Revista > Edição 26 - Setembro/2009 > Esporte
Thomaz Bellucci bate um bolão
Aos 21 anos, o jogador nascido em Tietê, no interior de São Paulo, já está entre as dez promessas do tênis mundial para essa faixa de idade
texto e fotos Hélio Campos Mello

O ano de 2009 tem sido bastante marcante para a carreira profissional de Bellucci, iniciada há apenas três anos. Em fevereiro, ele participou de sua primeira final de um torneio da ATP, o Brasil Open, realizado na Costa do Sauípe, Bahia. O tenista acabou perdendo a partida, por 2 a 1, para o espanhol Tommy Robredo, 15o no ranking mundial (posição no final de agosto). A derrota, porém, não abalou em nada o jovem tenista que, alguns meses depois de ser vice-campeão do Brasil Open, conquistou sua maior façanha até agora: o título de campeão do torneio de Gstaad, na Suíça, batendo o alemão Andreas Beck. Com a vitória, Bellucci levou para casa um cheque de € 71,7 mil (mais de US$ 100 mil) - ele já acumula mais de US$ 500 mil em premiações na carreira -, além de um troféu com uma pedra de 35 kg. A conquista nos Alpes suíços também representou a quebra de um jejum de cinco anos sem títulos brasileiros em competições da ATP e fez o tenista paulista pular da 119a para 69a colocação no ranking mundial, posição registrada em 1o de setembro.
No US Open, iniciado no fim de agosto, o brasileiro venceu as disputas do qualifying (torneio qualificatório) e a primeira partida da chave principal sem perder um único set.
A entrevista com Bellucci foi realizada no final de um dia de treinos para o Aberto dos Estados Unidos.
Brasileiros - Você acabou de ganhar o torneio de Gstaad e carregou um troféu bem pesado...
Thomaz Bellucci - Mais ou menos uns 30 kg.
Brasileiros - Como é que o tênis entrou na sua vida?
T.B. - Comecei a jogar por influência dos meus pais, que sempre jogaram tênis socialmente. Desde pequenininho já entrava na quadra, em Tietê, onde tínhamos uma chácara. Comecei a jogar por brincadeira.
Brasileiros - E em que momento você achou que poderia ser um jogador profissional?
T.B. - Sempre acreditei que poderia jogar profissionalmente. Nos treinamentos, sempre era o destaque, sempre me dedicava mais que os outros. Acho que, desde os 10, 11 anos, já levava mais jeito para esporte que estudos.
Brasileiros - Você estudou o quê?
T.B. - Infelizmente não consegui acabar o terceiro ano (do Ensino Médio), mas vou terminar meus estudos.
Brasileiros - Você estudou em Tietê?
T.B. - Não, estudei em São Paulo.
Brasileiros - E em que lugar você estudou?
T.B. - Estudei em vários lugares, em Moema, Brooklin, em várias escolas. Como às vezes eu mudava de academia, tinha de mudar de escola também para ficar mais fácil e otimizar o tempo.
Brasileiros - Tem irmãos?
T.B. - Tenho uma irmã, um pouco mais velha, que treinava comigo desde pequena também. Só que ela não gostava muito de jogar, não levava tanto jeito, daí eu segui a carreira e ela parou.
Brasileiros - Seus pais acompanham a sua carreira?
T.B. - Acompanham.
Brasileiros - Eles foram para Gstaad?
T.B. - Não foram. Só foram para Costa do Sauípe (na Bahia, onde foi realizado o Brasil Open, em fevereiro) e, talvez me acompanhem a Porto Alegre, na Copa Davis (dias 18, 19 e 20 de setembro).
Brasileiros - Que time você torce, Palmeiras?
T.B. - Sim, sou palmeirense roxo.
Brasileiros - Tem namorada?
T.B. - Não tenho.
Brasileiros - Quem é seu ídolo, quem para você é o cara mais legal no tênis?
T.B. - Não tenho ídolo, não tenho um só cara que me espelho..., mas o cara que eu mais gosto é o Pete Sampras (norte-americano, já aposentado e um dos melhores tenistas da história).
Brasileiros - Você já treinou com o Nadal (espanhol Rafael Nadal, de 23 anos, um dos principais tenistas da atualidade e também da história do esporte), certo?
T.B. - Treinei duas vezes com ele.
Brasileiros - Como é que você conheceu o Nadal?
T.B. - Joguei contra o Nadal em Roland Garros (em Paris), no ano passado, e como ele é canhoto como eu, me chamou para treinar em Wimbledon (em Londres, onde é realizado o tradicional torneio em quadras de grama) e depois, neste ano, treinei novamente com ele no saibro.
Brasileiros - Mais que a técnica, penso que a maior dificuldade para um tenista é saber lidar com a solidão. Quando você está na quadra, você está sozinho, não tem ninguém para te ajudar... O que você acha disso?
T.B. - É difícil... Às vezes, você está um pouco nervoso, está com dificuldade e não tem ninguém para te motivar... Ou está jogando em outro país e percebe que é só você e seu técnico contra cinco mil pessoas. Então, realmente é um esporte que, além de tecnicamente bem, você tem de estar muito bem preparado mentalmente, às vezes isso é o mais importante.
Brasileiros - Você faz algum tipo de preparo mental antes dos jogos?
T.B. - Sim, faço alguns exercícios de concentração.
Roberto Marcher, da Koch Tavares, que acompanha a entrevista diz: "O João Zwetsch, técnico de Bellucci é considerado o melhor do País em atividade, acompanha o Thomaz cuidando não só da parte técnica, mas também do lado emocional. Na verdade, esses exercícios a que ele se refere são práticas de técnicas de pranayam (controle e interiorização de energia prana), e não somente exercícios de respiração como muitos entendem. O João supervisiona e o orienta. Nada de novo, pois são técnicas milenares, que acreditamos terem sido muito benéficas para ele.
Brasileiros - Você ganhou o título de campeão do torneio de Gstaad (realizado em agosto deste ano, na Suíça). Como se sentiu do começo da competição até o fim?
T.B. - Nos primeiros jogos, não fui bem, tive uma série de dificuldades, fiquei um pouco nervoso. Mas, a partir do jogo contra o Wawrinka (o suíço Stanislas Wawrinka, então um dos favoritos do torneio), quando joguei com muita confiança (o brasileiro venceu a partida por 2 a 0), comecei a me sentir muito melhor, comecei a acreditar que poderia ser campeão do torneio... Daí em diante só melhorei o meu jogo.

