50 anos do golpe militar: a vida cotidiana e a cultura em 1964

Com exposição, shows, debates e site, Instituto Moreira Salles investiga como era a vida no País

Cartola e Nelxon Cavaquinho no Zicartola.  Foto: Coleção José Ramos Tinhorão/ Acervo IMS

Cartola e Nelson Cavaquinho no Zicartola – Coleção José Ramos Tinhorão/ Acervo IMS

Do mesmo modo que o aniversário de 50 anos do golpe militar de 1964 – ocorrido no simbólico dia 1º de abril – não merece ser celebrado, ele também não pode passar despercebido. Partindo desta constatação, o Instituto Moreira Salles (IMS), sediado no Rio, organizou para 2014 uma vasta programação cultural sobre o tema, com início marcado para este sábado, dia 8, com a releitura do clássico show Opinião e a abertura da exposição Em 1964.

Diferentemente das muitas atividades que serão realizadas ao longo do ano por governos, instituições e partidos para recordar o golpe – com foco maior na política, na economia e nos conflitos sociais –, o IMS decidiu abordar o momento histórico que vivia o País principalmente através da vida cultural e do cotidiano da população. Sem perder de vista, como explica o curador Paulo Roberto Pires, que estes campos estão sempre entrelaçados. “A ideia é fazer uma imersão, e ver que os anos importantes da história são aqueles em que as coisas grandes estão acontecendo e, ao mesmo tempo, a gente toca a vida. E a cultura tem um papel importante não só como resistência, mas também como ambiência”, diz ele.

Desse modo, Em 1964 expõe tanto a tensão política das fotos de Jorge Bodansky – que registrou em Brasília estudantes universitários ouvindo pelo rádio a notícia do golpe – quanto o dia a dia comum de famílias em feiras, supermercados ou na praia, em fotos de Chico Albuquerque e Henri Ballot. Aproveitando o rico acervo do IMS, a mostra – que tem desdobramento no site www.em1964.com.br – apresenta ainda material da celebrada Caravana Farkas, projeto do pioneiro fotógrafo Thomas Farkas (1924-2011), que documentou junto a um grupo de jovens cineastas várias facetas da cultura popular brasileira, além do documentário Viramundo, de Geraldo Sarno.

Campanha de lançamento "Praia- do-Sol", Foto: Chico Albuquerque / Acervo IMS

Campanha de lançamento “Praia- do-Sol”, Foto: Chico Albuquerque / Acervo IMS

A produção literária brasileira da época ganha destaque através de duas obras de Clarice Lispector, A Paixão Segundo G.H e A Legião Estrangeira, e uma de Otto Lara Resende, O Braço Direito. Do autor estarão expostos datiloscritos em que explica sua motivação para escrever o livro, enquanto de Clarice estarão à mostra os originais das obras. A parte musical da exposição trará, além de uma seleção de canções da época, um espaço dedicado ao Zicartola – mistura de restaurante e bar criado por Cartola e Dona Zica em 1963 que, em menos de dois anos de atividade, marcou a história da música brasileira. Em 1964 dedica ainda sessões às capas da revista Pif-Paf, de Millôr Fernandes (1923-2012), e à entrevistas do programa Roda Viva

Show atualizado

De modo geral, segundo Pires, seja na literatura, no jornalismo, na música, na fotografia ou nas artes plásticas, a produção cultural daquele ano ao mesmo tempo conclui processos que vinham se desenvolvendo e dá as diretrizes ao que iria acontecer dali para frente. E por isso a importância do recorte da mostra apenas em 1964, e não em todo o período da ditadura militar brasileira. “É muito importante ver os quadros panorâmicos, mas às vezes o detalhe é muito relevante. De um lado, é um dos anos mais ‘graves’ da história do País, de outro, é um ano de grandes realizações”.

Entre estas realizações está, destacadamente, o Show Opinião, dirigido por Augusto Boal e que contava com Zé Keti, João do Vale e Nara Leão (posteriormente Maria Bethânia) no elenco. O espetáculo se tornou símbolo da resistência à ditadura e foi visto por milhares de pessoas em diversas cidades do País. “É um encontro do samba de morro com a classe média, que começa fortemente com o Zicartola e com os Centros Populares de Cultura”, explica Pires. Dada a importância do show, o IMS decidiu, mais do que dedicar a ele uma sessão da mostra, chamar a cantora Joyce e a banda Casuarina para fazerem uma releitura do Opinião. O resultado será apresentado no sábado, às 19h, com participação do jornalista Sérgio Cabral, que contará histórias sobre o show original (veja o vídeo).

Zé Keti e Nara Leão no Opinião

Zé Keti e Nara Leão no Opinião

O IMS pretende ainda organizar outros shows ao longo do ano (um deles dedicado à obra de Baden Powell), além de debates e encontros. O site do projeto (www.em1964.com.br) será regularmente abastecido com crônicas da época, avaliações críticas escritas hoje, trechos de filmes, depoimentos etc. Como parte dos eventos, o instituto pretende lançar em março o DVD do filme Cabra Marcado Para Morrer, de Eduardo Coutinho (1933-2014), com material inédito produzido pelo documentarista nos últimos anos.  

“Era um ano em que, até março, antes do golpe, estava todo mundo acreditando numa democracia, ou em um projeto de Brasil que mexesse na estrutura do País. E que no fim deu no que deu… É um ano complicado”, conclui Pires. Se a complexidade do de 1964 nunca será totalmente explicada, ela ganha, 50 anos depois, mais um importante espaço de discussão no IMS.

Serviço – Em 1964
Instituto Moreira Salles (Rua Marquês de São Vicente, 476, Gávea)
Entrada franca; de terça a domingo, das 11h às 20h
Até novembro/ 2014

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