Revista > Edição 4 - Outubro/2007 > Brasil
A nova classe média
Eles vieram para ficar e gastar. A nova classe média brasileira é composta de milhões de trabalhadores que, com renda familiar em torno de R$ 1.300, ingressam sem medo no mercado e deixam o País menos desigual
Celso Fonseca e Nathalia Birkholz
Como naquela antiga canção de Chico Buarque, o amor de Alexsander de Souza Carvalho, 28 anos, e Fernanda, 24 anos, é muito bom, mas o horário é que nunca combina. Ele é funcionário, chefe da equipe de frentistas de um posto de gasolina, às voltas com inesperados plantões, e ela - que não é bailarina - trabalha como recepcionista num hospital. O casal tem um filho, Gustavo, de 1 ano. Alexsander também é pai de Gabriela, de 6 anos, de outro relacionamento.
Desencontros à parte - ultimamente são raras as vezes que a família consegue ficar junta -, o casal anda feliz da vida. Mora numa região valorizada em São Miguel Paulista - bairro da zona Leste paulistana que deixou para o passado o estigma de periferia -, numa rua cheia de casas bem bacanas, ainda que uma grande favela se avizinhe do lugar. Na garagem do sobrado cinza - herdado do pai -, há uma Paraty 99, comprada há dois anos. Alexsander ainda precisa quitar 15 prestações do carro. Dívida que não o impediu de comprar recentemente um celular para a mulher e se arrepender de "ter parcelado e gastado R$ 150 em juros, por besteira", já que prefere comprar tudo a vista. A renda mensal da família é de R$ 1.800, sem contar os R$ 300 de benefícios e caixinha que Alexsander recebe eventualmente. A casa é bem aparelhada: tem três TVs, DVD, geladeira, fogão. "Tudo que precisamos", como ele enfatiza.
A família de Alexsander é o retrato fiel de uma nova categoria de consumidores que compõem o que a revista britânica The Economist definiu como a nova e emergente classe média brasileira. Um contingente de trabalhadores, principalmente do setor de serviços, e alguns ainda confinados no mercado informal e sem carteira assinada, que têm moldado, em ritmo de Fórmula 1, uma nova e expressiva feição da população do País. A classe média no Brasil degusta as tentações do paraíso, nem que seja em intermináveis prestações.
São os beneficiários do crescimento e da estabilidade econômica, da inflação incipiente e de uma taxa de desemprego de 8,4% registrada no ano passado, a menor desde 1997. Uma conjuntura favorável que vem sendo monitorada à exaustão pelos institutos de pesquisa. O resultado mais surpreendente, anunciado pela imprensa sob a névoa da estupefação, foi divulgado no mês passado. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apontam que o rendimento médio do trabalhador no ano passado atingiu seu melhor resultado em 11 anos. Subiu relevantes 7,2% e saltou de R$ 824 para R$ 883, o que significa muito, principalmente para as fatias mais pobres das regiões Norte e Nordeste, novo endereço para investimentos e unidades de negócio no País. A desigualdade social está caindo, sim, "duela a quien duela".
A própria PNAD já havia disparado o alerta em 2004. As classes C, D e E representam 87% da população brasileira com renda mensal de até R$ 3.500 e são responsáveis por 71% do consumo, movimentando a enormidade de R$ 575 bilhões por ano. E mais: de 2002 para cá, segundo o Data Popular - instituto criado justamente para aferir o movimento de compras dessa parcela da população -, seu poder de compra ampliou-se em mais R$ 80 bilhões.
O fenômeno, porém, é mais visível na classe C - para onde têm migrado, com entusiasmo, os ex-remediados freqüentadores das classes D e E. No ano passado, uma pesquisa da empresa LatinPanel apontou que 2,15 milhões de famílias ascenderam na pirâmide de consumo e, portanto, carimbaram seus passaportes para a classe C, aquela cuja renda familiar oscila entre 5 e 10 salários mínimos (hoje de R$ 380).
Para Ney Luiz Silva, diretor executivo do Ibope Inteligência, a classe C representa 44% da população brasileira (quase 90 milhões de pessoas) e possui uma renda familiar em torno dos R$ 1.300. "É uma renda muito próxima da média brasileira. A classe C corresponde à média brasileira em quase todas as estatísticas - escolaridade, consumo..." É, na verdade, uma nova classe média baixa, só que com bem mais disposição, e condições de crédito, para gastar.
Revanche do proletariado
Segundo a The Economist, entre 2000 e 2005 o número de lares com renda anual entre US$ 5,9 mil e US$ 22 mil cresceu de 14,5 milhões para 22,3 milhões. Já os lares que recebem menos de US$ 3 mil por ano diminuíram para apenas 1,3 milhão.
