Os novos horizontes geopolíticos da arte

Palestrantes debatem produção e instituições de fora do eixo Europa/EUA, em países que ganham cada vez mais destaque no cenário da arte contemporânea

Em tempos de globalização, o eixo mundial da arte contemporânea se expandiu para além de Europa e América do Norte, dominantes no século XX, e se espalhou pelos cinco continentes. Partindo dessa constatação, o terceiro painel do seminário “Quem É Quem na Arte Contemporânea” reuniu importantes nomes internacionais para discutir “Os Novos Horizontes Geopolíticos da Arte”, através das experiências de algumas instituições de relevância.

A primeira a falar foi a diretora de relacionamento curatorial do Guggenheim Museum de Nova York, Joan Young, que apresentou em detalhes o projeto da instituição para trabalhar com arte norte-africana, sul-asiática, latino-americana e do Oriente Médio. Com enfoque em pesquisa e educação, nos últimos anos o Guggenheim chamou curadores de países “subrepresentados” nos museus e galerias ocidentais para montar exposições, realizar debates, residências etc..

“Esse projeto emergiu da reflexão sobre o que é ser um museu global”, explicou Young. E isso requer engajamento, segundo ela, e cabeça aberta para trabalhar com novos formatos. “É um trabalho difícil de representar de modo tradicional. É preciso respeitar as culturas locais e as tradições históricas e religiosas dos povos.” Com o projeto, o Guggenheim está aumentando e especializando seu acervo, focando também em novas práticas curatoriais. “Há um diálogo mundial com o qual queremos colaborar e aprender, construir raízes mais profundas. É preciso entender os contextos”, concluiu Young.

Paula Tsai, curadora da Ullens Center for Contemporary Art (UCCA), da China, foi a segunda palestrante. Falou sobre o complexo contexto das artes plásticas no país asiático, onde a abertura para o mundo ocidental não representou uma diminuição na censura governamental – que afeta fortemente as possibilidades de criação. “Lidamos com censura, com o ministério da cultura. Temos que mostrar cada obra para o governo. São problemas diários”, explicou Tsai, que afirmou que o país também não conta com uma mídia especializada em arte.

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Ao mesmo tempo, uma rede de artistas jovens luta para construir trabalhos consistentes e relevantes. O centro Ullens, desse modo, se tornou importante nesta direção.  Trata-se de um centro privado, que permite mais liberdade para os artistas, dentro do possível. São 60 pessoas trabalhando na instituição, que já organizou cerca de 80 exposições em seus quatro espaços, e já recebeu cerca de 2 milhões de visitantes .

A terceira a falar foi Snejana Krasteva, curadora no Garage Center for Contemporary Culture, na Rússia.  Em Moscou há quatro meses, ela diz ter encontrado um cenário interessante e desafiador para trabalhar no país, onde questões como homofobia, guerras e o papel de um Estado centralizador pautam o debate. Krasteva apresentou um breve panorama da arte russa nas últimas décadas, passando pelo conceitualismo, pela arte underground durante o período soviético e pelo surgimento do mercado de arte após a queda do regime socialista. “Depois da queda do Muro houve um momento rico, onde os artistas tiveram liberdade como nunca, e fizeram coisas controversas e polêmicas”, disse ela.

A primeira galeria comercial do país foi aberta em 1989 e a partir daí a arte contemporânea começou a ganhar espaço nas instituições. A Bienal de Moscou de 2005 foi um importante marco na consolidação da cena. Sobre o Garage Center, Krasteva ressaltou a qualidade do acervo e a atuação do departamento de pesquisa, que procura resgatar e documentar muito da arte que ficou esquecida no período soviético. “Temos programas de educação, com palestras e apresentações. A parte de publicações também é um ponto muito importante.”

Trabalhando em um país onde a democracia é recente e, aparentemente, ainda um pouco frágil, Krasteva concluiu sua fala com uma citação de Sasha Obukhova: “Arte contemporânea é uma realização para a democracia e outros direitos humanos básicos, como direito de voto, de fala etc. E na Rússia ainda temos muito a fazer”.

A última fala do terceiro painel, que arrancou aplausos dos presentes, foi a do brasileiro Moacir dos Anjos, pesquisador e curador da Fundação Joaquim Nabuco. Ele começou por questionar o próprio nome do seminário, “Quem É Quem na Arte Contemporânea”, para no fim dar um sentido abrangente e coerente para o título. “Esse título pode remeter a uma coisa de celebridades”, disse ele, afirmando que quando nos referimos a um “quem é quem”, dizemos que  há integrantes que fazem parte do cenário, e outros não.

Nesse sentido, o campo da arte contemporânea não é inclusivo, já que define quem – entre artistas, personagens ou instituições – tem competência e qualidade para fazer parte dele. “Para o meio da arte contemporânea há os ‘ninguém’, em uma sociedade atravessada por poderes desiguais. Alguns se impõe a outros, e definem o que deve ser parte do debate ou não.”

Do mesmo modo, voltando ao tema do painel, Dos Anjos explica que há regiões do mundo que são excluídas da arte contemporânea.  Mas as mudanças geopolíticas em curso tem alterado também esse jogo. “O protagonismo de países cuja produção artística antes era ‘ninguém’ hoje viram ‘alguém’. A globalização mudou o quadro.” Basta ver a pouca visibilidade que a arte dos países do BRIC tinham há 20 anos e o espaço que têm hoje. Isso porque esses países afirmaram suas diferenças simbólicas em relação ao que há nos outros lugares. Mostraram suas especificidades. Desse modo, ele conclui, dizendo que ainda é otimista: “Reafirmo a crença no poder da arte de transformar ‘ninguéns em alguéns’”. 

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