Revista > Edição 17 - Dezembro/2008 > Direitos Humanos
Direito à resistência
Homenageada por sua luta pela democracia, Nadir Gouvêa Kfouri, ex-reitora da PUC-SP, lembra os momentos da invasão dos militares à universidade
Cláudia Pinho
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A reitora da época, Nadir Gouvêa Kfouri, mostrou-se inflexível diante de Erasmo Dias e o enfrentou de cabeça erguida, permanecendo o tempo todo ao lado dos estudantes. Formada na primeira turma da Escola de Serviço Social, ela foi reitora por oito anos e até hoje é lembrada pela sua trajetória em defesa da cidadania e da democracia. Na quinta-feira, 27 de novembro, ela foi uma das grandes homenageadas do Ato de Comemoração dos 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, organizado pelo Conselho Regional de Psicologia de São Paulo. "Fiquei muito orgulhosa", diz Nadir, ao lado de seu prêmio. Aos 95 anos, ela tem dificuldade em andar, ouvir e enxergar. Mas isso não impede a sua leitura diária de jornais e revistas. "Às vezes eu discordo de algum deles, mas leio assim mesmo." Lúcida e bem-humorada, ela lembra de cada detalhe de sua vida. Em entrevista exclusiva a Brasileiros, Nadir falou sobre o momento mais crítico de sua carreira.
Brasileiros - Como foi a sua trajetória como reitora na PUC?
Nadir Gouvêa Kfouri - Eu fiz a minha carreira na PUC. Fui ocupando vários cargos importantes. Estudei na Escola de Serviço Social e fui diretora do Centro de Ciências Humanas. Um belo dia Dom Paulo Evaristo Arns me chamou e disse que queria que eu fosse sua reitora. Eu relutei muito, eu já sabia que era um cargo com muita responsabilidade, mas Dom Paulo insistiu muito e lá fui eu. Fiquei quatro anos e quando acabou meu mandato, os alunos, funcionários e professores bateram o pé, colocaram meu nome na nova eleição e eu acabei vencendo. Fiquei mais quatro anos. Peguei um momento muito difícil no Brasil, a ditadura. Uma luta pelos direitos humanos mesmo, porque com freqüência os alunos eram ameaçados.
Brasileiros - Como foi a noite da invasão?
N.G.K. - Houve o encontro em Ibiúna, a PUC não tinha nada com isso, mas eram todos estudantes. A polícia acabou com o encontro. Os encontros estudantis ficaram marcados, eram proibidos, mas eles não tomavam conhecimento. Até que correu a notícia de que eles estavam se encontrando na PUC. Eu não tinha o hábito de ir à noite no campus. Estava em casa quando meu irmão Carlos ligou. Um dos professores, o Hermínio Porto, diretor da Faculdade de Direito, muito amigo meu, telefonou para ele e pediu que me avisasse que a PUC estava sendo invadida, que os militares estavam soltando gás, uma correria. Avisou que ia ser muito desagradável, mas que eu teria de ir.
Fui com meu irmão, e quando cheguei lá, não se podia respirar por causa daquele gás, estava uma revolução. Entrei e saí. Havia um estacionamento ao lado e eles puseram todos os alunos ali, aqueles que estudavam à noite. Todos sentados ali de castigo. Que coisa mais horrível, fiquei tão revoltada. Eu sempre tive um temperamento muito bravo e nessa hora fiquei revoltada. Eu destratei as autoridades que estavam lá. Vinham falar comigo, eu não respondia, vinham me dar a mão, eu punha a mão para trás.
Brasileiros - O que a senhora dizia aos militares?
N.G.K - Que era uma barbaridade o que estavam fazendo, que a PUC era lugar de estudantes. Fiquei com medo de os alunos serem presos e maltratados. Foi uma discussão muito grande, minha com as autoridades. Meu irmão ficava assustado, de vez em quando ele me puxava pelo braço (diz, rindo). Quem me ajudou, por incrível que pareça, foi o Tuma, que depois fez carreira política. Ele foi muito delicado, fui obrigada a reconhecer isso publicamente. Fez tudo para me ajudar, fez a lista correndo (com os nomes dos estudantes da PUC). Tinha medo que meus sobrinhos estivessem nessa lista, mas felizmente não havia nenhum deles. O fato é que levaram muitos estudantes para o Dops e depois soltaram. A invasão foi muito triste, todo ato de violência é muito triste.
