Revista > Edição 26 - Setembro/2009 > Capa
Tom Zé nu & cru
Uma reportagem, em quatro atos, sobre o imprevisível baiano de Irará, que vai lançar CD, um DVD e terá um especial na televisão
texto Marcelo Pinheiro fotos Luiza Sigulem
1º ATO
Juca Chaves dos pobres
Tom Zé é um desses raros sujeitos que desenvolvem, ao longo da vida, uma apurada capacidade de criar raízes e estabelecer amplos vínculos com as coisas que o cerca. Mora na mesma rua do bairro das Perdizes, em São Paulo, há mais de três décadas, tempo em que sempre esteve ao lado da valente e serena companheira Neusa, que, talvez, rendida pela impossibilidade de não se envolver com o jogo lúdico e instigante do marido, sempre o apoiou, incondicionalmente, e foi determinante em ajudar a construir essa figura mítica que é Tom. Ele nos recebe ofertando cadeiras, pede para ficarmos à vontade, vai até a janela, observa o dia, e aponta para a enorme fachada do prédio em frente, onde cuida voluntariamente de um belo jardim, que surge pleno, a coisa de 15 m abaixo de nossos olhos. Comenta que chegou ao bairro, quando viveu naquele mesmo prédio em frente, a partir de em 1973, depois de alguns anos de convívio com Neusa, na avenida Angélica que, segundo cantou em "Augusta, Angélica e Consolação", cheirava a consultório médico. O frio desta manhã é bastante rigoroso e ele recorda que, no começo dos anos 1950, o prédio fora construído de frente para a rota diária do sol, justamente para aproveitá-lo ao máximo, pois São Paulo, regularmente, era metade do ano muito fria. Tom observa que as condições climáticas da cidade mudaram consideravelmente, e lembra que lidar com um sol que já ardia intenso na janela, às seis da manhã e partia só às oito da noite, passou a ser algo insuportável. Foi a deixa para atravessar para o outro lado da rua.
É evidente que a São Paulo cantada por ele mudou em muitos outros aspectos, mas é possível suspeitar que Tom aprendeu a amá-la com todas suas grandes contradições, dilemas e complexidades, pois, desde sempre, atentou-se em interpretá-la e redimir-se em gestos e canções como a hilária "A briga do Edifício Itália e do Hilton Hotel". Mesmo a duras penas, como quando viveu quase duas décadas de completo ostracismo, ele não hesitou em inserir-se profundamente na metrópole que o recebeu cheio de possibilidades, e ajudou a moldar sua incrível personagem. Defende a rua Santa Ifigênia, zona comercial popular de componentes eletrônicos, informática e instrumentos musicais, no coração de São Paulo, como um lugar sagrado. Símbolo da capacidade do brasileiro em driblar adversidades e ponto fundamental para viabilizar a criação de seus instrumentos, como o enceroscópio, feito à base de escovas mecânicas de enceradeiras e as frequentes compras de componentes, muitas vezes, solicitados com surpresa nos balcões das lojas: "Mas para que o senhor quer isso? Isso é peça de torre de transmissão de televisão!". À propósito de São Paulo, resgato assunto que é comentado por ele em um texto intitulado Aniversário de São Paulo e Tom nos remonta o saboroso episódio, vivido com Gal Costa, em 1965, ocasião em que veio à cidade para integrar o espetáculo Arena Canta Bahia, de Augusto Boal, acompanhado dos amigos Gal, Bethânia, Gil e Caetano: "Gal e eu, a gente tinha um namoro meio atrapalhado. O dia que ela me chamava pra sair era uma festa, porque eu não tinha direito de chamá-la pra sair. Ela disse: 'Tom, vamos fazer umas compras na cidade?'. Ela vestia uma calça comprida de casimira, daquelas calças de filme de Hollywood dos anos 1940, e eu estou com Gal na rua e todo mundo bolindo com Gal, aí eu falei: 'Pô, sou um homem de merda, mesmo, não é? Já sou acanhado pra diabo, aí tô com a moça aqui, e todo mundo bole com a moça?'. Gal não era conhecida, não era nem Gal Costa, ainda, era Gracinha. Depois de muito sofrimento, uma senhora teve a caridade de chamar a gente no fundo de uma loja e falar: 'Minha filha, moça direita não sai de calça comprida em São Paulo. Quem sai de calça comprida em São Paulo é prostituta!'. Aí a gente compreendeu tudo."
