Revista > Edição 3 - Setembro/2007 > Capa
Vôos de um grande repórter
Jornalista com raro senso de navegação e sem receio de expressar opiniões polêmicas, como a em que desanca três presidentes da América Latina, William Waack realiza seu maior sonho – tornar-se piloto –, depois de ter testemunhado alguns dos principais conflitos do País e do mundo
Quando não está sob o comando de William, o avião fica guardado no hangar do Aeroporto de Jundiaí, interior de São Paulo, onde o apresentador do Jornal da Globo aprendeu a pilotar e tem um sítio na reserva ecológica da Serra do Japi.
A satisfação de finalmente voar está estampada no entusiasmo do novo piloto, que consumou tardiamente um anseio infantil (leia seu texto na página 102). E reabilitou sua paixão pelo movimento dos ventos e das nuvens que passara a observar com atenção desde os tempos de velejador. "Sei tudo sobre ventos. Os ventos estão associados aos deuses. É por causa deles que se toma a decisão de partir ou não do porto."
William interrompe a conversa e, compenetrado, avisa que o domingo, 19 de agosto, vai ser de tempo instável. Como ainda estamos na quinta-feira 16, a previsão soa precipitada. Mas não era.
As paredes do escritório no seu apartamento em São Paulo estão forradas de mapas de rotas aéreas, que a cada dia ganham novos traçados percorridos. A cidade de São Carlos (SP), sede do Museu Asas de um Sonho, idealizado pela TAM, aparece como um de seus destinos prediletos.
Seu filho mais velho, Leonardo, de 26 anos, chega à entrada do escritório e, à primeira vista, estranha a decoração. Convida o pai para almoçar. William declina num tom de voz mais baixo. Diz algo como "um almoço de trabalho com o jornalista Heraldo Pereira". E retorna aos aviões, que atravessaram sua vida desde a infância em rasantes sistemáticos. Além de Leonardo, William tem outro filho, Carlos, de 23 anos. E sua mulher, Iris, também se rendeu à paixão por aviões: está próxima de obter seu brevê, fazendo aulas no mesmo Aeroporto de Jundiaí.
William é chamado de maluco pelos colegas da emissora quando está absorvido na leitura de complexos manuais de aviação. E conta com marota felicidade como desembarcou num sábado no Rio de Janeiro para apresentar o Jornal Nacional - para cumprir um rodízio de apresentadores determinado pela Rede Globo. A primeira pergunta que ouviu dos colegas, diante do turbilhão aéreo vigente, foi de como tinha sido sua viagem, pois supunham aflições na fila da ponte aérea. "Foi ótima!", respondeu William, que acabara de pousar seu Cessna nas imediações dos estúdios da emissora num campo civil em Jacarepaguá.
A base do jornalista, porém, é São Paulo, onde nasceu há 55 anos completados em 30 de agosto último e onde está o estúdio do Jornal da Globo, segundo telejornal diário da emissora em audiência, com estáveis 15 pontos de média, número amplamente satisfatório para o horário, sempre após às 23h30. Chega em casa sempre depois da 1h da manhã e se proíbe de ver televisão e ligar computador. Relaxa lendo, pelo menos 40 minutos antes de dormir, e de preferência bons livros históricos, como o atual, Justinian's Flea: Plague, Empire, and the Birth of Europe, de William Rosen, que mostra, entre outras coisas, como a pulga contribuiu para o declínio do Império Romano - quem sabe até mais que os bárbaros.
Há dois anos, sempre ao lado de Christiane Pelajo, William e suas largas olheiras imunes a qualquer maquiagem, emolduradas por cabelos já bem grisalhos, empresta uma reconhecida credibilidade ao telejornal, o único da emissora que é aberto com uma opinião. Ainda apresenta o programa Painel, no canal de notícias pago Globonews, em que esgrima sobre os mais variados assuntos - principalmente política e economia - com os melhores espadachins do ramo. O resultado é uma conversa muitas vezes clarividente. Ainda assina uma coluna no portal G1 sobre sua especialidade, política internacional, aberta a comentários muitas vezes contrários.
A transição para a TV em 1996, quando foi contratado pela Rede Globo, não foi exatamente fácil para um profissional como ele, de carreira sólida, construída nas principais redações do País como correspondente internacional que literalmente acompanhou os fatos mais relevantes do mundo nas últimas décadas. Tornar-se apresentador, então, acarretou-lhe mais inquietações existenciais.
"A televisão é perigosa, mexe muito com a vaidade, principalmente para quem tem menos estrutura emocional. Há o risco de se passar a achar diferente das outras pessoas e isso o tornar profundamente besta. A TV pode criar monstros e fazer com que pessoas medíocres enganem durante décadas." E admite que todo apresentador tem, sim, seu lado ator. "O problema é quando se dá mais ênfase à interpretação do que ao conteúdo."