O Brasil está menos pobre. Reduziu em 52% o número de pessoas que recebem até US$ 1 por dia. O dado consta da terceira edição do Relatório Nacional de Acompanhamento dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio - 2007, elaborado pelo governo federal e pela Organização das Nações Unidas (ONU) e divulgado nos últimos dias de agosto. Mas o que realmente redefine a população do País é essa nova classe média que, segundo o Goldman Sachs, banco de investimentos norte-americano, dobrará de tamanho até 2015. Previsão que sugere um acerto de contas tortuoso entre o mundo capitalista e os anseios igualitários do comunismo. E a vingança do proletariado está sendo feita nas gôndolas dos supermercados e nas lojas de eletrodomésticos, onde essa nova massa consumidora exibe suas armas: os cartões de crédito. Pasmem: 62% dos cartões de crédito disponíveis no País estão concentrados na base da pirâmide social. E esses consumidores querem comprar, primeiro, a casa própria e, depois, o grande fetiche: o computador e o conseqüente acesso à internet. Mais do que um capricho, trata-se de um ato de sabedoria do neoconsumidor: o sem-computador é quase o analfabeto do passado, e a inclusão digital é essencial para conseguir um emprego melhor.
O publicitário Renato Meirelles, especialista em conhecimento do consumidor e um dos criadores do instituto Data Popular, já estima que a classe C tenha adquirido mais computadores que as classes mais abastadas, A e B - 10 milhões contra 7 milhões. Uma reportagem publicada no Estadão em maio do ano passado constatou que a renda média das pessoas que acessam a internet no País é de R$ 1.772 mensais. Demonstrava ainda que a renda disponível para a classe C no final do mês é de R$ 122, dinheiro com o qual dá para sobreviver a prestações diversas. E viva o crédito fácil que começa a abundar no País! Para se ter uma idéia do que isso representa, a participação do crédito no Produto Interno Bruto (PIB) passou de 21% em 2002 para atuais 32%, de acordo com a mesma The Economist. Compram-se carros novos em distantes prestações de 80 meses, imóveis em mais de duas décadas... e os juros estão caindo.
Mas com todos esses indicadores à disposição, ainda existem confusões na hora de entender o que é exatamente essa nova classe média que brota principalmente nos grandes centros urbanos. O também publicitário Luiz Alberto Marinho, da BrandWorks, especialista em decifrar os desejos dos consumidores, explica: "A classe B e até a A - que tem renda familiar mensal de mais de R$ 7 mil - vêem-se não como elite, mas como classe média. Na visão delas, elite é quem tem dinheiro de sobra no final do mês e freqüenta o mercado de luxo".
Para Marinho, mesmo quem está no topo da pirâmide, mas não é exatamente um faraó, não tem folga no orçamento. "Os brasileiros são obrigados a pagar uma série de serviços historicamente precários, como saúde e educação, e daí depende do crédito para comprar." Além disso, há o efeito corrosivo do imposto sobre salários. "Só que estamos numa sociedade imediatista e hedonista. A classe média que emergiu busca o prazer no consumo. Como eles têm a certeza de que não vão ficar ricos - a única forma de enriquecimento seria a loteria -, eles gastam. Não se contentam com uma TV de 14 polegadas; precisa ser de 29. Afinal, você é o que você tem", atesta Marinho.
Essa ascensão da nova classe média - ainda que com padrões de consumo irrelevantes se comparados aos do Primeiro Mundo - incomoda quem hoje ainda tem mais. Segundo o publicitário, "É um soco na barriga da classe média alta, que fica infeliz, em vez de ficar feliz. A felicidade para eles não é ter muito, mas ter mais que os outros. Essa classe média emergente afeta a identidade da classe média alta e de certa forma explicita sua decadência".
Igualdade colorida
O professor universitário e então governador de São Paulo Cláudio Lembo disse, durante uma onda de ataques do Primeiro Comando da Capital (PCC) à cidade de São Paulo no ano passado, que o problema da violência no Estado só seria resolvido quando "a minoria branca" mudasse sua mentalidade. "Nós temos uma burguesia muito má, uma minoria branca muito perversa. A bolsa da burguesia vai ter que ser aberta para poder sustentar a miséria social brasileira no sentido de haver mais empregos, mais educação, mais solidariedade, mais diálogo e reciprocidade de situações". A frase é lapidar. Mas, sem licença poética, não há mais minoria branca no País.
