Revista > Edição 22 - Maio/2009 > 30 dias na vida dos brasileiros
Sereias também amam
Lenda amazônica serve de fundo para autora falar sobre feminismo, amor e a luta para ser feliz |
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Ia tudo muito bem, até a noite em que Kiandra, uma sereia jovem - só havia parido três vezes -, que mais uma noite saiu para encantar outro homem, deparou-se com o negro Oxum, um escravo fugitivo em busca da sua terra prometida, os quilombos. Inebriada pela cor de sua pele e a aparência de seus cabelos, diferentes das dos outros caboclos, Kiandra apaixonou-se perdidamente e, a partir de então, passou a questionar as regras das Icamiabas. Entregue a esse amor proibido, ela enfrentou suas origens e abandonou um mundo seguro, sua família e amigas para perseguir um sonho. Por essa decisão, ela perdeu a cauda e ficou proibida de retornar ao seu povo.
Através de uma lenda amazônica, e em um cenário feminino até sua última extensão, a antropóloga paulistana Deborah Goldemberg decidiu em seu primeiro livro, Ressurgência Icamiaba, da editora Demônio Negro, falar de um assunto universal: o amor, com todas as suas consequências, contradições e desafios. "Essa lenda amazônica me fascinou. Ela é muito atual. Nós, mulheres, somos cada vez mais independentes, moramos sozinhas, somos mães solteiras por opção. Acho que estamos nos tornando uma nação de Icamiabas", diz. Para Deborah, Kiandra é a síntese de toda mulher, que, apesar de suas convicções feministas, ou femininas, busca o amor, independentemente da forma. "Nesse caso, talvez pela minha visão antropológica, vi uma maneira de falar também de esperança, através de um romance multicultural", afirma a autora, que define seu trabalho como literatura transbrasileira.
Formada pela London School of Economics, ela atuou na área de desenvolvimento sustentável na ONU e no Banco Mundial, até se embrenhar na Amazônia, onde trabalhou com antropologia aplicada em projetos de desenvolvimento comunitário. Foi durante essa experiência que Deborah teve a ideia do livro, sua primeira novela, depois de já ter publicado crônicas, poemas e artigos em coletâneas. "Passei dez dias descendo o Rio Tapajós em um barco para pesquisar a linguagem local, a mata, a cor, o cheiro local. Foi incrível", diz. Atuante no movimento literário paulistano - foi curadora do I Sarau das Poéticas Indígenas da Casa das Rosas, que aconteceu em abril passado -, ela prepara para breve outro livro, desta vez tendo o Mato Grosso como cenário. Enquanto isso, é possível acompanhar seu trabalho - e trechos de seus trabalhos - no blog ressurgenciaicamiaba.blogspot.com.


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