colunista do O Estado de S. Paulo e escritor, participou da famosa “Patota do Pasquim

Passei os últimos anos sem me encontrar com o Francis. Foi um acaso quem sabe voluntário. Aquele Francis que eu lia ou via na TV me irritava. Eu não concordava em nada. Aquela raiva do Brasil negro, nordestino e popular. O preconceito contra ‘o operário que mal sabia falar’. Aquela paixão pelo Collor, por ele ser, aspas para o Francis, rico, bonito, ocidental, moderno. Aliás, nisso aí, o Francis não estava sozinho. Uma vez, o Zózimo (colunista, Zózimo Barrozo do Amaral), tido como progressista, me disse: ‘O Collor é melhor porque é rico. Não vai querer roubar’. Ledo engano: porque ele era rico é que ele queria roubar mais ainda.

Eu fugia do Francis porque sabia que, se a gente se encontrasse, a gente ia fatalmente discutir e se desentender. E, no entanto, ele era um amigo próximo e querido. Eu me orgulhava, entre outras coisas, de ter sido seu Santo Antônio casamenteiro.

Tinha sido colega da Sonia Nolasco. No Correio da Manhã, anos 1967, 1968, ela, estagiária, chegou a ter um namorico com ele, eu acredito. Tempos depois, encontro-a em Paris. Ela estava fazendo uma bolsa de estudos. De passagem pelo Brasil, me perguntou pelo Francis, que à época já estava em Nova York. Eu disse: ‘Teve um tumor no pescoço, anda meio amargurado da vida’. Ele morava precariamente em um apartamento no Village, Bleecker Street, emprestado pelo Fernando Gasparian, dono da editora Paz e Terra e do nanico Opinião. Eu não resisti: ‘Sabe, Sonia? Acho que ele está precisando é de uma mulher’. Sonia era uma francófila convicta. Foi a Nova York, encontrou-se com o Francis e se casou com ele.

Francis foi uma presença importante na minha vida que, no entanto, ao final, me constrangia. Não é que ele tivesse uma agenda política rígida, de direita, racista, protofascista. Mas viveu de forma aguda aquela polarização que dizia: se você não está do meu lado, você é meu inimigo. Para o remido Paulo Francis, ex-trotskista, a esquerda era o inimigo. Penso no Gore Vidal, por exemplo. Ele escapou da cilada. Em 2000, ele não era nem democrata (o primo dele, Al Gore), nem republicano (George Bush). Apoiou o Ralph Nader. Paulo Francis – por mais que a comparação o crispasse – merecia ter sido menos Paulo Francis e mais Gore Vidal.

Tem mais: vaidoso, ele se encantou com o mundinho com o qual passou a conviver em Nova York. Convites para almoços regados a vinhos caros, políticos de passagem, a adulação dos poderosos. Na minha infância, eu ouvia advertências familiares quanto às ‘más companhias’. Não consigo entender como Paulo Francis se deixou seduzir por figuras como Paulo Maluf e Ronald Levinsohn, aquele do escândalo da caderneta de poupança da Delfin.

O Jaguar, que esteve preso com ele em 1969, alertava: ‘Isso aí que vocês estão vendo é um impostor, não é o verdadeiro Paulo Francis’. Impostor ou não, ele foi tropeçando gloriosamente em suas próprias idiossincrasias, trazendo sal a suas colunas e a programas como o Manhattan Connection, que, sem ele, hoje não é nada. Era previsível, em seu aparente caos mental. Assim como odiava os Clinton, odiaria hoje o Obama.

Mas o verdadeiro Francis foi generoso comigo, nos altos e baixos de minha carreira. Certa vez, quando eu saí da Folha de S. Paulo, ele escreveu nota altamente laudatória, dizendo que, sem mim, a crítica de cinema no Brasil estava morta. Fez uma complicada teoria, que terminava assim: ‘Acabou o asfalto’. Guardei a frase para um livro que ainda não escrevi. É como se ele, em minha defesa, profetizasse: ‘É o fim da civilização’. Era gentil, por mais exagerado que fosse.