A história descontrai e o lado satírico de Tom, aos poucos, vai se aquecendo e começando a soltar faíscas. Já em 1958, ele deu amostras de uma deliciosa irreverência, em sua primeira aparição na televisão. No programa Escada para o Sucesso, horário nobre da TV Itapoã, em Salvador, Tom entra e defende uma de suas primeiras canções, debochadamente, intitulada "Rampa para o fracasso". Ao lado do amigo Capinam, ele compunha pequenos temas de protesto para o CPC - Centro Popular de Cultura - em Salvador e, por esse mesmo deboche, era chamado "Juca Chaves dos pobres", nas páginas do jornal Diário de Notícias. Polêmico e sagaz, foi um importante colaborador e teórico da Tropicália, movimento liderado pelos amigos Caetano Veloso e Gilberto Gil que, por um breve período, pôs de pernas pro ar as convenções musicais, políticas e comportamentais de um país que vivia a grande contradição de estar de portas abertas para um novo mundo, de apelos urgentes, sob a vigília ostensiva de militares no poder e a barra pesadíssima do Ato Inconstitucional no 5. Apesar de exercer no grupo um papel dos mais influentes no campo da teoria musical, graças aos mais de sete anos que estudou com os maestros H.J. Koellreutter e Ernst Widmer, ícones da revolução radical proposta pelo reitor Edgar Santos na Universidade Federal da Bahia, naqueles primeiros dias da década de 1960, Tom diz não ver muita afinidade nas coisas que fazia com as coisas produzidas por Caetano e Gil. Valia-se de ferramentas que aprendeu a manipular, desde a infância em Irará, quando lidou com preconceitos e total ausência de empatia com sua música, desafio que o fez criar saídas para a inviabilidade imposta pelos outros: "Deixe-me ver se lhe dou uma ideia do que aconteceu no começo. Eu procurava alguma coisa pra me segurar no mundo, esse é o motor primeiro, é o ponto de partida, e música não era assim uma coisa que estava muito evidente, não tinha nada daquilo de dizer: 'Aos oito anos de idade mostrou, logo, sua vocação!'. Era o caso de dizer: 'Aos oito anos de idade mostrou que não tinha a menor vocação para a música'. Eu fazia um tipo de música em Irará, que era o seguinte: eu ia falar do seu trabalho, da roupa que você está vestindo, da maneira que você se pinta, dos objetos que você usa, de forma que você se sentisse, imediatamente, identificado, como um personagem dentro da música e incapaz de ver que eu não era cantor. Como se eu enganasse você. Minhas músicas eram pra impedir o ouvinte de descobrir que eu não era cantor. Comecei a fazer música que, imediatamente, você começava a pensar. Quando eu falava: 'Guilherme se requebra', você já tava: 'Isso, eu sei o que é isso!' Você já era personagem da canção".
Éverton, o pai de Tom, parece ter carregado nos genes a mesma sorte do filho em ter a vida transformada pela força do acaso. Corria a década de 1920 e Éverton detinha o espólio de seu pai, que, seguindo a tradição do sertão baiano, havia sido enterrado dentro de um pote que continha as libras esterlinas que somavam toda a herança. Caçula de uma família vitimada por vários problemas de saúde, sem nenhum irmão, os primeiros a pleitearem a divisão foram primos de segundo e terceiro graus. Cansado de lidar com tanta gente que aparecia para defender parentesco e direito às libras, Éverton decidiu convocar todos os pretendentes, em local neutro, para por um final à questão da partilha. Saiu de lá com uma quantia ridícula, mas já na rua encontra um vendedor de bilhetes da loteria federal que insiste na venda da centena 0459 e, batata - cententa 0459 na cabeça! Da noite para o dia, da condição de grandes privações, torna-se renomado comerciante e emerge na sociedade de Irará, ingressando na família Santana, das mais tradicionais e com vários membros simpatizantes do comunismo.
