Revista > Edição 23 - Junho/2009 > 30 dias na vida dos brasileiros
Cigarro, o protagonista
O maior mérito de Fumando Espero é abordar o tema |
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Em meio ao bafafá, quase um mês depois da sanção da lei chegou aos cinemas paulistas o documentário Fumando Espero, primeiro longa-metragem da diretora carioca Adriana Dutra. Tudo gira em torno da tentativa da própria Adriana em se livrar do vício do cigarro. Mais uma das centenas de tentativas.
A dificuldade de Adriana em largar o cigarro conduz o filme em torno de várias questões com relação ao fumo. Na linha testemunhal, há depoimentos de famosos (Herson Capri, Du Moscovis, Ney Latorraca, Miúcha, entre outros) e anônimos que conseguiram largar o cigarro, mas com muito esforço. E com mais de uma tentativa. Do outro lado, os amantes do fumo, que o consideram um companheiro inseparável, como a jornalista Scarlet Moon, que tenta abandonar o vício, mas foi cooptada pelo prazer das tragadas e pela cumplicidade do cilindro de tabaco, um amigo de todas as horas.
Em meio aos depoimentos, a luta diária de Adriana é registrada. Cada dia, uma agonia. Um esforço brutal para largar quem a "acompanhou" por mais de 20 anos. Dores de cabeça, irritação, ansiedade. Os pesados sintomas que a diretora sofre na pele são mostrados sem filtros, mas com certo exagero.
Exagero de um lado, realidade do outro. A imagem que surge na telona, de um homem numa cadeira de rodas, sem uma perna e metade da outra, é forte, mas real. Mostra os males do cigarro em sua plenitude. Forte, mas necessária. A imagem é uma das que ilustram os maços no Brasil há algum tempo, como advertência para os danos do fumo ao corpo humano.
As estratégias de marketing e divulgação da indústria tabagista ao longo da história para angariar mais e mais consumidores também são mostradas no filme. Entre cenas e depoimentos fortes, além da angústia de Adriana para largar o cigarro, há animações mais leves sobre a história do cigarro, curiosidades em torno do uso do fumo ao longo do tempo e importantes dados sobre como a indústria tabagista conseguiu cada vez mais consumidores.
O camelo simpático que atraiu crianças e adolescentes com sua imagem atlética, jovem e despojada. O homem sobre o cavalo, olhar distante e altivo, em meio a paisagens maravilhosas, em fins de tarde belíssimos. São imagens que povoaram o imaginário de muitas pessoas e as levaram ao vício de uma droga.
Outro ponto positivo do filme. Depoimentos de médicos e especialistas que colocam o cigarro em seu devido lugar: uma droga de alto poder destrutivo, difícil de largar, tanto física quanto psiquicamente. Como mostra a própria Adriana, em sua luta gloriosa para deixar o vício.
Ao final, um lado não abordado da indústria: o do pequeno produtor de fumo. No entanto, pouco aprofundado na abordagem um tanto desajeitada de Adriana, que se sai como uma Michael Moore dos trópicos, ao tentar conversar sobre a questão na portaria de uma grande fabricante de cigarros e, claro, receber o tratamento padrão dos seguranças. Abordagem errada, com as pessoas erradas.
A grande conclusão é que, apesar de uma tropeçada aqui e ali, uma tinta a mais em alguns momentos e o erro da abordagem na questão dos produtores de fumo, Fumando Espero tem o mérito principal de levantar a bola do tema cigarro, talvez pela primeira vez com o devido peso no Brasil.


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