Importante achado histórico?

Os judeus sempre se banharam em mikvé, espécie de banheira, em seus rituais de purificação. Uma peça foi descoberta por acaso em Salvador e já é uma preciosidade. Mas se for comprovada sua construção no século 17 passará a ser símbolo da resistência judaica na Bahia

O local tornou-se conhecido como Terreiro de Jesus não em vão. A alcunha foi herdada da época dos primeiros jesuítas, que construíram ao lado do terreno uma pequena capela e o colégio. Hoje, a Praça 15 de Novembro (nome oficial) é uma das mais importantes da cidade de Salvador. Em seus arredores impõem-se monumentos expoentes do cristianismo, numa cidade em que a lenda reza que há uma igreja para cada dia do ano. Nesse domínio arquitetônico da religião católica foi encontrada por acaso e de forma curiosa, em um dos hotéis mais charmosos da capital baiana, uma pequena relíquia judaica, uma mikvé, espécie de banheira usada para rituais de purificação.

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A importância do artefato para a prática do judaísmo já eleva seu status religioso. É a primeira mikvé encontrada na Bahia e, se comprovada a suspeita de que foi construída no século 17, época da inquisição portuguesa e da perseguição aos judeus, passará a ser símbolo da resistência judaica na Bahia, sugerindo que rituais eram realizados exatamente em uma das áreas centrais do terreno opressor. “A casa onde foi encontrada a banheira está cercada por templos cristãos. Seria um risco alguma prática do judaísmo, proibido de maneira rígida e severa pela Igreja Católica”, diz a historiadora Suzana Severs, que integra a equipe das pesquisas histórico-arqueológicas em torno da peça.

Há ainda outra curiosidade, apontada pelo rabino Ariel Oliszewski. A mikvé foi identificada em um casarão onde hoje funciona o Hotel Villa Bahia, antes residência familiar (a peça, aliás, por pouco não foi destruída durante as obras de reforma para o hotel). Segundo Ariel, não seria comum a construção do artefato em casas particulares (em geral, está instalado em sinagogas), já que seu uso é coletivo. Mas, sendo o caso de cristãos-novos, é possível que a casa tenha pertencido a uma família abastada e de vivência religiosa ativa.

“As comunidades judaicas, para se estabelecerem em um local, sempre precisaram de três elementos: uma sinagoga (templo), a Torá (livro sagrado) e uma mikvé”, diz o argentino Ariel, que foi rabino da Sociedade Israelita da Bahia e é atualmente da União Israelita Porto-Alegrense. Ele participou do grupo de estudos que realizou as medições na banheira para verificar a volumetria e o processo de enchimento de água natural – e, então, comprovar a construção como um verdadeiro artefato ritualístico. Ariel observa que, de acordo com as leis judaicas, a banheira deve conter de 700 a mil litros de água, que é coletada da chuva em um reservatório. Nela, as mulheres se purificam após o período menstrual, para voltar a ter contato sexual. Os homens também utilizam a mikvé na sexta à tarde, antes do shabat, dia de descanso semanal na religião judaica. Também é usada para banho de purificação antes do Dia do Perdão, em que os judeus celebram dez dias depois do seu Ano Novo, ficando 24 horas em jejum. Outro uso do artefato é a purificação de novos utensílios domésticos ou daqueles que serão utilizados na preparação da comida. “Só comemos alimentos aptos ao consumo. Então, como adicionar ao seu corpo algo preparado em local que não está puro?”, questiona Ariel.

O uso e práticas em torno da peça ilustram bem a presença e o valor da mikvé na ortodoxia da comunidade judaica. Por outro lado, a banheira, atualmente, também é utilizada nos rituais de conversão ao judaísmo, em um banho que simboliza um novo nascimento. O rabino explica que a mikvé encontrada em Salvador pode ser utilizada, desde que se recupere o reservatório e a sua abertura, para que novamente a água possa ser colhida da natureza e enviada à banheira. Mas, por enquanto, o equipamento está fechado e a prioridade é a pesquisa em torno dele, que definirá a época de sua construção. Indícios apontam para o século 17 – mesmo período de construção do casarão, dos azulejos da banheira e, possivelmente, da técnica de colocação desses ladrilhos. O resultado deve sair antes do final deste ano.