Sobrinho de Fernando Santana, líder da UNE, e futuro secretário geral do Partido Comunista, em Salvador, Tom vivia cercado de informações e visões conflitantes de mundo. Observando os processos cultos dos tios e a linguagem do povo que circulava pela loja de tecidos do pai, em Irará, foi se tornando um poliglota da vida. Chegou até mesmo a enfrentar o preconceito de pessoas que diziam que "filho de rico" - onde ele bem ressalta: "Em Irará não tinha rico, tinha pobre remediado" -, não podia estudar música, que isso era coisa de pobre. Sem nunca aderir ao Partido Comunista, mas influenciado pelo tio, ele vai estudar em Salvador e integra o CPC, de forte apelo jovem, ao lado do amigo e poeta José Carlos Capinam, onde dirige o núcleo musical. Em paralelo, dedica-se aos estudos na UFB, que resultam em seu ingresso, anos mais tarde, ao corpo docente da universidade: "Quando a gente era mais novo, não tinha como não ser esquerdista, mas eu nunca fui do partido e não acho que o partido seja indigno. Não fui ao partido, pois não tive vontade de ir, mas devo dizer que quando fui diretor de música do CPC, fui graças a Nemésio Salles, que tinha sido secretário geral do partido, e que, quando tive um desentendimento na casa de meu tio e ia voltar para Irará, me fez ficar em Salvador. Devo o fato de estar aqui, hoje, a Nemésio Salles, que me deu condições de ficar. Era o Partido Comunista, o velho partidão, que me pagava. Tenho esse débito com ele! Eu era diretor de música do CPC e com esses trinta cruzeiros por mês eu pagava minha parte no apartamento do próprio Nemésio, dividido por ele, eu, José Alberto Bandeira, que era o então secretário geral, e o cineasta Geraldo Fidélis Sarno. Éramos os habitantes desse apartamento, que foi o primeiro lugar invadido na hora que estourou o golpe de 1964".
Embora defenda essa postura apolítica e apartidária, Tom é um cidadão de plenas convicções políticas e posiciona-se, sem ressalvas, quando defende seu ponto de vista. Ao enveredarmos por essas questões ideológicas que cerceavam o dia a dia de jovens com dedicado grau de participação como ele, relembra uma reles capa de revista do perío-do e põe-se a discorrer um assunto que vai desembocar na crônica política dos dias de hoje: "Lembro da capa de uma daquela Revista Civilização Brasileira. Um homem com um peixe sendo fisgado, uma reportagem sobre a pesca artesanal. Ora, naquela época, o próprio censo dizia que a população iria dobrar e que a capacidade produtiva de alimentos precisava dobrar, pra não matar metade dessas pes-soas de fome. A capacidade da pesca artesanal, nunca iria chegar perto do que seria necessário, seria preciso desenvolver a pesca industrial e como é que nós vamos defender esse tipo de Brasil bucólico que a esquerda quer, esse tipo de Brasil que não abre as fronteiras pra modernidade, pra poder matar gente de fome! Tinha argumentos como esse que também explicam muito porque o Brasil bucólico, que a esquerda queria, não podia se conformar com o Brasil que, na verdade, Caetano e Gil introduziram na cabeça das pessoas, aquilo que, mesmo sob a égide de uma ditadura, ia levar o Brasil a um salto imediato pra segunda revolução industrial. Nós, toda vida, fomos povo inventor, na hora que o avião ia subir, tivemos uma pessoa lá; a guitarra, que outro dia tava no jornal: 'Morreu o pai da guitarra!' (o guitarrista Les Paul, criador do célebre modelo homônimo de guitarra). Morreu o pai da guitarra, uma porra! Pai da guitarra é Osmar e Dodô, que a fez muito antes na Bahia, e é bom dizer que Santos Dumont só tem o nome dele citado porque a França tem grana, ele era Dumont e estava em Paris, naquele momento, se não, os irmãos Wright seriam os únicos donos da aviação. Era isso que Caetano e Gil, conscientemente, estavam lidando. Ao mesmo tempo, houve a atitude repressiva da ditadura. E o que é que a ditadura quer? Que nossos cérebros se diminuam, ora! Eu era namorado de uma professora e o salário dela foi instituído por João Goulart, três mil cruzeiros! Olhe o que significava isso: que as pessoas de capacidade estavam convidadas a ser professoras, salário nenhum pagava aquilo. Estavam privilegiando o pensamento, o desenvolvimento das crianças. E o que foi que a ditadura fez? O contrário! Degradou os professores. Veja como eles estão, até hoje, servindo ao capitalismo nessa degradação do ensino. Isso é uma das coisas mais terríveis. Por que falta educação? Porque o governo não quer! O próprio governo de esquerda, que está instaurado no Brasil, precisa que o nordeste seja miserável, pra poder lhe dar Bolsa Família, pois se o nordeste deixar de ser miserável ele não vai ter aqueles votos todos. É uma maravilha para o governo que o nordeste seja essa miséria que é. Estão dispostos a todas as providências pra que o nordeste não possa melhorar e eles se eternizem no poder. É isso que está em jogo na hora que alguém mexe com a cultura da nação e foi isso que Caetano e Gil fizeram com consciência, sabendo o que estavam fazendo".