Para não ser um intérprete de si mesmo, é ele quem escreve praticamente tudo o que vai ler no jornal. "Sou um amante do verbo", diz. Mas o vírus da TV, talvez ainda que em seu lado mais positivo, contaminou-o. "A televisão é a mais completa ferramenta jornalística que existe; podemos fazer um minifilme numa reportagem."
Lembra-se então de um dos melhores trabalhos como repórter da Rede Globo, um "minifilme" dentro de uma série de reportagens batizada de "Católicos", sobre o Papa Bento XVI. Enviado ao sul da Alemanha, na Baviera, Waack demonstra como a paisagem ordeira e exata do lugar onde o Papa nasceu ajudou a moldar o espírito severo e disciplinado da maior autoridade da Igreja.
"Nada é por acaso na Baviera", conclui o repórter, que mostra nogueiras que florescem nos jardins da casa onde o Papa passava as férias, não por acaso a árvore predileta de Santo Agostinho, não por acaso o santo de maior devoção de Joseph Ratzinger. William relembra que a mesma paisagem também encantava Hitler, e, nas margens do rio Inn, demonstra que a beleza da natureza pode moldar personalidades distintas. Como se Deus e o diabo amassem uma única Baviera.
Utiliza então as palavras de Ratzinger, para quem o antídoto para a barbárie nazista seria a fé contrita e sincera dos alemães. A reportagem virou exemplo de boa carpintaria na Rede Globo. William, sabe-se, evitou recursos fáceis, como buscar imagens de arquivo de Hitler para ilustrar tamanho antagonismo confinado numa mesma região. E como nas nogueiras da Baviera, nada parece acontecer por acaso na vida do nosso piloto.
Ele executa seu trabalho sob a égide de métodos rígidos e não faz nada sem antes adquirir um largo conhecimento teórico sobre o assunto em pauta. "Quando chego a um país, a primeira coisa que faço é ler os bons escritores locais." Para pilotar, aprofundou-se em noções de física que ajudam na navegação aérea.
"Mas também tive muita sorte", diz o sujeito grandalhão que na juventude foi capitão da Seleção Brasileira de Handebol, esporte que hoje considera limitado. "É um jogo só tático, que consiste basicamente em criar um corta-luz para um sujeito, que corre a 30 quilômetros por hora, arremessar, com toda a violência, uma bola pequena e dura. Futebol e basquete são mais estratégicos."
William gosta de estratégias, de entender como se movem os tabuleiros das intrigas internacionais. E apesar de ter visto tantas guerras - cobriu in loco oito conflitos armados, seis no Oriente -, não se orgulha dos perigos do front, que no seu caso foram bem reais, como os sete dias em que ficou como refém da Guarda Republicana Iraquiana, na primeira Guerra do Golfo, em 1991, junto com o jornalista Hélio Campos Mello, quando trabalhavam na Agência Estado. Tudo porque queriam deixar de ser reféns das informações dos militares norte-americanos e conferir o rescaldo do conflito com os próprios olhos.
"Trabalhar como correspondente de guerra não é glamouroso. Quem se vangloria de ter ido para a guerra é um idiota. Aliás, boa parte dos profissionais que disseram ter ido para a guerra fizeram de conta que estiveram lá."
Nos oito conflitos que cobriu, desenvolveu uma espécie de código pessoal para selecionar seu companheiro de equipe nos campos de batalha. Avalia por intuição se quem vai acompanhá-lo tem sangue frio em situações desfavoráveis e reage rápido diante de adversidades. Ou seja, ele separa as pessoas sob o seguinte julgamento: com esse posso ir para a guerra, com esse não dá para ir.
"É cruel separar as pessoas assim, mas é um reflexo que se adquire e que em algumas situações pode significar até sobreviver ou não. Realmente não gosto de trabalhar com pessoas inseguras." Mas mesmo em época de paz, William se vê devotado aos mesmos critérios seletivos. Na hora em que um amigo querido é criticado, ele arremessa sua tese contra o detrator: "Só que com ele [o amigo] dá para ir para a guerra e com você não".
Na defesa dos amigos, William, que é chamado de "Alemão" na Globo, segundo ele equivocadamente, é passional e até emotivo. O sobrenome Waack provém de um bisavô cujo último destino antes do Brasil foi um porto do norte da Europa - portanto, não se sabe ao certo sua origem exata. "Na verdade sou a piada de paulistano", diz brincando com o hábito infantil de "ver avião subir e avião descer" em Congonhas, ironizado pelos cariocas como lazer de uma cidade desprovida de praia.