CAIO TÚLIO
foi repórter, editor e ombudsman da Folha de S. Paulo, dirigiu a UOL e o iG e é hoje professor de Ética Jornalística

Ao aceitar o cargo de ombudsman da Folha de S. Paulo, em 1989, eu previa a possibilidade de trovões e tempestades com aquele que era o colunista mais agressivo e polêmico que o Brasil já teve. Paulo Francis não gostava de ser criticado, mas eu sabia que perderia o respeito dos leitores se não pudesse eventualmente criticá-lo. Melindres à parte, amizade à parte, eu me propus a cumprir o que considerava meu dever. Mas jamais imaginei que levaria ao desfecho que levou: a saída dele do jornal e uma reação com tal violência, na forma de baixaria e ofensa pessoal. Fiquei com a fama de ter derrubado Paulo Francis. Não sou tão poderoso assim. Ele simplesmente não entendia a função do ombudsman, ficou magoado e usou isso como pretexto para aceitar uma proposta muito mais atraente financeiramente do jornal concorrente.

Eu disse – amizade – e é verdade. Recebia-o em casa sempre que ele passava por Paris, quando eu era correspondente da Folha na França. Conheci seu estilo. O Francis escrevia como um Chico Xavier, como se estivesse psicografando alguém ou a si mesmo. Ia ao telefone e ditava o texto, aos borbotões. Sempre escreveu o que quis e o que não quis. Quando reagiam, assumia um complexo persecutório, uma atitude meio paranoica. Teve em seu favor a lentidão da Justiça. Quando houve o episódio Petrobras, o processo de 100 milhões de dólares, entrou em pânico. Paulo Francis era uma criatura insegura por trás do crítico desabusado.

‘Petismo, Paulo Francis e o mito de Narciso’, foi onde a coisa começou a desandar. Minha primeira coluna sobre o fenômeno Francis (novembro de 1989). Segundo turno da campanha eleitoral, Collor versus Lula. Tempo de paixões. Na coluna, eu falava sobre a fama de petista que a Folha tinha. Considerei o dilema: como provar não ser petista sem provocar reações de que tinha ‘collorido’? Como escrevi em meu livro O Relógio de Pascal: ‘Nesse momento, caiu como uma luva a incontinência verbal de Francis (a imagem é do jornalista Sérgio Augusto), chamada em auxílio na tarefa de isolar a imagem petista’. Ninguém do jornal solicitou ou pautou a interferência, obviamente. Veio de forma natural e acabou na primeira página. Collor deu entrevista, no Sul, acusando os eleitores de Lula de ‘eleger uma proposta radical, que prega a revolução armada e a conquista do poder pelo derramamento de sangue’. Virou manchete: ‘Collor diz que PT prega banho de sangue’. Paginaram-na em conjunto com excerto de uma crônica de Francis, para auxiliar na composição anti-PT: ‘Lula coloca o País ao nível da Nicarágua’. O uso do texto do Paulo Francis na capa, no entanto, provocou polêmica, deu o que falar. Provou que, naquele dia, deu certo a estratégia de bater no PT.

Leitores protestaram, especialmente os petistas. Expliquei na minha coluna de domingo existir diferença sutil entre o Francis dos primeiros cadernos e o da Ilustrada. Ali, ele tinha coluna de uma página inteira, duas vezes por semana, coisa única na imprensa brasileira em todos os tempos. ‘Ele conquistou este espaço por força de suas ideias e de um texto tonitruante. Francis é talvez o único jornalista brasileiro sobre o qual todos os leitores têm uma opinião. A favor ou contra, mas uma opinião’. Mais adiante: ‘Não se deve cobrar jornalismo neste tipo de artigo que o Francis faz. Ali, ele é mais o Francis ficcionista, o cronista dos tempos. Diz besteiras e coisas sábias. Escreve o que muitos pensam e não ousam falar em voz alta. É preconceituoso, vulgar, chuta alguns dados, é o Paulo Francis de sempre – irreverente e destemido. Francis não tem compromisso com ninguém, a não ser com sua cabeça, cuja memória e capacidade de reflexão poucos brasileiros possuem igual’.