2º ATO
Saudades perfumadas
A prisão e exílio de Caetano e Gil, no final de 1968, e o consequente desmanche do grupo tropicalista, foi um difícil período inicial de transição, em que cada um iria seguir seu rumo. Gil, Caetano, Gal e Bethânia teriam carreiras de grande apelo popular, enquanto Tom seguiria renitente em suas crenças, rumando o caminho que gente como Jards Macalé, o guitarrista Lanny Gordin e outros coadjuvantes da aventura tropicalista iriam, amargamente, experimentar - um ostracismo vergonhoso. Pergunto se essa ruptura, de alguma forma, também estabeleceu um rompimento dos velhos laços de amizade que havia entre eles, se ainda se relaciona com eles e se ele acha que no campo artístico, ainda hoje, haveria convergência entre o grupo. Ele, imediatamente, se posiciona para a construção de um argumento conciso e volumoso, sobre suas escolhas e as escolhas dos outros: "Olha, eu vou dizer uma coisa, acho que não tinha nenhuma afinidade. Quando nós nos juntamos e conhecemos as músicas uns dos outros, eles decidiram que eu ia ficar junto deles e fizemos juntos o primeiro show, o segundo, viemos juntos pra cá fazer o tropicalismo e, na volta da Europa, após o exílio, eles decidiram que cada um deveria ir pro seu lado. Na hora que eu entrei, não sabia que seria uma coisa tão grande, que estava me aproximando de gênios, que na verdade os são. Na hora da saída, que eu já sabia disso, fiquei muito triste, até porque era uma perda muito grande de amizade".
Os loucos e tortuosos anos de 1968 a 1973 constituem seu período de vida e morte na tropicália. A despeito da perda de ideais e projetos coletivos, a dissolução do grupo abre os horizontes de Tom. Quando propõe novos e radicais caminhos, a partir do álbum Todos os olhos, de 1973, adota procedimentos e escolhas que resultariam em um intrincado novo mundo, onde descobriria veias abertas para canalizar toda sua prolificidade e capacidade de criação até os dias de hoje, aos 72 anos. Em 1979, Celso Favaretto publicou o livro Tropicália alegoria alegria e sequer mencionou seus álbuns na discografia do movimento, nem mesmo Liquidação total, tido como um dos mais importantes. Pergunto se nestes idos de 1973 ele já desconfiava que estaria fadado a tal esquecimento e ele se cala. Minutos antes, sobre a questão do rompimento de amizades, havia me intimado a ir direto ao assunto. Ele, então, organiza as palavras e coloca um ponto final na questão: "No quinto aniversário do tropicalismo, eu era tropicalista; era parte do grupo, da imprensa, da festa e de tudo. No décimo, como eu estava fora de circulação, comecei a ficar assim, lembrado, apenas. No décimo quinto, eu estava quase fora e no vigésimo eu já tinha desaparecido, completamente. A RCA tem uma compilação de compactos do início de carreira do grupo todo (Eu vim da Bahia), e, já ali, você vê que eu faço algo completamente diferente, eles são 'bossanovistas'. Então já estávamos separados, há muito tempo, mas eu, ao contrário, fiz um pouco de esforço, a partir do momento que comecei a cantar com eles, nos shows na Bahia, no Teatro Vila Velha, em meu primeiro, segundo e terceiro discos. Fiz um esforço muito grande, pra conseguir botar o que eu produzia, que não se chamava de música, no apelo da música popular. Fui no Jornal da Bahia, por acaso, entregar minha última matéria e, quando subi, me disseram: 'Caetano está aí, no terceiro andar'. Cheguei e lhe falei: 'O Caetano, que saudades!'. Aí, nós éramos, realmente, companheiros e amigos, e ele: 'Poxa, cadê você? Eu já te disse que aqui na Bahia você só vai se aborrecer. Em São Paulo, você pode se aborrecer, também, mas pode ser que aconteça alguma coisa'. Eu, como tinha dinheiro, peguei o avião e vim. Neste mesmo dia de minha chegada, ele me apresentou o disco Sgt. Pepper's, dos Beatles, traduzindo música por música, pois ele sabia que eu não entendia porra nenhuma. Na noite do mesmo dia, ele me levou pra ver o Rei da Vela e fiquei convencido de que deveria vir mesmo. As pessoas me diziam: 'Como é que você pode estar envolvido com eles? Eles são artistas, você é um troglodita!'. Aquele tempo foi dos melhores em minha vida".