William ainda se ocupava de anotar compulsivamente os prefixos dos aviões flagrados. Na sua ascendência, consta ainda um bisavô quatrocentão, da linhagem Bueno de Almeida, que trocou a aristocracia pelo amor de uma imigrante italiana. O jornalista-aviador fala das origens, e flutua o pensamento para o futuro. Aos 55 anos, diz que "o avanço da idade não evitou que cometesse erros graves". "O amadurecimento não é sinônimo de mais tolerância, acomodação, e nem é capaz de evitar que se cometam grandes besteiras."
"Miséria intelectual"
Com 37 anos de profissão, reconhece que poderia ter ido mais longe, se fosse "mais disciplinado e mais aplicado", para, em seguida, também reconhecer que os prêmios - entre eles dois cobiçados Essos - vêm do trabalho e do gosto pelos desafios. "Sempre trabalhei pra cacete e gosto de situações novas, de enfrentá-las e dominá-las. Ainda tenho uma inquietação enorme e gosto de mudança, do momento da ruptura e do conflito."
William é um caso raro no jornalismo brasileiro, por várias razões. Mantém um tom politicamente incorreto, recusa-se a caminhar com a "manada" e expressa opiniões vigorosas. Os mandatários latino-americanos estão no centro de sua indignação atual. "Eles são uma farsa grotesca. Morales, Kirchner, Chávez são políticos atrasados, expressão da nossa profunda miséria intelectual, uma tragédia."
Sobre Lula, confessa uma certa angústia em não conseguir decifrá-lo, assim como tem dificuldade em entender o momento político brasileiro. "Vivemos um momento grave. A capacidade de acomodação está no caráter do brasileiro, assim como essa visão imediatista, a falta de um sonho. Não há indignação, situações de ruptura. Por que a mesa não vira de cabeça para baixo no Brasil? Como essas mazelas do governo passam sem conseqüências?"
Também se revolta com a péssima mania petista de rotular de "golpismo" qualquer tentativa de contestação ao governo. Um ultraje para um jornalista que sempre se esmerou em incendiar debates, sem se alinhar a grupos ou tribos ideológicas, embora tenha sido militante estudantil na juventude e a mãe, uma ativa militante da Ação Popular (AP), grupo de esquerda ligado à Igreja Católica.
Dois de seus quatro livros são especialmente polêmicos, mas sempre tendo como alicerce uma ampla pesquisa em arquivos antes inacessíveis. As Duas Faces da Glória (1985) fornece uma visão crítica da campanha brasileira na Segunda Guerra Mundial. Camaradas (1993) - segundo ele próprio, seu melhor trabalho - causou ainda mais rebuliço. Escrito com base nos arquivos da KGB em Moscou, William desmitifica o romântico heroísmo que cercou o levante comunista de 1935 no Brasil.
Segundo documentos, todo o movimento - até mesmo um de seus líderes, Luís Carlos Prestes - agia sob as ordens do Partido Comunista Soviético, num estado de obediência plena e servil. Prestes teria inclusive sido conivente com o assassinato de uma militante de 18 anos, envolvida numa suspeita traição. Curiosamente, foi Yuri Prestes, filho do "Cavaleiro da Esperança", quem auxiliou William na tradução dos arquivos. Em determinado momento da pesquisa, o jornalista voltou-se para Yuri e sentenciou: "Seu pai mentiu para você".
O livro provocou a ira de comunistas históricos, artigos indignados, mas ninguém foi até a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) conferir os arquivos então doados por William. Boa parte dessa disposição para a pesquisa e para o livre pensamento veio do filósofo, jornalista e escritor Oliveiros Ferreira, de quem ele é enteado. Com uma respeitada carreira acadêmica, paralela a uma atuação destacada na direção de O Estado de S. Paulo, Oliveiros - um intelectual independente e difícil de ser classificado ideologicamente - incutiu em William a idéia de que a convicção e a honestidade intelectual são patrimônios inoxidáveis e é sempre melhor não aceitar as verdades prontas ou as versões oficiais.
William não descuidou da formação intelectual, acima da média entre jornalistas. Formado em Jornalismo pela Universidade de São Paulo (USP), é mestre em Relações Internacionais, disciplina que leciona na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), já foi professor de Mídia Comparada na New York University e graduou-se em Ciências Políticas, Sociologia e Comunicação na Universidade de Mainz, Alemanha.
De Mainz, lembra-se de um certo zelador do enorme Ginásio de Esportes da Universidade, ex-mecânico dos temíveis caças Messerschmitt 109 alemães na frente russa. "Ele me contou que trocava o motor do avião à noite, sem enxergar quase nada, para não serem percebidos." Os aviões e William sempre voaram juntos. E mesmo quando se convertiam em armas mortíferas e ameaçadoras, ele continuava interessado neles.
