A importância das políticas públicas para a difusão da arte

No seminário Colecionismo no Brasil, especialistas apontam problemas e soluções para a formação de coleções

Fotos Luiza Sigulem

O primeiro seminário internacional da revista ARTE!BrasileirosO Colecionismo no Brasil no Século XXI, foi inaugurado na manhã desta terça-feira, dia 4, com o painel A Importância de Diretrizes Políticas e de Políticas Públicas para a Formação de Coleções. No encontro, autoridades discutiram o papel dos governos na viabilização e estimulo da difusão pública da produção artística contemporânea.

Participam da mesa, Marcelo Mattos Araújo, Secretário estadual de Cultura de São Paulo; Carlos Augusto Machado Calil, Secretário municipal de Cultura de São Paulo; José do Nascimento Júnior, presidente do Instituto Brasileiro de Museus, Ibram; Evaristo Martins de Azevedo, presidente da Comissão do Direito às Artes da Ordem dos Advogados do Brasil – (OAB), e Leonor Amarante, curadora e editora da revista ARTE!Brasileiros

Exaltando a iniciativa da ARTE!Brasleiros de realizar uma discussão que qualificou como “extremamente pertinente” para o momento atual das artes no Brasil, o Secretário Marcelo Mattos Araújo defendeu o desenvolvimento de políticas museológicas que estabelecessem bases sólidas para que as instituições possam capacitar suas instalações e recursos humanos.

Para ele, o museu deve ser pensado como um local de pesquisa e educação e deve ganhar importância a partir dessa visão. A partir dessa perspectiva, cada espaço deve ter sua identidade. “Eu acredito que as coleções públicas devem ser pensadas a partir da natureza de cada museu para que disso decorram as diretrizes de seus acervos”, disse.

O Secretário falou também de sua preocupação com a falta e inadequação de espaços físicos capazes de reter o grande acervo que existe “especialmente em cidades como São Paulo”. “O limite de atuação de cada museu é bastante limitado, especialmente em São Paulo. Por isso estamos tentando otimizar investimentos e estamos planejando as agendas de exposições dos acervos para evitar redundância”, disse.

Outro problema apontado é a dificuldade crescente no acesso às coleções. “A doação de coleções a museus é cada vez mais rara. Temos que pensar em estratégias como a constituição de fundos com a finalidade de comprar obras e reunir colaboradores que doem recursos para a compra de obras específicas”, afirmou.

Na sua exposição, Carlos Calil apontou a importância assumida pelas artes plásticas no cenário cultural da cidade de São Paulo. Para ele, este tipo de arte “domina as manifestações artísticas da cidade mais importante do País”. O Secretário municipal falou sobre os espaços criados pela secretaria para receber os acervos como a Coleção de Arte da Cidade que partiu da Biblioteca Mário de Andrade. Nesta coleção, formada por importantes gravuras sobre papel – como ilustrações de Tarsila do Amaral para o livro Pau-Brasil, do seu marido, Oswald de Andrade, além de obras de Anita Malfatti – ganhou um espaço especial na Chácara Lane. “Foi um grande desafio e acabamos por encontrar a Chácara Lane que faz parte do Museu da Cidade e se destinou a receber a coleção que é predominantemente constituida de obras de papel”, afirmou.

Calil também falou da experiência da encontrar a “vocação de cada espaço para receber um tipo de arte”. “Desde 2004, o Centro Cultural de São Paulo, por exemplo, encontrou uma vocação para reunir artes plásticas e especialmente artes contemporâneas”, comentou. Outro espaço que, segundo o Secretário, encontrou sua vocação foi a Casa Número Um. “A fotografia ganhou sede definitiva na Casa Número 1, que fica ao lado do Solar da Marquesa no centro da cidade. O espaço está dedicado às exposições fotográficas”.

O Secretário chamou a atenção sobre as dificuldades enfrentadas pelas coleções, em especial na falta de uma reserva técnica unificada. “Criamos um projeto de montar uma reserva técnica nos porões das coleções municipais de São Paulo no Centro Cultural de São Paulo. Está pronto para ser colocado em prática”, comemorou sob aplausos da plateia.

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O presidente do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), José do Nascimento Júnior, falou sobre a complexidade do tema do colecionismo no Brasil. Segundo ele, os Estados e os indivíduos sempre colecionaram e no mundo é comum que coleções privadas se tornem abertas ao público e que os Estados invistam em suas coleções. No Brasil, porém, existe um problema cultural para que a arte chegue ao público. “Em outros países, dá prestigio colecionar. Se coloca o colecionador socialmente como colabrador no espaço público. Mas, no Brasil, talvez por uma ‘culpa católica’, as pessoas têm receio de dividir o que têm, preferem esconder”, disse.

Outro problema apontado pelo presidente é a escassez de espaços adequados para receber algumas coleções. Apesar disso, ele afirma que os museus brasileiros recebem doações e empréstimos de obras até de espaços internacionais. “São aquém do que seria desejável, mas mostra que apesar das dificuldades, os colecionadores têm confiança na iniciativa pública”, disse.