3º ATO
Complexo de épico - rampa para o fracasso
Os anos 1970 viriam confirmar a eleição de certos mitos e meandros massivamente utilizados pelo estatuto firmado pela MPB do período e, à medida que os pares do tropicalismo iam se tornando semideuses deste novo olimpo, herdando muito precocemente o status que o herói de todos, João Gilberto, levou quase uma década para experimentar, Tom vai trilhando o caminho inverso, investindo cada vez mais em experiências de linguagem e produção de instrumentos alternativos, criados a partir de lixo industrial, velhas enceradeiras, mecanismos de batedeira de bolo, de máquinas de lavar e buzinas de automóveis, que foram ganhando resolução musical e tendo sua funcionalidade de ideias testadas em seus próprios álbuns, como em Correio Estação do Brás, de 1978. Em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, em 1993, ele relembra que chegou a vender um imóvel na praia para investir nos instrumentos que inventava e se definiu, na mesma entrevista, como incapaz de estrategiar procedimentos. Apesar de trilhar um caminho que o levaria à obscuridade definitiva, Tom defende com veemência que não houve resistência de mercado, incompreensão ou nada que pudesse ser interpretado como motivo para seu fracasso, nada que não estivesse dentro dele mesmo.
"Quando você não é tocado no Brasil, tem uma coisa de dizer que você é vítima da cultura de massas, como eu não tenho vocação pra vítima, como eu não era tocado, eu fui trabalhar em casa. Eu não era chamado pra trabalhar na rua, não era chamado pra entrevista, não era chamado pra porra nenhuma. Eu ia pra casa trabalhar. Talvez, o que me fez trabalhar durante meu tempo de ostracismo foi que a queixa não era meu lema. Não gosto de fazer queixa e culpo a mim mesmo. Fiz esses instrumentos, em 1978 e, dez anos depois, o Instituto Goethe chamou a imprensa brasileira, as revistas, a Veja, pra ir ver umas bandas americanas que estavam produzindo músicas com instrumentos eletrodomésticos, e era a mesma manchete na Folha de São Paulo, no O Estado de São Paulo. Mas daí, um redator da Veja escreveu, de cunho próprio: 'O Instituto Goethe chamou a gente pra ver umas bandas americanas que usam instrumentos de trabalho ou instrumentos de cozinha e tal. Olha, não tem novidade nenhuma nisso, principalmente, fazendo o que fazia Tom Zé, em 1978, que já era muito melhor. Eu tinha quinze anos, na época em que ele apresentou os instrumentos dele na GV'. João Araújo, pai do cantor Cazuza, por exemplo, queria me ajudar pessoalmente, era diretor da Som Livre e queria me ajudar. Já tinha sido meu produtor e eu sabia que ele tinha uma possibilidade de diálogo. Fui a ele pra mostrar os instrumentos e ele deixou, quis lançar pela Som Livre, quis botar no festival da Esso, aí eu não sabia que a gravadora era quem escolhia um artista para botar no festival. Eu ia ser 'o artista da Som Livre'. Meti as mãos pelas pernas, quando fui ver, não estava mais. Fui convidado pra um festival do Canal 4 e achei que não era pra participar, que era bobagem. Também não fui. Então, ninguém tem culpa de nada, você mesmo se mata, você mesmo é seu próprio algoz".