Em sua coluna ‘Patrulhas do Lula’, Francis se deu ao trabalho de responder a um ‘ataque’ e então ‘lustrar uma obscuridade’, eu, ‘o que havia jurado não mais fazer há anos’. Perguntou se a obscuridade tinha ‘currículo ou gabarito’ para isso. O ‘lugar-comum’ tomado ‘emprestado’ de Sérgio Augusto, a incontinência verbal, era ‘linguagem de macho’. Pedia também a relação das besteiras que eu o acusara de escrever. Fui chamado de ‘piolho’, acusado de ter deixado a função de ombudsman (‘nome horrendo’) subir à minha cabeça, de ser ‘jovem demais’ para ‘receber tanta adulação’, de estar empenhado na tentativa de assumir o papel ‘pretendido’ por Cláudio Abramo, de ‘mediador das disputas da esquerda’. Como parte dos ‘petelhos’ da redação, eu teria ‘problema afetivo, sexual, em suma’. Terminava assim: ‘Mas não me incomodo de confessar que acho uma grande vileza, no meu próprio jornal, eu ser atacado de maneira tão fuleira e insolente por um colega e suposto amigo’.

Registrei minha disposição de não responder aos ataques e sustentei continuar admirando o Francis ‘ficcionista e jornalista’. Previdentemente alertava: ‘Como muitos outros jornalistas brasileiros, Francis não está preparado para receber críticas’. Recomendava seu consumo enquanto ficcionista de imprensa. Tratava-se de um ranzinza acometido de senilidade precoce na infância e atacado na idade adulta por infantilismo tardio. Cheguei, definitivamente, à conclusão de que nenhum texto de sua autoria podia ser considerado jornalístico, porque a maioria era filtrada por visão distorcida da realidade. ‘Caso os preconceitos dele contra crioulos, homossexuais e nordestinos fossem levados ao pé da letra, e aplicada a lei de imprensa em vigor no Brasil, Francis teria acumulado mais de cem anos de cadeia. A tolerância da Folha, dos leitores e da Justiça é tamanha que ele pode esgrimir seu racismo sem maiores danos do que uma resposta ou outra na imprensa. Sorte dele.’

Francis costumava soltar teorias apocalípticas na Folha e desdizê-las nos comentários para a Rede Globo de Televisão. Durante as comemorações do bicentenário da Revolução Francesa, em Paris, eu mesmo tive a oportunidade de ouvi-lo ditar para a Folha artigos desancando com a reunião de cúpula (‘Dentro de uma semana esta cúpula será varrida da memória como as outras.’), para alguns minutos depois gravar comentário exatamente oposto para a Globo. O que era um ‘nada’ virava ‘expectativa’ de que alguma coisa poderia acontecer. E fui à ferida: ‘Ele gosta de falar mal da Folha na Folha, mas deixou de falar mal da Globo. Já se vão anos (foi em 14 de janeiro de 1971, no Pasquim) que xingou Roberto Marinho de ‘um homem chamado porcaria’. Disse que ‘esgoto’ era ‘uma imagem inexata de RM’. A imagem correta ‘seria poluição pura, inútil e letal”.

A reação veio milhares de decibéis acima. Segundo Francis, quando o critiquei em novembro de 1989, eu estava sendo ardiloso para salvar a cara de Lula. ‘Caio Túlio Costa é um quadro do PT e estava cumprindo o que se chamava no velho PC de ‘tarefa’, não servia a este jornal (a Folha), mas ao PT’. Lamentava: ‘Caio Túlio se propunha explicar aos leitores petelhos do jornal quem era eu, com as minhas excentricidades, e que eu não deveria ser levado a sério como jornalista’. Acusava o golpe: ‘O maior insulto que se pode fazer a um jornalista’.

Na sequência, desfiava uma série de acusações pessoais, artimanha universalmente manjada de responder a críticas tentando desqualificar o crítico. ‘Afinal, quem é Caio Túlio? Desponta para o anonimato. Só é conhecido de um círculo restrito de redações de São Paulo. No Rio, não convém arriscar uma pergunta sobre sua identidade. É ignorada. (…) Eu estou no ápice da minha carreira. Ele é apenas um bedel de jornal. (…) Fico imaginando aquela cara ferrujosa de lagartixa pré-histórica se encolhendo às minhas pauladas. Caio Túlio me causa asco indescritível, não posso garantir que se o encontrar não lhe dê uma chicotada na cara, ou, não, palmadas onde guarda seu ‘intelecto’ (…). Tenta me deixar mal com a direção da Folha e da TV Globo, minhas duas fontes de subsistência. Tenta me intrigar com as duas empresas. É a autodefinição do alcaguete e do canalha menor.’