Dados da mesma PNAD que revelou um salto na renda do trabalhador comprovam que, em 2006, o País se tornou, por força dos números, uma paritária democracia racial. Somos 49,5% de pretos e pardos e 49,7% de brancos. Mas voltemos a Cláudio Lembo. O senhor que governou São Paulo em um de seus momentos mais críticos trafega pelas ruas da cidade num modesto Ford K 2002, curiosamente um dos ícones motorizados dessa nova classe média. Ele não se cansa de exaltar a eficiência do carrinho com que se locomove com desenvoltura para dar aulas em três importantes faculdades de São Paulo. Em duas delas, a Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, no Largo São Francisco, e a Universidade Presbiteriana Mackenzie, sente florescer em seus bancos escolares as mais diferentes e coloridas etnias. "Estamos diante de uma realidade social inquestionável. A classe média está chegando à USP e às universidades particulares tradicionais, se bem que à custa de muito sacrifício." O professor tem uma visão histórica muito pertinente de um processo que, segundo ele, vem de longe, mas se vislumbra agora.
O ponto de partida da formação dessa nova sociedade foi o êxodo rural brasileiro - que se acentuou nos últimos 50 anos, a partir da construção de Brasília. "Foi um fenômeno muito duro e perverso, mas está se estabilizando. As pessoas, quando chegavam às grandes cidades, pareciam átomos perdidos. Perdiam todas as referências, as autoridades que conheciam, o padre, o juiz, o delegado e seus valores. A periferia de São Paulo que os acolheu era formada de regiões vulcânicas, de depressões sociais. Mas o quadro foi se estabilizando, em parte pela presença das igrejas - evangélicas e católicas", diz Lembo.
Para ele, a irreversível urbanização ficou mais nítida com a construção da Rodovia Rio-Bahia (1957) e com a vinda dos paus-de-arara para São Paulo, trazendo entre eles um menino de Guaranhuns (PE), que, todos sabem, virou presidente. "Lula não seria ninguém se ficasse em Pernambuco e não vivesse naquela agitação social de São Paulo." Não por acaso, a reportagem da The Economist, que ajuda a demarcar a conflagração dessa nova classe social, escolheu como cenário Montanhão, bairro de São Bernardo do Campo (SP), berço político de Lula. "É uma das regiões mais pobres de São Paulo, mas não é mais tão pobre como era há dez anos", assinala a revista. Em Montanhão, afirmam os britânicos da The Economist, encontra-se gente que emergiu de "uma hora para outra para a classe média, dezenas de milhões de pessoas...".
Cláudio Lembo, por sua vez, diz que isso nada mais é que o bom e velho "darwinismo social" em ação, uma onda inexorável que derruba hegemonias financeiras, recicla espaços no comércio e, fatalmente, provoca alegrias e depressões. Tem-se então uma sociedade "mais igual, depois de ser tão desigual". "Havia essa falsa aristocracia e um vazio. Um país sem assistência, de servos, vassalos e escravos. Hoje os filhos dos pedreiros que chegaram aqui para trabalhar com sua saúde notável estão nas boas universidades. Temos uma sociedade aberta e flexível. E se não fosse essa flexibilidade, o Brasil teria explodido."
Ainda que confira ao fenômeno seu real acento histórico, Lembo concorda em que o ajuste da inflação, de tempos mais recentes, contribuiu para cristalizar as igualdades. Mas frisa que a inflação só abandonou os patamares absurdos por pressão incisiva dos organismos financeiros internacionais. Ou seja, sugere que a inflação não caiu exatamente por vontade política dos governantes.
Um leão por dia
Foi justamente para entender esse fenômeno de consumo que o publicitário Renato Meirelles, o demógrafo e economista Haroldo da Gama Torres e a antropóloga Luciana Aguiar se uniram em 2002 em torno do Data Popular, primeiro e único instituto até agora a prospectar exclusivamente os desígnios do novo consumidor. Meirelles lembra que análises do banco Goldman Sachs demonstram que é nos países emergentes denominados BRIC - Brasil, Rússia, Índia e China - que essa promissora classe média se ergue com mais força. "Sabíamos que o futuro do mercado estava na base da pirâmide e existia uma demanda para olhar os valores desse consumidor. É preciso fazer um exercício de humildade para se colocar no lugar do outro, e os publicitários têm dificuldade de se comunicar com quem é diferente deles. Esse novo consumidor é conservador, é contra o aborto e favorável à pena de morte e tem uma referência muito diferente da das classes A e B. Essa classe média gosta do que é extravagante, farto - tudo o que os diretores dos comerciais chamam de brega." O papel do Data Popular é auxiliar as agências e empresas a entender o novo público, e Meirelles costuma dar conselhos esmagadores em direção à vaidade de alguns publicitários: "Quem está preocupado em ganhar Leão em Cannes (referência ao prêmio mais cobiçado da publicidade mundial) não entende a rotina de quem mata um leão por dia". Disposto a encurtar a distância "entre o mundo corporativo e o universo popular", o publicitário sabe como funciona a cabeça do novo cliente. "Ele é muito mais exigente, porque não pode errar na compra, não tem dinheiro para isso e é muito mais cruel para expressar sua insatisfação. O consumidor A e B é ótimo porque liga para o SAC [Serviço de Atendimento ao Consumidor] e reclama para a empresa, que tem um retorno do cliente. O consumidor popular, não. Chega na gôndola e faz a propaganda negativa, boca a boca, do produto que não gostou. É a classe C que faz a virada do jogo do consumo. Eles gostam do bom, bonito e barato."