Dessa condição declarada de autossabotagem, Tom foi mergulhar em um período sombrio, de extrema reclusão e improdutividade, agravada por problemas de saúde. Começa a pautar esses temas, mas, subitamente, passa a narrar a fantástica história de sua ressurreição para o mercado fonográfico e para a própria vida, por meio da descoberta ocasional de seu disco Estudando o samba, de 1975, pelo americano David Byrne, líder dos Talking Heads, um dos pilares do movimento New Wave, surgido na efervescente vanguarda daquela Nova Iorque do primeiro quinquênio dos anos 1970. Sim, a transição do total anonimato para esta figura celebrada em Paris, Nova Iorque, Londres e Berlim, sugere um conto de fadas moderno e, convenhamos, já foi deveras explorada. Tento extrair de Tom algo que não tenha sido tão excessivamente narrado sobre o período, e ele retoma o raciocínio para falar dos dias amargos que precederam sua tardia redenção. "Eu estive sempre muito doente, meu estômago era um órgão de choque naquele tempo. Só fiquei bom, quando comecei a fazer Tai Chi Chuan. Uma coisa milagrosa. Ia lá tomar massagem e tal, uma hora de meia dúzia de movimentos fantásticos pra sua cabeça e seu corpo, mas eu tinha vergonha de ir pra aula de Tai Chi Chuan. Sempre tendo vergonha. Pois bem, o oriente me salvou aqui. Em 1985 eu estava morto. Enganava Neusa. Levantava pra enganar ela, pra dizer que tava vivo. Eu tava morto, não tinha energia nenhuma. Neusa, um dia, falou assim: 'Por que não vamos na macrobiótica?'. Pra quem tá morto, aqui ou na macrobiótica, tanto faz. Chegando lá, o doutor me receitou uma semana de arroz e como eu não podia comer nada antes, pois ficava mal do estômago, o arroz, feito benfeito como a Neusa sabia e sabe fazer, era minha vitamina C. Depois de uns quatro dias, meu intestino voltou a funcionar como não funcionava há muitos anos. Eu não sabia que meu problema era aquele. Eu já estava todo desgraçado, a mão não podia nem pegar em livro porque já estava toda despelando, excesso de ácido úrico. Tudo problema emocional e, comendo errado, vai piorando. Daí que quando comecei a macrobiótica, passados os dez dias de arroz, eu já era outra pessoa. Inclusive teve um negócio engraçado, eu pude ter a experiência do que é uma droga pesada. Porque arroz depois do sexto dia, rapaz! Você pode imaginar, se seu cérebro era de um jeito e você passou quarenta anos absorvendo toxidades maiores, produtos e produtos que começam a circular no sangue e modificam o cérebro, aí você começa a voltar à mesma toxidade que você tinha, quando tinha seis meses, rapaz! Aquilo faz, novamente, conexões neurais, que você não sabia mais, que o cérebro não sabia mais e é aí que você sabe o que é uma droga pesada".
| ||||||
4º ATO
Zénial
O título deste 4o ato, e é uma alusão à resenha de Com defeito de fabricação (1998), publicada na cultuada revista francesa Les Inrockuptibles. Tom separa diversas matérias, organizadas em um clipping e exibe páginas do New York Times, Village Voice, das revistas Vibrations e Time Out, onde são celebrados com entusiasmo, novos lançamentos e reedições de sua discografia, seus frequentes shows e a parceria com o grupo Tortoise. Cinco ou seis páginas de jornais e revistas que podem atestar a redenção deste homem de tantas provações que precisou confundir muito para esclarecer e poder trilhar os mesmo degraus que o levariam ao mesmo porto seguro, onde, comodamente, outros estão há décadas. Filho atento da tradição oral do nordeste, Tom é verborrágico e persuasivo. Começa a falar, baixo, pausado, e vai envolvendo o ouvinte em uma teia de argumentos que se amarram e se estendem com uma desenvoltura fascinante. No começo da entrevista, ele próprio avisa que Neusa procura sempre regrá-lo e impõe horários fechados, mas que