O índice de leitura de seus textos despencou dos 96 pontos para 36 pontos na pesquisa sobre o perfil do leitor da Folha, realizada em 1989. Ainda assim, a Folha cobriu a proposta financeira feita – em dólares – pelo Estado de S. Paulo. Ele ficou. Sem transparecer rancor ou ressentimento, ele continuou sendo o Paulo Francis que todos conheciam. Mas o Estado voltou à carga e Francis, então, comunicou à Folha, por escrito, que estava de saída. Virou um dos mais altos salários da imprensa. Pessoalmente, achei que ele errou. O leitor do Estado – cuja média de idade era superior à do leitor da Folha, e cujo perfil é de classe média conservadora – teria a mesma paciência com seus excessos, seus chutes e seus palavrões? Um leitor carioca resumiu: a Folha o mantinha pelas suas virtudes e o Estado o levava pelos seus defeitos.

Paulo Francis ficou 14 anos na Folha. O jornal noticiou sua saída, em nota de duas linhas e meia na quarta página, em um sábado, 8 de dezembro de 1990. Ao receber mais cartas cobrando esclarecimentos, a direção do jornal deu mais informações em Nota da Redação incluída no Painel do Leitor. ‘Desde o início do ano, vinham crescendo as divergências de natureza editorial entre a Folha e o correspondente em Nova York’, finalizou a nota. Isso causou alguma incompreensão. Não tinha nada a ver com o ombudsman. O problema mais importante surgiu em momento dos mais delicados, quando o governo Collor disparou dois processos contra o jornal. Francis não proferiu uma palavra de solidariedade. Convidado pelo presidente, tomou um avião e foi jantar com ele em Brasília. Não consultou a direção do jornal.

É o tipo de coisa que faz parte do código informal da Folha. Naquela circunstância, ele devia ter recusado. Mesmo que decidisse ir, deveria ter avisado antes. Mas Paulo Francis sempre se achou muito acima dessas banais condescendências.

DANIEL PIZA
Colunista do O Estado de S. Paulo, organizou o Dicionário da Corte, de Francis

O Paulo Francis que mais me interessava era o comentarista cultural e social, capaz de produzir com frases como: ‘Acabar com Deus no século XIX só podia mesmo dar na idolatria do século XX’. Ele tinha o dom dessas pequenas percepções que podiam eventualmente levar a grandes insights. Como ele tinha memória e tinha cultura, era um privilégio acompanhar os toques dele sobre arte, cinema, teatro. Cresci sorvendo as sacadas do Francis. Além de tudo, no campo estético era um crítico de gosto apurado.

Na política, ele queria era fazer barulho. A qualquer custo. Agent provocateur de carteirinha, não tinha nenhum compromisso com a coerência. Dizia e se desdizia ao sabor das conveniências, ou dos humores pendulares de sua bílis. Marcelo Coelho, na Folha, escreveu: ‘Paulo Francis é a Carmem Miranda do caos’. Vocês acham que ele se irritou? Ao contrário, ele gostou. Ele cultivava o personagem exibicionista, histriônico, caricato, o saltimbanco também chamado Paulo Francis.

Operava em contrastes, na política, e personalizava demais as coisas, a ponto de bater selvagemente numa Luiza Erundina, porque ela era PT, e dizer que Paulo Maluf encarnava o moderno. Apoiou Collor, ‘alto e bonito’, contra Lula, ‘o operário analfabeto’. Quando foi a primeira vez ao Nordeste, sentiu o bafo quente da realidade e voltou horrorizado com ‘a barbárie’. No fundo, não se comportava muito diferentemente daquela elite branca do Rio nos anos 1960, o sentimento disseminado, mesmo entre os intelectuais cariocas, de que eles eram o umbigo do mundo.

Claro que Francis descreveu, sim, uma guinada ideológica, do trotskismo à fé incondicional no capitalismo financeiro, passando por um rápido flerte com o brizolismo. E irrigou toda a minha geração com sua inspirada crítica ao socialismo real e à esquerda marxista. Mas virou um conservador quase fundamentalista, ateu quase crente. O texto dele era um jorro verbal, vertendo farpas. O buraco que Paulo Francis deixou não se preenche.