Os olhos de Khomeini
Na cobertura da guerra de libertação da Eslovênia, um dos capítulos mais sangrentos da desintegração da ex-Iugoslávia, viu jatos iugoslavos acertarem em cheio caminhões. Viu ainda um piloto iraquiano solitário atacando Teerã, capital do Irã, e aviões israelenses bombardeando posições palestinas dentro de Beirute Ocidental em 1982, cidade pela qual tem enorme carinho - voltou a visitá-la recentemente e ficou feliz com sua tranqüila recuperação.
Sua maior façanha, antes de comandar o Cessna, foi pilotar um Mig-29, acompanhando um piloto russo numa base da Ucrânia, em manobras de simulação de combates. Fora dos aviões, tem histórias de arrepiar. Como quando fitou o aiatolá Ruhollah Khomeini, líder espiritual da Revolução do Irã, em 1979. "Eu o vi sentado, sem turbante, cercado de pessoas agitadas ao seu redor. Ele tinha um magnetismo no olhar, exercia um fascínio naquelas pessoas e parecia ter uma capacidade de antecipar os fatos históricos."
Diante de emoções tão fartas, é curioso saber o que William quer fazer no futuro, quem sabe quando estiver cansado de guerra: escrever novelas - segundo ele, o produto televisivo que melhor consegue traduzir hoje o País. "Elas estão muito mais à frente. Pegam o que está acontecendo, a violência doméstica, a droga, o alcoolismo, a amoralidade e a imoralidade, a deterioração do comportamento político. Eu tenho muita vontade de escrever novela para televisão."
Estranho imaginar William debruçado sobre aventuras comezinhas. Por enquanto, porém, seu anseio passa pelos céus. Quer passar a voar por instrumentos e à noite - próximo passo de seu aprendizado - e acertar os pousos com seu Cessninha. "Avião é perigoso, sim. Tem que tomar a decisão rápido. Ser explosivo e improvisar é o caminho para o desastre. Tem é que antecipar a situação e jogar o olho para o horizonte e nunca para a pista", ensina.
William gaba-se de ter feito pousos "lambidos" - no jargão dos pilotos, aquele que afaga a pista de tão suave - e de "ter matado dois cachorrinhos", ou seja, fazer as duas rodas tocarem juntas a pista, num exercício de precisão cujo barulho parece de dois ganidos. Como se vê, para o "Alemão", portanto, nem o céu é mais limite.
"É o vento, estúpido!"
O australiano Peter Weir fez alguns dos filmes mais legais dos anos 1980, como o quase esquecido Galípoli (1981), grande história de amizade e guerra, com um então ainda desconhecido Mel Gibson. E o ótimo policial A Testemunha (1985), que valeria só pela cena em que a amish vivida por Kelly McGillis dança com Harrison Ford ao som de Sam Cooke num celeiro, num dos momentos mais sensuais do cinema.
Isso sem contar o cultuado A Sociedade dos Poetas Mortos, de 1989. Nos anos 1990, Weir emplacou o sucesso O Show de Truman, e depois, em 2003, veio outro filmaço, Mestre dos Mares - O Lado Mais Distante do Mundo, não por acaso um dos filmes prediletos, senão o predileto, de William Waack. Ele gosta do filme porque toca sua alma de velejador.
E entende as sutilezas estratégicas que sopram na mente do astuto comandante do velho navio da Marinha inglesa H.M.S. Surprise, Jack Aubrey, também conhecido como Jack, o Sortudo, vivido com plácida virilidade por Russel Crowe.
O ano é 1805. As guerras napoleônicas estão em curso. Inglaterra e França brigam por novos mercados marítimos na costa brasileira, no tormentoso Cabo Horn e até nas Ilhas Galápagos, onde um médico e naturalista, amigão de Jack Sortudo, sente-se como um pinto no lixo.
Boa parte do filme - extraído do livro de Patrick O'Brian (1914-2000), escritor irlandês que tem uma série de volumes sobre a Marinha inglesa daquela época - é uma caça de gato e rato entre o H.M.S. Surprise e a bem equipada fragata francesa Acheron.
Caso perguntássemos ao velejador William por que Jack tira tantas vantagens de seu depauperado H.M.S. Surprise, ele certamente responderia, abandonando sua habitual delicadeza: "É o vento, estúpido!", referindo-se ao domínio que Jack tem dos movimentos do vento e como utiliza esse artifício a seu favor. O comandante sabe, como poucos, a hora de recuar, avançar ou refugiar-se na névoa, numa metáfora náutica de como a existência pode ser conduzida com sabedoria.



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