sempre extrapola o cronômetro da mulher, que fala compulsivamente e desnorteia os pobres jornalistas que vão conversar com ele, que, muito provavelmente, devem passar horas polindo e tentando extrair algo objetivamente jornalístico do que colhem. Discordo de Tom e, embora me preocupe em concluir o roteiro que havia elaborado, sabia desde o princípio que estaria lidando com um cidadão imprevisível. Que, a qualquer momento, poderia ter meus planos sabotados pela compulsão de Tom, o que não deixa de ser uma tremenda de uma boa expectativa e uma sorte rara, visto que vivemos em um tempo onde tudo é cada vez mais previsível, asséptico e inofensivo. Voltamos a falar da situação atual, dos dilemas e desencontros entre a indústria e o mercado consumidor de música, e concordamos que, se provocados os estímulos, o grande público e aqueles que produzem música com o propósito popular, vão querer, sim, a informação e a experiência do novo. Alguns eventos culturais patrocinados pelos governos de diversas esferas estão aí, precariamente, a validar essa tese. Enveredo pelo assunto à procura de algum comentário de Tom sobre o lamentável episódio ocorrido na Virada Cultural 2009, no Teatro Municipal, no show em que ele revisitou o álbum de estreia Liquidação total, quando ocorre o episódio da menina que, furiosa, com a (des)organização caótica do evento, esbravejou, xingou-o e saiu de costas para o público, dedos médios em riste, logo na abertura do show. Pouco foi falado disso na imprensa nos dias que sucederam o episódio. Lembro de que, por alguns segundos, ele e a banda mergulharam em um silêncio constrangedor e se saíram com uma execução tensa e enérgica de São São Paulo, meu amor, como que a sugerir que tudo aquilo fazia parte de nossas grandes contradições. Peço a ele uma leitura do episódio: "Que bom que você se lembrou disso, o normal seria eu dizer: 'Agora não posso falar disso, que o público está aqui, estamos no horário, está atrasado e temos que fazer'. Os shows anteriores atrasaram e o nosso também, por consequência. Eu estava preocupado com isso e, ao mesmo tempo, tendo de administrar a situação de abandonar uma pessoa, parecendo que eu estava desprezando a queixa dela. Como é que eu iria parar pra tomar providências com o que estava acontecendo lá fora? Pois foi por isso que eu fiquei parado um pouco, pensando e é engraçado você se lembrar disso, pois a gente teve mesmo um momento parado, não é? A moça, depois, veio me contar esses episódios, que a polícia estava maltratando as pessoas, que pessoas credenciadas não conseguiam entrar".
Dois colegas cinegrafistas nos acompanham na entrevista e um deles não hesita em nos interromper para ilustrar que, dois anos antes, houve o quebra-quebra na praça da Sé, com o incidente do show dos Racionais Mc's, e nos anos seguintes segregaram o rap para o parque Dom Pedro II. Tom Zé retoma rápido o raciocínio: "É por isso que eu falo que é importante essas festas irem para as periferias, não ficar só aqui no centro. Eu fiz minha primeira Virada Cultural no Anhangabaú e na segunda, me mandaram para um CEU na Zona Leste". E a aceitação? Questiono: "Veja bem, você tem de fazer um certo cálculo. Em qualquer lugar que for tocar sempre será diferente. Você vai ao Municipal e sabe que não vai encontrar em um show desses aquele mesmo ambiente, é diferente, mas lá, é claro, você precisa tomar o curso das coisas com a plateia, recebendo um feedback da capacidade de interesse que a coisa provoca e fiz até um número improvisado, que a gente faz raramente, e foi uma felicidade, como se as portas se abrissem e eles estivessem livres da televisão, da escravatura da televisão, por uma única noite. Não tem um patrão que quer desenvolver nas pessoas a violência, não tem esse patrão no comando".