Há quem diga que sou um discípulo dele, lembrando talvez que tínhamos a intimidade de conversas diárias e ter sido eu o organizador do Dicionário da Corte, seu livro de crônicas jornalísticas.

Até certo ponto, considero um elogio. Procuro também, na minha coluna, falar de coisas variadas e fazer as pessoas se incomodarem. Mas tenho claro que sou muito diferente dele e de outros de seus eventuais discípulos. O insulto não é minha bandeira. Sou tímido, não falo palavrão. Não consigo fazer de mim mesmo o personagem folclórico que o Francis construiu para si e que, desconfio eu, acabou por embriagá-lo.

JAGUAR
Sérgio Jaguaribe é cartunista e foi, nos anos 1960, um dos mestres da revolução chamada O Pasquim

Conheço Paulo Francis como poucas pessoas o conheceram. Gostava muito dele. Foi ele quem brigou comigo. Sei lá, acho que ele estava meio maluco. Continuei gostando. Sempre o achei engraçado, espirituoso. Tinha uma verve demolidora. A morte dele foi uma sacanagem pessoal comigo. Quando mais eu queria me reconciliar com ele, o Paulo Francis se foi. Eu não merecia isso.

Afinal, foi ele quem me convidou para trabalhar na Revista Diners, no final dos anos 1950, bancada pela Becki Klabin. Eu era um ilustrador iniciante, ele gostou do meu estilo. Muito antes da fase do Pasquim, a gente mantinha uma convivência diária, quer dizer, noturna. Íamos tomar uísque na casa do Ivan Lessa e da mãe dele, a cronista Elsie Lessa, um amplo apartamento que dava vista para a praia de Copacabana. O Francis gostava de uísque e de outras coisas mais. Ficávamos até de madrugada. Uma vez, o Francis gritou lá de cima, para um sujeito que, com cara de militar da ativa, fazia ginástica na praia, de manhãzinha: ‘Não adianta nada, seu milico’. Tempos do regime militar.

Ele manteve seu humor até na cadeia. Quando a turma do Pasquim foi presa, em 1969, depois do AI-5, o Paulo Francis, barbado, jogado num colchão de palha, lia impavidamente o Ulysses, do James Joyce, na tradução do Antonio Houaiss. Anotava coisas, com entusiasmo. Só podia estar brincando.

Tinha humor, mas não deixava que os outros tivessem. Lamentei o nosso mal-entendido. Eu gostava muito de ir a Paraty. Vocês sabem, Paraty é uma cidade do arco-íris e hospedado na pousada que fora do Paulo Autran eu fui subitamente bombardeado pela pergunta de um artista local: ‘Paulo Francis é homossexual?’. Fui honesto: ‘Fora o fato de as namoradas dele se tornarem invariavelmente lésbicas, não me consta’. O pintor insistiu ter visto Paulo Francis numa pousada, acompanhado de um efebo ‘lindo de morrer’. ‘Era o Francis, conheço da TV’, jurou.

Tempos depois, o programa Roda Viva me procura pedindo para fazer uma pergunta ao Paulo Francis, o próximo entrevistado. Eu estava em um bar, meio de porre, e a única coisa que me veio foi esta: ‘O que é que você estava fazendo, às escondidas, em Paraty, tais e tais dias atrás?’. Ou não era ele? Na TV, desconversou, mas no jornal ele me presenteou com uma página de esculhambação, em que a acusação menos violenta era de que eu era alcoólatra e filho da mãe. Sobrou até para minha então mulher, a poeta e tradutora Olga Savary.

Pior para o Paulo Francis, a história repercutiu. O Jô Soares me convidou para o programa dele e Paraty e o efebo foram naturalmente o tema principal. Depois do programa, no camarim, de cuecas, o Jô insistia: ‘Mas será que ele gosta mesmo…?’.

Nunca tive nada a ver com as preferências dele. Gostava daquele personagem real, tosco, de antigamente, da velha Ipanema, que comia que nem um camponês da Prússia. Certa vez, eu o flagrei no Fox, restaurante da Praça General Osório. O Paulo Francis estava sozinho e devorava um pratarrão de operário. Fiquei olhando através do vidro. Ele me percebeu. ‘Está bom?’ – perguntei. Ele lambeu os lábios, gulosamente, mas não entregou: ‘Está uma merda. Uma merda…’. Era esse o Francis de verdade.

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