Homens na estrada

Inspirado em fotos de Sebastião Salgado, textos de Fernando Pessoa e relatos pessoais dos bailarinos da Cia. Sociedade Masculina, Avà: o Homem que Caminha traz ao Brasil, a renomada coreógrafa suíça Jöelle Bouvier

As duas primeiras montagens do espetáculo de teatro-dança Avà: o Homem que Caminha, ocorridas em outubro, causaram comoção em quem compareceu ao Teatro Geo, no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo. Inicialmente inspirada em uma série de fotos feitas nos anos 1980 por Sebastião Salgado, que retratou garimpeiros em Serra Pelada, no Pará, a coreógrafa suíça Jöelle Bouvier, que vive radicada na França desde a infância e é um ícone da dança contemporânea europeia, aliou à influência das impactantes imagens de Salgado o lirismo de Fernando Pessoa e breves relatos pessoais dos sete bailarinos da Cia. Sociedade Masculina, que compõem o espetáculo.

Com Avá: o Homem que Caminha, Jöelle fez sua primeira incursão profissional (e pessoal) em território latino-americano e também experimentou outro fato inédito: ela jamais havia coreografado para uma companhia exclusivamente composta por homens. Os quase três meses de preparação do espetáculo, em São Paulo, também revelaram a ela grande cumplicidade com os bailarinos. Entrevistada pela Brasileiros durante um ensaio aberto no Studio 3, sede da companhia, Jöelle enfatizou a determinação de artistas diferenciados pela garra: “Nunca tinha trabalhado em uma companhia composta só por homens e descobri que, além da superação dos desafios de formação, eles tiveram de lidar com preconceito e histórias pessoais bem difíceis. Mas eles são como índios guerreiros. Estão mais para tigres enjaulados do que ‘gatinhos’ de companhia”.

Quando faz referência aos dramas pessoais vividos pelos bailarinos, na faixa etária entre 25 e 40 anos, Jöelle revela também que teve dificuldades para equilibrar os elementos narrativos e não deixar que a força dramática dos relatos sobrepusesse à linguagem autônoma da dança. Um deles, Luciano Santos, conta que se tornou órfão ao perder toda a família em um acidente automobilístico, quando tinha apenas 7 anos. José Perez, cubano e o único estrangeiro da companhia, revela que precisou abandonar a ilha de Fidel e romper com a família para apostar no sonho de ser bailarino. Quatro anos mais tarde, estabelecido em uma companhia alemã, custeou uma viagem de sua mãe à Europa e o reencontro foi marcado por um silêncio aflitivo, seguido do orgulho dela em perceber que o filho estava correto em sua decisão.

DETERMINAÇÃO Os movimentos da coreografia de Jöelle Bouvier simbolizam a garra de quem não se deixa entregar

Ao final de cada depoimento, altivos, os sete bailarinos proferem a frase que remete ao título do espetáculo: “Sou um homem que caminha!”. Sentença que é uma metáfora para o exercício autônomo de suas vidas, como defende Jöelle, que, inclusive, revela que a escolha de Fernando Pessoa deu-se não pelo fato de o poeta escrever em português, mas por ele, a despeito de não conseguir o reconhecimento que merecia em vida, ter se desdobrado em múltiplos e sido, também, um “homem que caminhou”.

Propondo uma reunião aparentemente divergente, Jöelle recorreu à música de Pierre Boulez, Clara Nunes e Maysa para potencializar a força dos elementos que compõem Avá: o Homem que Caminha. Mas, vale dizer, apesar da comunhão alcançada em cada novo movimento, salta aos olhos a beleza e a força narrativa da coreografia assinada por ela. O espetáculo voltará a São Paulo em 13 de dezembro, no tradicional Panorama SESI de Dança.

Como outras montagens da companhia, fundada em 2005, pela bailarina Vera Lafer – que divide a direção artística com o coreógrafo Anselmo Zolla e já se apresentou com a Sociedade Masculina na Europa em cinco ocasiões –, Avà também deverá fazer carreira internacional em 2013.

NA PONTA DOS PÉS
por
Fernanda Cirenza

A história de Tatiana Leskova está intimamente ligada à de balés clássicos – Les Sylphides, O Lago dos Cisnes, Coppélia, O Cisne Negro. Também está ligada à história do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, a companhia clássica mais antiga do Brasil, onde ela fez de tudo – atuou como regente diversas vezes, bailarina e coreógrafa. Mas isso é outra história. Agora, aos 90 anos, Madame Leskova, como costuma ser chamada pelos não íntimos, acaba de autografar sua mais recente obra, o livro Ballet Fotográfico – Imagens de uma Bailarina Solta no Mundo(Editora Letradágua).Organizado pelo jornalista Joel Gehlen, a publicação traz 80 imagens de Tatiana, que aparece em situações diversas: interpretando personagens, coreografando balés, dirigindo bailarinos, conversando com amigos, como a que aparece ao lado de Rudolf Nureyev. Há ainda ilustrações (algumas caricaturas engraçadas) que retratam cenas da bailarina.Nascida em Paris nos anos 1920, filha de russos exilados pela revolução, Leskova é um ícone da dança no Brasil. Coreógrafa de gênio e dotada de amplo conhecimento em artes plásticas, ela criou, em 1960, a coreografia Le Foyer de La Danse, com música de Prokofiev (Sinfonia Clássica) e tendo como tema as pinturas a pastel do francês Edgar Degas. Uma modernidade para a época. Madame Leskova teve a sua biografia escrita em 2005 (Uma Bailarina Solta no Mundo, Editora Globo), por Suzana Braga, que agora será lançada em Londres, também em comemoração aos 90 anos da grande bailarina.

Foto: Luiza Sigulem
CELEBRAÇÃO
Capa e contracapa – que reproduz o cartaz de uma apresentação de Tatiana Leskova em Paris – do livro publicado para comemorar os 90 anos bailarina
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