Mesmo apontando os problemas, José do Nascimento fez questão de ressaltar o bom momento para as artes no Brasil, tanto em termos de destinação de verbas públicas como em termos de público. “Hoje chegamos a R$ 200 milhões por ano. Há 10 anos atrás, eram de R$15 milhões. Também temos um crescimento do consumo de cultura. Saímos de um patamar de 15 milhões de visitantes por ano para os atuais 80 milhões anuais. Isso ajuda que exista a percepção da necessidade do incentivo para que coleções privadas de tornem instituições abertas ao público. Não é importante estatizar as coleções, mas que se abram essas instituições para o público”, afirmou.

José do Nascimento também chamou a atenção para o que considera “a grave questão da ate contemporânea brasileira”. “Temos um problema grave que é a questão da arte contemporânea. Não se coleciona com intensidade. Não teremos o MASP da arte contemporânea daqui a 20 anos. Temos que criar um circulo virtuoso de colecionismo de arte contemporânea brasileira, se não, teremos que ver arte contemporânea brasileira em museus de fora do Brasil”, disse.

Ainda sobre essa importante questão – a de ter obras representativas do Brasil em coleções no Brasil – José do Nascimento chamou a atenção para a importância estratégica da cultura para o desenvolvimento de um país. “Para a sexta economia do mundo, é estratégico do ponto de vista do futuro. É importante projetar no futuro e colecionarmos já. Temos um edital chamado Brasil Contemporâneo, para que formemos coleções com artistas nacionais e que elas possam circular pelo Brasil, também fora do eixo Rio-Sp. E temos que pensar em iniciativas como essa, pensar o colecionismo além das artes. O Barroco Brasileiro, a Arte Popular , a Arte Naïf Brasileira… elas têm valor internacional importante e temos que olhar para isso de forma atenta. Para termos os ícones desses movimentos no Brasil. Para que não aconteça de temos que pedir favor para os outros países para nos conhecermos, para que os outros países não precisem emprestar as nossas obras. Temos que entender a cultura como desenvolvimento do País. Cultura gera emprego, turismo, renda… Temos aí a Copa do Mundo e as Olimpíadas e o legado cultural que vai ficar não pode ser só aeroporto, estádio”, afirmou.

Como soluções para o problema da evasão de obras representativas do Brasil para outros países, o presidente do Ibram aponta a necessidade de mudanças na mentalidade do governo e da sociedade para o desenvolvimento de políticas públicas que facilitem e até incentivem a aquisição dessas obras. “Temos que ter um novo ordenamento jurídico, menos entraves com a receita federal, novo ponto de vista em relação a incentivos. Temos que mudar a mentalidade geral da sociedade de que nem só por incentivo se coleciona. Temos que ter mudanças no processo de gestão da cultura para que possamos fazer valer nossa atual dimensão do ponto de vista econômico e do ponto de vista cultural”, encerrou.

Tomando a palavra, Evaristo Martins de Azevedo, presidente da Comissão do Direito às Artes da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), afirmou que estamos em um momento importante de discutir entraves políticos à difusão da arte, exatamente por esse contexto favorável econômico e social apontado pelo presidente do Ibram.

Evaristo chamou a atenção para um numero alarmante; segundo ele, 70% dos brasileiros nunca foi ao cinema. “Isso é um número grave, ainda mais se considerarmos que é a arte mais acessível. Ficamos pensando nas artes plásticas, nos museus, que são menos populares”, disse. De acordo com ele, “a OAB está pensando em como passar por entraves políticos como custos altíssimos para fazer circular a cultura. Tanto para trazer coleções estrangeiras como nacionais mesmo”, disse.

“Temos exemplos de famílias que se degladiam por heranças que contém obras de arte em detrimento do interesse público, acervos se deteriorando por falta de políticas públicas e problemas jurídicos que não encontram sensibilidade adequada nos juízes que estão acostumadas com questões práticas e não com questões abstratas de que essas coleções precisam circular para o interesse público”, contou ele, para exemplificar alguns dos problemas que a Comissão da OAB enfrenta em relação ao direito às artes. “Temos que trazer sugestões. Não só de advogados, mas também da sociedade civil. Temos que pensar nessas questões. Porque se econtrarmos um caminho, ele alavancará a difusão e a democratização das artes. Nós estamos buscando”, disse.

A curadora e editora da revista ARTE!Brasileiros, Leonor Amarante, falou sobre a importância do colecionador para a promoção da arte. Segundo ela, no ambiente atual, os colecionadores e o setor público tem que se unir para ser o ponto de partida do acesso às artes para o público e, segundo ela, existe vontade por parte dessas pessoas. “Alguns colecionadores já não se contentam apenas em colecionar obras de arte. Constroem museus, espaços… Os acervos tornam o nome do colecionador perene como as obras que eles disponibilizam para o público”, disse.

 

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