Brasileiros - É famosa a imagem da senhora enfrentando o Erasmo Dias. O que a senhora conversou com ele?
N.G.K. - Disse que o que eles estavam fazendo era uma violência. A minha vontade era bater em todo mundo porque esse era meu temperamento. O padre Edênio Valle, vice-reitor, me ajudou a controlar minha violência em frente ao Erasmo. Assim como meu irmão Carlos Alberto, que esteve comigo o tempo todo. Ainda hoje me comove lembrar e ver a foto dele ao meu lado, me segurando. Mas o que você diria? Quem é que pode se conter diante da coisa mais detestável que há no mundo que é a violência contra o ser humano, principalmente contra o jovem? Aquele que está à noite fazendo um sacrifício para estudar, porque os rapazes e moças que estudavam à noite trabalhavam, eram mais sacrificados. Olha aí os direitos humanos. O medo dos alunos, me implorando. Sabe o que eles me pediam? Para não ir pro Dops, minha filha, porque era muito provável que seriam torturados. E às vezes nem voltar. Coisa triste.
Brasileiros - E o que a senhora dizia aos alunos amontoados naquele estacionamento?
N.G.K. - Eles imploravam para que eu não deixasse que os militares os levassem para o Dops. Eu dizia que estava ao lado deles e que iria ficar até o fim, e, no que dependesse de mim, ninguém sairia dali. Foi muito triste, eles estavam muito assustados.
Brasileiros - A senhora até hoje é lembrada pela maneira educada com que tratava os estudantes.
N.G.K. - Eu não tive filhos. Meus filhos foram meus alunos e meu contato com eles sempre foi muito bom, rico e agradável. Gostava do encontro com gente jovem, de ter contato com a juventude.
Brasileiros - Como a senhora avalia a juventude atual?
N.G.K. - Amo a juventude de hoje porque tenho sobrinhos, mas acho que eles são bem diferentes dos meus sobrinhos daquela época. Aquela juventude foi engajada, uma coisa que eu admiro, porque eu sempre fui engajada. Mas os tempos são outros, é outro Brasil. É melhor para eles não serem engajados, se livram de muito sofrimento.
Brasileiros - E os direitos humanos, hoje, são mais respeitados?
N.G.K - Não acho. Acho que se fala mais em direitos humanos. Basta passar por uma favela para você ver que não respeitam direitos humanos, porque não é possível um ser humano morar numa favela, me revolta demais. Eu ajudo da minha maneira, querendo bem, conversando, tratando feito gente. Ajudo um rapaz há dez anos, ele vem aqui toda semana. Mas não pode entrar no prédio. Eu estava andando por aí e um rapazinho me pediu dinheiro, perguntei seu nome e ele me disse se chamar Jonatas, um nome que eu gosto muito por causa de Davi. Eu quero muito bem a ele, comecei a ajudá-lo, hoje já é um jovem. Eu ajudo com o que ele precisa, calça, sapato. Mas não pode entrar no prédio porque foi menino de rua. Então você fala em direitos humanos. Isso é exclusão de pobres. Ele entrou uma única vez. Os moradores dizem que ele não pode entrar porque senão vai falar por aí que tem gente rica morando aqui.
Brasileiros - Como a senhora vê o Brasil hoje?
N.G.K. - Gosto de ser brasileira e lamento a miséria do brasileiro. Quando vemos as favelas, não precisamos ir até o Nordeste. A pobreza está aí.
Brasileiros - O que a senhora faz durante o dia?
N.G.K. - Leio jornal todos os dias. Às vezes discordo de algum deles, mas leio assim mesmo. Também gosto de assistir a um bom filme, mas não gosto de novelas, me chateia. Viu uma, viu todas. Gosto de filmes nacionais quando são bons. Gostava tanto dos filmes do Pasolini (cineasta italiano Pier Paolo Pasolini), mas não passa na televisão.


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