[64 de 100] Do talento de enganar o leitor, segundo Jorge Luiz Borges

Primeira experiência literária do mestre argentino, “História Universal da Infâmia” é um livro que faz ficção com vidas reais por meio do humor e da crueldade

64-INFAMIAEspecialistas na obra do argentino Jorge Luis Borges (1899-1986) bem poderiam excluir “História Universal da Infâmia” do conjunto dos contos de excelência que formam seus livros mais importantes, como “Ficções” e “O Aleph”. Os textos curtos que compõem o volume, depois assumidos por Borges como contos, são biografias inventadas “para pior” de personagens reais, publicados aos sábados no suplemento “Revista Multicolor”, do jornal sensacionalista “A Crítica”, de Buenos Aires, entre 1933 e 1934, quando uma ditadura militar governava a Argentina com mão de ferro. Estavam, portanto, de acordo com a linha editorial do diário e devem ter confundido muitos leitores e até, depois, pesquisadores que buscaram nessas descrições informações históricas verdadeiras. O fato de o próprio autor assumir a edição em livro desses perfis, em 1935, aponta para uma produção integrada e coerente a tudo que ele fez depois. E é verdade. O leitor tem aqui a primeira, mais longa e mais intensa experiência literária do maior escritor argentino de todos os tempos, um exercício de criação de acordo com a ficção que o consagrou nas décadas seguintes. 

Por muito tempo, “História Universal da Infâmia” se manteve excluído da bibliografia oficial de Borges. Não por acaso, tanto tempo depois, o volume ainda causa controvérsia. Seria exemplo de um Borges infinitamente menor, um escritor sensacionalista e violento, fruto de sua experiência mais como jornalista que escritor, que o levou a literalmente criar biografias infames de pessoas que existiram, algumas famosas internacionalmente – como Billy The Kid e Roger Charles Tichborne. Não era um Borges desconhecido da crítica que fazia isso. Desde a década anterior, ele havia se tornado um nome respeitado no meio intelectual como grande poeta e ensaísta literário. Especialistas em sua obra definiram seu livro como um exercício de aprendizagem para o autor, que se iniciava na arte da narrativa curta e, ao mesmo tempo, resultou em textos de livre experimentação e, de certo modo, amorais, uma vez que neles o escritor se permite ousadias de invenção sobre histórias alheias e próprias sem limites de correção histórica. 

Nas páginas de “A Crítica”, descobre-se seu lado de ficcionista inventivo, o que faz dessas histórias o resultado de um autor na busca por um estilo fantasioso e até fantástico que viria moldar toda a sua carreira ficcional. Com esse propósito, Borges “criou” o perfil de um abolicionista que vendia escravos fugitivos (O Espantoso Redentor Lazarus Morell), um gordo analfabeto que se passou por nobre inglês (O Incrível Impostor Tom Castro), uma viúva que virou pirata (A Viúva Ching, Pirata), um gangster de Nova York que era amigo dos gatos (O Provedor de Iniquidades Monk Eastman), uma versão sensacional para o jovem e trágico criminoso americano Billy The Kid. Há também a história de um suicídio ocorrido no Japão que leva a um assassinato e a outros 48 suicídios. E do profeta iraniano velado e seu rosto secreto. Buenos Aires serve de cenário para um “compadrito” que se acovarda na hora da verdade e outro que morre em circunstâncias misteriosas. Sem pudores, dentro do contexto do jornal que o publicava, o escritor se mostrava ao mesmo tempo um autor violento e divertido, com o propósito de chocar. Não por acaso, diz-se que ele faz dessas “biografias romanceadas” uma espécie de enciclopédia da crueldade. 