T.B. - Não, não senti.
Brasileiros - Os suíços torcem pouco?
T.B. - Eles não são de ficar torcendo, de fazer algazarras na quadra como em outros países da América do Sul. Mas acho que também havia vários brasileiros lá na torcida.
Brasileiros - Com a vitória do torneio de Gstaad, você conseguiu subir nada menos que 53 posições no ranking da ATP, saltando da 119a para a 66a colocação. No entanto, além de experimentar essa boa sensação de escalar o ranking, você também já sentiu o peso de perder várias posições, quando saiu da sua melhor colocação, o 63o lugar alcançado em abril último, para a 119a, a sua colocação antes do Gstaad. Fale um pouco sobre isso.
T.B. - É, como joguei muito em um determinado período do ano, consegui alcançar a 63a posição na ATP, em abril. Durante este ano, porém, eu tinha de fazer muitos pontos para manter o meu ranking, mas não consegui jogar muito bem, acho até que senti um pouco a pressão de ter de segurar a minha boa posição na ATP, e acabei caindo muito rápido. Só agora, após a vitória em Gstaad, consegui recuperar a minha colocação.
Brasileiros - Quais são seus atuais patrocinadores?
T.B. - Banco Votorantim, Topper e Wilson.
Brasileiros - Quanto você ganhou com a vitória do torneio de Gstaad?
T.B. - € 70 mil.
Brasileiros - E quanto você já ganhou até hoje com sua carreira profissional?
T.B. - Uns US$ 500, US$ 600 mil.
Brasileiros - Você é melhor em quadra de grama ou saibro?
T.B. - Em saibro. Meus melhores resultados foram no saibro. Mas posso jogar em qualquer piso, meu estilo de jogo se adapta perfeitamente às quadras rápidas.
Brasileiros - E seus próximos torneios, quais serão?
T.B. - Vou participar de torneios na Ásia (que valem pontos para o ranking da ATP). Depois, volto para o Brasil para jogar a Copa Petrobras (que será realizada entre 24 de outubro e 1o de novembro em São Paulo, no Clube Harmonia).
Brasileiros - Thomaz, o que você faz quando não está competindo. Vai ao cinema, lê livros...?
T.B. - Cinema não sou muito chegado não, livro, eu leio.
Brasileiros - O que você lê?
T.B. - O último que li..., deixa eu ver... foi um de história. Gosto de livros de história, eu li Resumo da História do Século XX, e um livro sobre a vinda dos portugueses ao Brasil.
Marcher acrescenta (rindo): Leu também O Alienista, de Machado de Assis, uma edição em quadrinhos, que o Luís Felipe Tavares e eu demos de presente para ele.
Brasileiros - Essa edição é bem bonita. Você gostou?
T.B. - Gostei, e muito.
Brasileiros - O que mais você faz nas horas vagas?
T.B. - Às vezes vou aos jogos do Palmeiras...
Brasileiros - E de onde você vê o jogo?
T.B. - Fico lá no camarote da Samsung.
Brasileiros - Você conhece pessoalmente algum jogador?
T.B. - Conheço o Marcos, goleiro. A última vez, fui ao vestiário, conversei com ele...
Brasileiros - Você não conhece o Belluzzo (Luiz Gonzaga Belluzzo, economista e presidente do Palmeiras)?
T.B. - Não.
Brasileiros - (Pergunta ao Roberto Marcher) Mas como, o Belluzzo ainda não conhece o Thomaz? Não é possível! O cara se chama Bellucci, torce para o Palmeiras... Tem de levá-lo para conhecer o Belluzzo.
R.M. - Claro, vamos levá-lo. Você pode ver que a Koch Tavares não é somente a empresária ou agente do Thomaz. Nós somos responsáveis pelo gerenciamento da carreira dele, cuidamos praticamente de tudo, tratamos de seus contratos, supervisionamos as necessidades dele, a parte técnica, física, psicológica... E também vamos levá-lo para conhecer o nosso amigo Belluzzo (risos)...



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