O ano é de Dorival Caymmi

2014 marca o centenário do compositor baiano, um dos maiores nomes da música popular brasileira. Saiba mais sobre o autor de “Maracangalha”, “Marina” e “O Mar”

“Poeta, compositor e cantor, Dorival Caymmi é hoje a figura principal da música popular brasileira, pode-se dizer que ele é o próprio povo do Brasil em sua voz mais pura, em sua melodia mais profunda e eterna. Diante do baiano inclinam-se respeitosamente os demais mestres de nossa música, de Antonio Carlos Jobim a Vinicius de Moraes, de João Gilberto a Paulinho da Viola, de Caetano Veloso a Gilberto Gil, os mais velhos e os mais jovens, os da bossa nova, os do sambão, todos quantos compõem, gravam e cantam” –  Jorge Amado

Dorival Caymmi foto

Se 2012 e 2013 foram marcados por celebrações do centenário daquele que deu voz ao sertão nordestino e à cultura popular do semiárido, Luiz Gonzaga, 2014 é o ano de homenagear aquele que, como ninguém, cantou o mar e a cultura popular praieira do litoral nordestino. E esse é apenas um detalhe de sua importância histórica para a MPB. Gênio da raça, baiano nascido em Salvador, em 31 de abril de 1914, Dorival Caymmi, assim como Gonzagão, mudou os rumos da música nacional, e é um dos pais de tudo o que se chamou, desde o século passado, de música popular brasileira. Seu disco conceitual – com a temática do mar – “Canções Praieiras” (1954), por exemplo, traz inegavelmente a base e o caminho a serem seguidos que fizeram nascer a bossa nova, invenção de outro baiano, João Gilberto.

Descendente da mistura de italianos, portugueses e africanos, Caymmi cresceu em um ambiente festivo e, sempre que pôde, buscou o violão do pai para arranhar os primeiros acordes. Contou em uma de suas últimas grandes entrevistas, em 2000, ao jornal Gazeta Mercantil, que aprendeu música ouvindo da janela os amoladores de faca de Salvador, além das baianas que anunciavam seus quitutes como sereias que cantam para seduzir os pescadores. Mas foi nos saraus e nas festas familiares que aprendeu a domar o violão e conheceu o jazz, por meio dos discos importados que seu pai comprava nas lojas de Salvador. Dessa mistura nasceu seu samba insinuante e apimentado que conquistou o mundo na voz de Carmen Miranda.

A carreira musical começou nos anos 1930, quando mudou para o Rio, com o pretexto de virar advogado. Perdeu-se na cidade com o conterrâneo Assis Valente, já famoso por Boas Festas e Cai Cai Balão, e que lhe emprestou a capa do violão para fazer bonito na primeira apresentação de rádio. O primeiro sucesso veio em 1939 na voz de Carmem Miranda, com O que É que a Baiana Tem?, fruto de um acaso ou de um empurrão do destino: Ari Barroso pedira dinheiro demais para ceder uma música para um filme musical da cantora, Banana da Terra, e alguém se lembrou do menino Dorival, bem criado e educado, tímido que só, mas safado na hora de compor sambas cheios de malícia.

Na década seguinte, com canções que retratavam a realidade de sua terra – vivida em terreiros e vielas, portos e praias – consolidou espaço nas rádios brasileiras. O que Caymmi criava, bebendo na cultura de seu povo da Bahia, dos negros de Salvador, era, de fato, diferente de tudo que existia até ali. E não apenas na poesia, mas nas levadas do violão, na voz grave e forte, nas melodias e harmonias. O mar, foi, aos poucos, tornando-se tema predominante em sua obra. A obra-prima É Doce Morrer no Mar, teve seu primeiro verso tirado de Mar Morto, livro do amigo “quase irmão” Jorge Amado. O resto o próprio Jorge fez, durante um desafio de Dorival numa feijoada em que estavam presentes vários escritores.

 

Como explica o antropólogo Antonio Risério em Caymmi: Uma Utopia de Lugar – melhor estudo já publicado sobre o compositor –arcaico e moderno convivem em Caymmi. “Ele nunca se recusou a sondagens musicais. Coexistem em sua obra a tradição e a invenção. O samba da Bahia e o impressionismo europeu. ‘Fico de Debussy, Ravel, até chegar a Leonard Bernstein’, disse. E incursionou à vontade por um gênero musical novo em sua época, um hibridismo urbano, o samba-canção carioca. A bem da verdade, abordara já, de uma outra perspectiva técnica, a aproximação dos gêneros, como em ‘O Mar’, onde o adágio da abertura é seguido por um samba. E roçou outras misturas, como em Dora, além de compor valsa, toada e modinha”.

Os sambas, os sambas-canção e as canções praieiras do cantor, a partir principalmente dos anos 1950, influenciaram as várias gerações de músicos que surgiram pelo País no meio século seguinte. Para muitos, a bossa nova de João Gilberto e Tom Jobim já estava, em grande parte, nas composições de Caymmi.  Perguntado sobre isso, na mesma entrevista à Gazeta, com a sua modéstia característica, ele explicou como era o seu jeito de tocar, tão singular, e os caminhos do experimentalismo que buscou obsessivamente para aprimorar – e elevar – suas composições. Quanto aos créditos, sugeriu que deixasse para os críticos cuidar disso.

Caymmi morreu em 2008, e não deixou um número tão grande de músicas se comparado a outros grandes compositores da MPB. Mas foi impecável no que fez, e isso poucos negam. Deixou sucessos que ainda embalam as emoções, depois de décadas, como Marina, Saudade da Bahia, Maracangalha Modinha Para Gabriela, só para citar algumas. Clássicos populares, reverenciados de modo unânime pela crítica. “Escrevi 400 canções e Dorival Caymmi 70. Mas ele tem 70 canções perfeitas e eu não”, disse certa vez Caetano Veloso. Além de composições, o baiano deixou também três filhos que fizeram história na música brasileira: Dori, Nana e Danilo. 

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Lista de Comentários

    Juci - 28 de maio de 2014

    Dorival Caymmi nasceu no dia 30 (trinta) de abril. O mês referido não tem 31dias.

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    O ano é de Dorival Caymmi | EVS NOTÍCIAS. - 9 de janeiro de 2014

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