Revista > Edição 21 - Abril/2009 > Especial automobilismo
Um caipira nas ruas
Ao volante de carros DKW, Mario César de Camargo Filho, o Marinho, consagrou-se como um piloto exemplar em circuitos de ruas, estradas e autódromos
Jan Balder
Mas a aventura de Marinho pelo automobilismo começou em 1955 com um Studebaker emprestado de um de seus irmãos, que era proprietário de uma revenda de tratores e caminhões. Com ele, o Caipira iniciou sua participação nos rachas em Interlagos. A intimidade com o ronco dos motores cresceu e ele, então, comprou um Volkswagen 1200 e achou que estava preparado para enfrentar os rachas de rua. A partir daí, fez muitas amizades importantes, entre elas Jorge Lettry, então sócio de uma oficina especializada na marca alemã. As competições nas ruas deram a Marinho experiência para disputar provas oficiais mais seguras e, em 1957, estreou na I Subida da Serra Velha de Santos, terminando em 3o lugar na categoria turismo até 1,3 litro. Na mesma época nascia a indústria automobilística brasileira, e Marinho, com o incentivo do amigo Jorge Lettry, trocou o VW de tração traseira por um DKW de tração dianteira. Uma mudança importante, pois os dois possuíam características de estabilidade bem diferentes. Foi com seu DKW modelo F91 sedan que ele fez a sua primeira corrida nas pistas no Rio de Janeiro - na inauguração do circuito da Barra da Tijuca. Marinho acabou desclassificado pela falta do banco do passageiro - no modelo alemão havia dois bancos individuais dianteiros, mas no modelo nacional do piloto, havia apenas um inteiriço.
Quando trocou o F91 pelo modelo F93, mais atualizado, Marinho decidiu instalar um motor preparado pelo seu amigo Sergio "Cabeleira" Gomes. Com ele, correu nas ruas de Poços de Caldas (MG) e participou na categoria Força Livre, contra possantes carreteiras que usavam motores Chevrolet e Ford de mais de 4,0 litros. Com sua vitória na classificação geral da prova, ele logo foi batizado de o "Rei da Rua".
Na semana seguinte, o piloto enfrentou uma prova na Subida de Montanha na Serra Velha de Santos. Logo na primeira curva, o DKW do Marinho perdeu a correia do ventilador e mesmo com a temperatura subindo ele ficou apenas dois segundos atrás de um Porsche Spyder RSK de 1,5 litro e de uma Ferrari esporte de 2,0 litros, surpreendendo com o 3o lugar geral - e o 1o entre os carros de turismo.
O sucesso da parceria de Marinho com o DKW fez com que o fabricante preparasse três DKWs modelo F94 para as Mil Milhas Brasileiras em Interlagos. A estreia da equipe oficial aconteceu em 1959 e foi cercada de muita expectativa. Marinho fez dupla com Eduardo Scurrachio no principal carro da equipe. "Não acreditei quando assumi a dianteira com o pequeno e ruidoso DKW com motor de dois tempos logo na primeira volta", emociona-se o piloto.
Em 1960, com seu DKW particular, todo nacional, Marinho venceu na categoria turismo 1,3 litro na Barra da Tijuca e proporcionou um belo duelo na inauguração de Brasília com outro DKW da Serva Ribeiro, completando a dobradinha na vitória de Eugenio Martins. No início de 1961, Marinho terminou em 2o lugar na categoria turismo em prova sul-americana no circuito de Interlagos e logo depois, pelo segundo ano consecutivo, venceu a corrida nas ruas de Piracicaba (SP), quando estreou os primeiros pneus radiais brasileiros. Nas 24 Horas, com o mesmo DKW, fez dupla com Luiz Antônio Greco e enfrentou alguns problemas que os impediram de vencer a prova. A decepção foi depois compensada pela vitória no Aterro da Glória, no Rio de Janeiro, onde, em um circuito improvisado com Luiz Greco, completou a dobradinha DKW.
Nas Mil Milhas Brasileiras, no final de 1961, Marinho e Bird Clemente lideraram a corrida por mais de cinco horas, mas, com problemas de distribuidor e bomba de gasolina, terminaram em 6o lugar. "Foi a melhor Mil Milhas que disputei", lembra Marinho. De Interlagos, a equipe DKW foi para as ruas de Salvador, em uma corrida de curta duração, na qual Marinho não teve adversários. Foi uma vitória brilhante. Em 1962 a fábrica resolveu montar um departamento exclusivo de competições, antes vinculadas ao departamento de testes. Foi o ano de afirmação do DKW, pois o piloto conquistou mais três vitórias em corridas curtas em Interlagos e nas ruas de Petrópolis (RJ) e Araraquara (SP). Com o sucesso nas corridas, Marinho largou a área têxtil e montou, em sociedade com Milton Masteguim, a revenda MM (iniciais de Marinho e Milton) especializada em DKW.
Em 1963, a equipe DKW colocou dois carros para as 12 Horas de Interlagos com apenas três pilotos se revezando. O regulamento liberava - não impunha descanso obrigatório - e Marinho completou o trio com Bird Clemente e Flavio Del Mese. "Foi um sufoco, a gente saía de um carro e entrava em outro, mas foi fantástico. Vínhamos sempre entre os cinco primeiros colocados com nossos dois DKWs. O número 10 disputava a liderança quando na última volta perdi uma roda e me arrastei em três rodas até a chegada, enquanto que com o número 11 terminamos no pódio em 3o lugar", lembra Marinho.
Apesar do sucesso, a equipe DKW Vemag estava com os dias contados com a venda da fábrica para a Volkswagen. A última corrida pela equipe oficial foi em Interlagos, com oito Malzones reunidos. A prova foi vencida por Marinho, que deixou para trás o Alpine da Willys. A última empreitada da equipe DKW foi o Carcará, um carro criado especificamente para tentar bater o recorde de velocidade em linha reta. A dupla Rino Malzone e Anísio Campos desenhou a máquina, confeccionada na fazenda do Rino, em Matão. Marinho fez todos os testes até o dia do recorde na BR 101 entre a Barra da Tijuca e o Recreio dos Bandeirantes. A polêmica estabilidade não satisfez e Marinho retornou para São Paulo.
Com o fim da equipe oficial, a Lumimari também foi desmembrada e Marinho passou a gerenciar sua nova oficina na Rua Tabapuã, no bairro do Itaim. A Vemag, que estava prestes a fechar, emprestou um Malzone para que Marinho e Eduardo Scurrachio disputassem as Mil Milhas - eles chegaram em 2o lugar. Atualmente, carros e corridas estão apenas nas lembranças de Marinho. Mas, ele deu um jeito de não abandonar o ramo que o consagrou. Aos 72 anos, ele gerencia um posto de gasolina em Ourinhos, cidade do interior paulista.



Astrologia Ciência e tecnologia Colaboradores Cultura Economia História do Brasil Opinião Pequenos Contos Personagens Quadrinhos
Você acredita no Brasil?
O rapper e apresentador Thaide fala por que crê no Brasil e no brasileiro. Leia outras opiniões
Bebidas
O bom vinho português Periquita e o desafio do mezcal, uma bebida mexicana para macho
Pequenos Contos
Marcos Rodrigues fala sobre sanfonas, motocicletas e outras paixões de Max Bauer
03/09/2010 - 09h37 - Memória
Francis, 80 anos
02/09/2010 - 17h27 - Tecnologia
Entrevista com Moacyr Alves Júnior
02/09/2010 - 17h25 - Tecnologia
Brincando com coisa séria