“A questão agora é datar esse enigma. A casa foi construída por volta de 1680. Se a mikvé foi feita junto com a casa, é uma história. Se foi depois, é outra”, diz a historiadora Suzana. Ela destaca que, no final do século 17, além do processo inquisitorial que proibia o judaísmo, já havia monumentos religiosos católicos naquela área. Para se ter ideia, hoje, nos arredores do Terreiro de Jesus estão localizados o Convento e a Igreja do São Francisco, a Igreja da Ordem Terceira de São Francisco, a Igreja da Ordem Terceira de São Domingos e a Igreja de São Pedro dos Clérigos, além da Catedral Basílica, igreja-mor da circunscrição eclesiástica. O Hotel Villa Bahia, formado por parte de dois casarões, fica exatamente no Largo do Cruzeiro de São Francisco.

A pesquisadora destaca que, em todos os estudos inquisitoriais, a prática religiosa utilizando uma mikvé ainda não foi encontrada. Há, segundo ela, uma menção à purificação feminina pós-menstruação em uma família cristã-nova (designação dada em Portugal e Espanha aos judeus convertidos ao cristianismo), que morava em Salvador no século 18. Alguns cristãos-novos, apesar de praticarem abertamente o catolicismo, secretamente continuavam com as práticas religiosas de seus antepassados. Muitos partiram para as colônias – inclusive para o Brasil –, onde os olhos austeros da inquisição pareciam mais distantes. Suzana diz que a pesquisa em torno da peça em Salvador tenta também identificar o primeiro proprietário da casa, para saber se tinha origem judaica. Contudo, mesmo se o resultado dos estudos apontarem a construção da mikvé em um período de maior liberdade religiosa, a partir do século 19, a banheira permanece como registro simbólico da presença dos judeus no Brasil anterior ao século 20. “Isso é significativo para refazer os caminhos das imigrações desse povo”, diz a historiadora, que é professora da Universidade do Estado da Bahia (UNEB).

O grupo de pesquisa foi montado em 2009, sob coordenação da historiadora Berta Wainstein. O diretor do Hotel Villa Bahia, Bruno Guinard, conta que a casa foi adquirida em 2005 e logo se iniciaram as reformas. O pátio interno onde se encontra a mikvé estava coberto de escombros, mas a beleza dos arcos da parede chamou sua atenção. Decidiu, então, restaurar toda a área, embora tenha encontrada certa resistência de arquitetos.

“Quando chamei a restauradora, ela teve a excelente ideia de preservar os azulejos e depois me passou o relatório, no qual identificava que eles eram do século 17”, conta Bruno, que, além do gosto pessoal pelo equipamento, teve a primeira impressão de que estava diante de algo também com valor histórico. Em 2008, o hotel recebeu um grupo de judeus franceses ortodoxos, que queriam comida kasher (preparada de acordo com a Torá). Mesmo com dificuldade, Bruno conseguiu que a alimentação fosse feita e transportada para o hotel – ao que um dos judeus falou, despretensiosamente: “Por que não se faz comida kasher aqui? Você tem uma mikvé para purificar os instrumentos”.  Bruno, com tino e interesse para História e Arquitetura, olhou com outros olhos para aquela pequena “banheira”.

Bruno, que é formado em Zoologia, tem habilidade para arquitetura de interiores e participa da reforma do hotel que dirige. Agora, ele pode ter nas mãos uma relíquia. O que fazer com ela? Abri-la para a visitação (ou mesmo uso), preservá-la como bem privado ou ampliar a visibilidade da presença judaica na Bahia. O tempo, em breve, vai dizer.

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