Reitero o argumento de Tom comentando que, naquele dia horas antes, vi um Teatro Municipal assistir, extasiado, Arrigo Barnabé executar Clara Crocodilo em seus arranjos originais. Convenhamos que não se trata de música gastronômica, de fácil digestão, como definiu Umberto Eco. Tom, que já teorizou sobre o pagode e o funk carioca, tidos como sinônimos de certa decadência de nossa música, discorda de minha observação em defesa da liberdade de manifestação cultural: "Barnabé, há tempos, é um orgulho de São Paulo, mas quando uma coisa acontece aqui e agora é muito perigoso a gente querer julgar. O povo tem de ter toda liberdade do mundo pra fazer o que pensa e o que gosta, qualquer coisa que ele queira ou que ele possa. Augusto de Campos, desde a hora em que Caetano, em 1965, defende na Revista Civilização Brasileira a retomada da linha evolutiva da música popular brasileira, a partir de João Gilberto, Augusto e os concretos, disseram: 'É esse o homem da gente! Este rapaz tá dizendo alguma coisa'. Você vê como esses concretos eram espertos e ativos! Augusto, por exemplo, já valorizava e defendia até mesmo Roberto Carlos, que era o grande vilão da época, não é? O João Gilberto fala que, em 1969 ou 1970, quando tinha os famosos shows do teatro Paramount (Bossa no Paramount), que eram celebrados como 'a verdadeira música popular brasileira', ele estava na porta, um dia na saída, e foi ver, como quem não quer nada. As pessoas nem se lembravam dele, fazia quase dez anos que ele não aparecia na televisão, ele entrou por um canto e alguém perguntou se ele havia gostado e ele disse: 'Olha eu prefiro iê-iê-iê do que jazz retardado', e é verdade. Quando Roberto fez seus primeiros discos de iê-iê-iê, aquele álbum da estrada de Santos (Roberto Carlos em ritmo de aventura), eram coisas que você, quando ouvia, inevitavelmente, se arrepiava. 'Quero que tudo mais vá pro inferno' é tão bom, que Roberto Carlos agora proibiu. Não deixa tocar, não canta e não deixa ninguém cantar!"
No episódio do show da Virada Cultural 2009, em São Paulo, outro inusitado fato foi destaque e diz muito sobre Tom Zé e sua inquietação em questionar papéis, estatutos e protocolos. Dezenas de fotógrafos espreitavam-se, à beira do palco, quando Tom decide interromper para propor uma divertida inversão e convida todos os fotógrafos a subirem no palco e, da primeira fila, toma uma das câmeras emprestada e põe-se a fotografá-los. A despeito do descuido que teve com ele, em meados dos anos 1970 e ao longo de toda a década de 1980, Tom tem uma relação de generosidade e colaboração com a imprensa, que passou a demonstrar tamanho interesse por ele e sua obra, nunca antes visto, que até sugere um certo sentimento de culpa e necessidade de justiça. Coisa rara neste mundo de celebridades instantâneas inatingíveis, devemos destacar que Tom também dá total abertura aos fãs, que travam contato quase diário com ele, pelo blog tomze.blog.uol.com.br. Ele começa a se preocupar com o horário, pois está envolvido na pós-produção do novo álbum e, atrasado para alguns compromissos vespertinos, precisa que o deixemos cumprir sua agenda. Minutos antes, nossa fotógrafa, Luiza Sigulem, sugere um flagrante, apenas de cueca, sentado, de pernas cruzadas, em um banquinho, empunhando seu violão; uma alusão a uma célebre foto de Brigitte Bardot. Ele concorda de imediato. Quando encerramos, Gregório, um dos amigos que filmou a entrevista pede a Tom uma foto conosco. Ele consente, mas quando estacionamos a seu lado, faz um breve suspense e emenda, sorrateiro: "Aliás, pode tirar foto comigo, sim, mas só se for de cueca, também!". Sim, meus amigos, é assim, de calças arriadas, cantando Brigitte Bardot e com a sensação de roteiro desprezado e tarefa cumprida, que nos despedimos de Tom Zé, nesta manhã gélida de quarta-feira, onde o homem que escreveu Imprensa cantada, ousou querer deixar a pobre imprensa quase nua.



Astrologia Ciência e tecnologia Colaboradores Cultura Economia História do Brasil Opinião Pequenos Contos Personagens Quadrinhos
Você acredita no Brasil?
O rapper e apresentador Thaide fala por que crê no Brasil e no brasileiro. Leia outras opiniões
Bebidas
O bom vinho português Periquita e o desafio do mezcal, uma bebida mexicana para macho
Pequenos Contos
Marcos Rodrigues fala sobre sanfonas, motocicletas e outras paixões de Max Bauer
03/09/2010 - 09h37 - Memória
Francis, 80 anos
02/09/2010 - 17h27 - Tecnologia
Entrevista com Moacyr Alves Júnior
02/09/2010 - 17h25 - Tecnologia
Brincando com coisa séria







