Revista > Edição 20 - Março/2009 > 30 dias na vida dos brasileiros
Somos todos índios
Nova obra de Alberto Mussa retrata o mito tupinambá e traz à tona a origem dos brasileiros |
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| Foto: Cristina Lacerda |
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INFLUÊNCIAS |
Brasileiros - "Há 15 mil anos somos brasileiros; e não sabemos nada do Brasil", é uma das frases mais marcantes em Meu destino é ser onça. Há poucos estudos sobre a história dos índios?
ALBERTO MUSSA - Temos a sensação de que não há vínculo histórico entre nós e os índios que habitavam nosso território desde antes da última glaciação. Só que as pesquisas genéticas mostram que praticamente todos os brasileiros têm antepassados indígenas. Está no nosso DNA. Eu fiz inclusive um exame genético para verificar isso. Nós somos herdeiros biológicos e históricos dessas culturas antigas. Mas, como somos uma sociedade fortemente racista, preferimos conhecer a história do "Ocidente" a nos debruçar sobre nós mesmos. Como dizia Nelson Rodrigues, é o nosso complexo de vira-lata.
Brasileiros - Em seu novo livro,você se inspirou em obras de ficção que têm índios como protagonistas?
A.M. - Não, estava interessado nos mitos relatados pelos próprios índios. O Guarani, do Alencar, por exemplo, tem muitos méritos, mas peca pela falta de conhecimento do assunto (inclusive chamando de guarani um índio que devia ser, na verdade, tupinambá). Já Macunaíma, de Mário de Andrade, é para mim um livro horroroso, inundado de racismo e daquela visão estereotipada e infantilizadora da cultura popular.
Brasileiros - Em suas obras, você retrata épocas e lugares incomuns. Quais foram suas influências literárias?
A. M. - Acho que a escolha desses temas tem mais a ver com a minha personalidade do que com um projeto específico e consciente. Desde muito novo me interessei por mitologia, por povos antigos, por civilizações do passado. Meu pai e meu avô tinham grandes bibliotecas e eu li desde sempre não só clássicos da literatura como também obras sobre o Egito, os astecas, os mitos gregos, etc. Na Faculdade de Letras da UFRJ me interessei por línguas africanas e indígenas, e depois estudei árabe. Minha literatura reflete isso.
Brasileiros - Você lê a literatura contemporânea brasileira?
A. M. - A literatura brasileira é uma das grandes literaturas do mundo, embora pouca gente admita isso, por um certo complexo de vira-lata, que ainda persiste. Não gosto só dos livros que têm a ver comigo. Mas não me sinto ligado a nenhuma geração, aliás, não gosto dessa coisa de movimento literário.



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