Revista > Edição 22 - Maio/2009 > 30 dias na vida dos brasileiros

Sereias também amam

Lenda amazônica serve de fundo para autora falar sobre feminismo, amor e a luta para ser feliz


Por Cláudia Pinho

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Tudo ia muito bem na Floresta Icamiaba, nas profundezas do Rio Tocantins. As sereias mais velhas cuidavam das recém-nascidas e da educação das mais jovens. Aquelas que estavam em período fértil, contavam as horas para subir à superfície e atrair suas novas vítimas - caboclos e pescadores que seriam, literalmente, usados para procriá-las e depois, sem dó nem piedade, descartados e afogados. Como deveriam ser todos os homens, segundo elas. Assim viviam em harmonia plena essas criaturas descendentes de mulheres que outrora sofreram com a opressão masculina e decidiram submergir nas águas do rio, fugindo da dor e do sofrimento causados pelo amor. Elas fazem parte da Nação Icamiaba. Sempre conduzidas pela sabedoria da "matriarca" Iara, responsável por manter a linhagem e dar continuidade às tradições de seu povo.

Ia tudo muito bem, até a noite em que Kiandra, uma sereia jovem - só havia parido três vezes -, que mais uma noite saiu para encantar outro homem, deparou-se com o negro Oxum, um escravo fugitivo em busca da sua terra prometida, os quilombos. Inebriada pela cor de sua pele e a aparência de seus cabelos, diferentes das dos outros caboclos, Kiandra apaixonou-se perdidamente e, a partir de então, passou a questionar as regras das Icamiabas. Entregue a esse amor proibido, ela enfrentou suas origens e abandonou um mundo seguro, sua família e amigas para perseguir um sonho. Por essa decisão, ela perdeu a cauda e ficou proibida de retornar ao seu povo.

Através de uma lenda amazônica, e em um cenário feminino até sua última extensão, a antropóloga paulistana Deborah Goldemberg decidiu em seu primeiro livro, Ressurgência Icamiaba, da editora Demônio Negro, falar de um assunto universal: o amor, com todas as suas consequências, contradições e desafios. "Essa lenda amazônica me fascinou. Ela é muito atual. Nós, mulheres, somos cada vez mais independentes, moramos sozinhas, somos mães solteiras por opção. Acho que estamos nos tornando uma nação de Icamiabas", diz. Para Deborah, Kiandra é a síntese de toda mulher, que, apesar de suas convicções feministas, ou femininas, busca o amor, independentemente da forma. "Nesse caso, talvez pela minha visão antropológica, vi uma maneira de falar também de esperança, através de um romance multicultural", afirma a autora, que define seu trabalho como literatura transbrasileira.

Formada pela London School of Economics, ela atuou na área de desenvolvimento sustentável na ONU e no Banco Mundial, até se embrenhar na Amazônia, onde trabalhou com antropologia aplicada em projetos de desenvolvimento comunitário. Foi durante essa experiência que Deborah teve a ideia do livro, sua primeira novela, depois de já ter publicado crônicas, poemas e artigos em coletâneas. "Passei dez dias descendo o Rio Tapajós em um barco para pesquisar a linguagem local, a mata, a cor, o cheiro local. Foi incrível", diz. Atuante no movimento literário paulistano - foi curadora do I Sarau das Poéticas Indígenas da Casa das Rosas, que aconteceu em abril passado -, ela prepara para breve outro livro, desta vez tendo o Mato Grosso como cenário. Enquanto isso, é possível acompanhar seu trabalho - e trechos de seus trabalhos - no blog ressurgenciaicamiaba.blogspot.com.

Ressurgência Icamiaba
Deborah Goldemberg
Editora Demônio Negro, 71 páginas


Ópera da selva

Deborah (à esq.) com uma mulher ribeirinha durante pesquisa para seu livro

Deborah (à esq.) com uma mulher ribeirinha durante pesquisa para seu livro