Borges não pensou em publicá-los em um livro. E, modestamente, justificou: “Essas narrativas se destinavam ao consumo popular nas páginas de Crítica e eram marcadamente pitorescas. Suponho que o valor secreto desses esboços – além do prazer que a escrita me proporcionou – consiste no fato de que são exercícios narrativos. Uma vez que os argumentos ou as circunstâncias gerais me haviam sido dados, tinha apenas de trama vívidas variações”.  Com o passar dos anos, Borges assumiu a importância dessas histórias. Numa edição de 1954, fez novo prefácio nesse sentido. Ele escreveu que as histórias são “o esporte irresponsável de um tipo tímido de homem que não podia levar-se a escrever histórias curtas, e assim por divertiu-se alterando e distorcendo (às vezes sem justificação estética) as histórias de outros homens “e que” em toda a tempestade e relâmpagos, não há nada.” Afirmou que o “verdadeiro” início de sua carreira de contista se deu com “a série de exercícios” reunida em “História Universal da Infâmia”. “Por alguma ironia, ‘Homem da Esquina Rosada’ era realmente um conto, enquanto esses exercícios e algumas ficções que os seguiram e que pouco a pouco me levaram a escrever contos legítimos, assumiam a forma de falsificações e pseudo-ensaios”, anotou. 

Nos textos, explicou ele com sinceridade, não queria repetir o que Marcel Schwob (1867–1905) fizera em suas “Vidas Imaginárias”, ao inventar biografia de homens reais sobre os quais há escassa ou nenhuma informação. “Eu, ao contrário, li sobre a vida de pessoas conhecidas e modifiquei, deformei tudo deliberadamente, a meu bel-prazer. Por exemplo, depois de ler ‘As Gangues de Nova York’, de Herbert Asbury, escrevi minha versão livre de Monk Eastman, o pistoleiro judeu, em flagrante contradição com a autoridade por mim escolhida. Fiz o mesmo com Billy The Kid, com John Murrel (que rebatizei de Lazarus Morell), com o profeta Velado do Kurassan, com o demandante Tichnorne e com vários outros.” 

O próprio escritor disse, na curta apresentação da primeira edição, ter se inspirado em alguns de seus autores preferidos para forjar suas biografias: “pelas releituras de Robert Louis Stevenson, pela prosa de Marcel Schwob, pelos filmes iniciais de Josef Von Sternberg”, além da pintura, estimulado, quem sabe, por sua amizade com os pintores Xul Solar e Pedro Figari. Ao invés de questionar Borges quanto à ética e a responsabilidade em recriar livremente vidas de pessoas, seus estudiosos observam que se trata de textos de livre experimentação, uma vez que neles o escritor se permite ousadias de invenção. Uma curiosidade é que, apesar de suas histórias terem sido tiradas, em grande parte, de livros de outros autores, o trabalho de reescrever e recriar foi maior, uma vez que ele teve de imaginar pormenores circunstanciais de modo a dar um sentido inesperado a cada conto. 

Como diz a edição brasileira, “História Universal da Infâmia” é, antes de tudo, um livro divertido e inteligentíssimo, que traz surpresas para o leitor a cada frase. Um exemplo da ironia e do humor é a frase que ele atribui a Billy The Kid, morto quase adolescente ainda: “Já matei 12 homens, sem contar os mexicanos”. Coincidência ou não, suas pseudo-biografias saíram mais de um ano depois da publicação de “Escritos Apócrifos”, do escritor tcheco Karel Capek (1890-1938), um de seus autores preferidos e que nunca citou quando fala de seus contos – no caso, Capek imaginou vidas de anônimos. Não seria impossível que tivesse tido acesso a uma edição francesa da obra, pois livros vindos de Paris podiam ser facilmente comprados em Buenos Aires. Angel Flores, o primeiro a usar o termo “realismo mágico”, defina o início do movimento com este livro. Difícil discordar dele.

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Lista de Comentários

    Gonçalo Junior ( Em resposta à Paulo Guerra) - 13 de abril de 2014

    Muito obrigado, Paulo. Vou ver agora. Um abraço.

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    Paulo Guerra - 22 de março de 2014

    Gonçalo Junior, boa noite.
    Eu gostaria que você assistisse a minha entrevista no Programa Contraplano sobre literatura, Ser humano e a psicologia das massas.
    Espero que você goste.
    https://www.youtube.com/watch?v=r8Ezv2YSYYM
    https://www.youtube.com/watch?v=tPyIxTGRvFQ

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