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O Cascudo é quem sabe. Me traga aqui o Cascudo.
O Cascudo é quem sabe. Me traga aqui o Cascudo. O trecho foi extraído de um texto de Carlos Drummond de Andrade, de 1968, e refere-se ao escritor e folclorista Luís da Câmara Cascudo. A seguir, alguns mitos, crenças e superstições da cultura popular brasileira encontrados em sua obra
Significa a conservação, a permanência, a fidelidade e, nesta acepção, Jesus Cristo comparou os Apóstolos, Vos estis sal tarrae (Mateus, V, 13), e sempre aludiu ao sal na intenção simbólica (Marcos, IX, 49; Lucas, XIV, 34).
É a síntese, a sabedoria. (...) Era símbolo da amizade. Derramá-lo seria o abandono, o repúdio, a traição. Leonardo da Vinci, no quadro da Santa Ceia, pintou o saleiro derramado diante de Judas, o falso apóstolo de Cristo. (...) O "salarium" era a quantia em dinheiro paga ao soldado romano, destinada à compra do sal indispensável na alimentação. Passou a significar o pagamento ajustado e obrigatório de todo trabalho. Os vocábulos provindos de salário (salary, saleire, salário), salariar, salariado, assalariar, assalariado, vêm do substantivo "sal", todo-poderoso.
Por todo o Oriente a tradição do "sal da hospitalidade" é dever sagrado. (...) Numa estória do Mil Noites e Uma Noite (Victor Chauvin, Bibliographie des Ouvrages Arabes, VI, 195-196 Liège, 1902), um trabalhador, obrigado pela miséria, acompanha um grupo de ladrões que assalta o tesouro do rei. Vendo, na escuridão, brilhar um objeto branco que ele julga uma jóia, toca-o com a língua e reconhece ser um bloco de sal. Tendo provado o sal do rei, o trabalhador considera-se imediatamente hóspede, ligado ao rei pelo vínculo da hospitalidade que o sal determina. Reage contra os companheiros e obriga-os a abandonar o roubo, salvando o tesouro real. Depois de outras peripécias, o trabalhador, "hóspede do rei", confessa ao soberano o que fizera e é nomeado Tesoureiro.
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A defesa mágica do espelho
(...) Os estudos de Frazer, Rank, Freud, Jung sobre as representações e equivalências da alma, espírito, sopro vital, evidenciaram a existência universal desse complexo etnográfico e religioso. O reflexo da imagem é a alma, o outro eu, o duplo, passível de perigos e acidentes como o próprio corpo físico. Não avistar a imagem pessoal no espelho é denúncia indiscutível de que a alma está condenada a desaparecer. (...)
Daí uma série de superstições. Não se fala diante do espelho. Não se deve olhar o espelho durante a noite. Menino que faz careta ao espelho assombrar-se-á infalivelmente. Quando alguém morre, cobre-se o espelho na primeira semana do falecimento. Quando um espelho se parte inexplicavelmente, anuncia morte em pessoa da casa. O grande espelho do hall do Duque de Morny fendeu-se de alto a baixo sem explicação. O Duque morreu logo depois. Em Paris comentava-se o fato como uma credencial à velhíssima superstição (...)
Treze à mesa
(... )A imagem popular é que o dia 13 é o dia do contra, dia do tudo às aves-
sas, dia do pé esquerdo. Desaconselhadas formalmente reuniões, jornadas, festas, casamento, noivado, batizado, compromissos. (...) Onde o algarismo mantém seu misterioso prestígio é no número de convidados para refeições. (...) Treze pessoas na mesma refeição provocarão infelicidades para o anfitrião ou sua família. Dentro de um ano morrerá um dos treze companheiros. Morrerá o que primeiro deixar a mesa ou o último a levantar-se. (...) Há uma fórmula de heroísmo: - erguem-se todos ao mesmo tempo. A Morte terá a dificuldade da escolha entre os abnegados. A explicação clássica é constituir uma tradição da Ceia Larga, na Quinta-Feira Maior, em que Jesus Cristo reuniu os doze discípulos para comemorar a Páscoa, fazendo a última refeição em comum e dando as derradeiras orientações. Eram treze à mesa. Judas de Iscariote, o traidor, foi o primeiro a deixar os companheiros e retirar-se (João, XIII, 30). E suicidou-se (Mateus, XXVII, 5). Morreu antes do Mestre.
Passar debaixo da escada
(...)Afonso Lopes de Almeida (O Gênio Rebelado, 27, Rio, 1923) informa: - Joaquim Nabuco não era supersticioso. Mas não passava por debaixo de uma escada. Nem o Barão do Rio Branco. Nem o Dr. João Pessoa, Presidente da Paraíba, Ministro do Supremo Tribunal Militar. (...)
(...) A escada aberta representa a tríade, trimúrti, o triângulo, síntese das forças invencíveis da terra e do céu. A trindade, egípcia, hindu, cristã, esquematiza-se em forma triangular, valendo o número Três, perfeito e mágico, resumo positivo de todas as potências, grandeza masculina, feminina e força central, aproximadora e realizadora. (...)
(...)Atravessá-lo, vará-lo, passar por baixo, é desafiá-lo, desrespeitá-lo. O castigo é fatal. Passando-se muitas vezes, imagine-se, acumula-se a punição, que virá redobrada e cruel.
Haverá perdão unicamente para o ignorante. Quem não sabe, quase não peca. Pecado é a consciência do ato proibido.(...) l
Trechos do livro Superstição no Brasil (Global Editora), de Luís da Câmara Cascudo.
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