Uma lição que a gigante do varejo Casas Bahia sabe bem aplicar. Ancorada em números impressionantes - são 550 lojas espalhadas em todo o País (90 apenas na capital de São Paulo) e um faturamento de R$ 11,5 bilhões no ano passado, com perspectivas de crescer 10% neste ano -, a história das Casas Bahia se mistura com a formação desse novo consumidor emergente, muitas vezes incapaz de comprovar a própria renda, mas que sempre foi muito bem aceito nos famosos crediários das lojas. Hoje a rede não é a única a investir nesse comércio popular, principalmente de eletrodomésticos e móveis - tem a concorrência bem-sucedida do Magazine Luiza, por exemplo, que aposta também nas vendas na internet. Pioneira no comércio popular, a Casas Bahia, ao contrário, estuda ainda com muita cautela a oferta de seus produtos on-line. "O movimento pela internet seria o mesmo que abrir mais três lojas físicas", diz Michael Klein, filho do patriarca Samuel Klein e diretor executivo das Casas Bahia, convicto da filosofia que fez o sucesso da empresa. "Há 50 anos não havia esse crédito para o consumidor; exigiam enormes garantias. Nós demos esse crédito. O público de baixa renda quer um produto de qualidade, ele sabe o que é bom, o que vai durar e a única via é o crediário. Hoje as escolas públicas têm computador e muitas crianças precisam dele para fazer a lição de casa. Está chegando o dia em que vamos ter mais computadores que televisores nas casas. Outro objeto de desejo é a TV de 29 polegadas."
Segundo Klein, as pessoas sabem que, se não conseguirem crédito em nenhum lugar, conseguirão lá - é 1 milhão de novos crediários por mês, com uma inadimplência que hoje beira os 10%. "Num bairro popular, chega um caminhão da Casas Bahia e aquilo passa como um sinal de respeito. A pessoa é vista com olhos melhores. Então entregamos em qualquer lugar - na favela, no morro..."
A estabilidade econômica e o fim da inflação de dois dígitos fizeram com que o que Klein chama de "a geração do real" adquirisse mais segurança em fazer prestações - os planos médios das Casas Bahia são de dez meses, em valores de R$ 65. "Eles sabem que as empresas em que trabalham não estão mais tão suscetíveis às alterações da economia e, por isso, o emprego deles corre menos riscos, mesmo com uma correção menor de salário. As pessoas estão trocando menos de emprego e optando pela estabilidade."
Não por acaso, os Klein têm investido nos próprios 55 mil funcionários, com treinamentos, planos de carreira e qualidade no trabalho. "Estamos ajudando-os a ser bons comerciantes, a ser bons executivos. Não é só pagar o salário. Temos de oferecer uma socialização."
Nos braços das oportunidades
Não falta realmente disposição a essa nova classe média para se manter com a vida confortável. "Depois que o Lula foi eleito, o negócio melhorou e hoje só não trabalha quem não quer", avisa nosso frentista Alexsander - lembra-se? -, personagem que descortina esta reportagem. Ele votou em Lula em 2002, mas, decepcionado com os escândalos, em 2006 votou em Enéas, só para não anular o voto. Sem pensar em políticos, acredita no próprio taco. "Comecei como frentista e hoje sou chefe de equipe. Estou a um passo da gerência. Ano que vem vou voltar a estudar. Quero fazer Administração de Empresas. Eu abraço todas as oportunidades que surgem, faço todos os concursos que aparecem."
Alexsander freqüenta a igreja evangélica com a mulher todos os domingos, mas adverte: "Sou bem moderno". Ele explica: "Tem igreja onde mulher não pode sentar perto de homem, não pode usar maquiagem. Não concordo". Alex não é de baladas; gosta de surfar, de comer açaí e raramente bebe cerveja. "Quando estou aqui à noite, no posto de gasolina, vejo a molecada sem noção, todo mundo bêbado fazendo besteiras na rua."
Flávio Sorbello, 33 anos, vendedor em uma concessionária de motos, não abre mão, pelo menos uma vez por semana, de tomar "uma" com os amigos. Ele também se insere no perfil dessa nova classe média. Mora com a mulher, Eliane, de 28 anos, que trabalha como diarista; com a filha, Isabela, de 4 anos; e com o pai, aposentado. A renda de toda a família, contando a aposentadoria de um salário mínimo do pai, oscila entre R$ 1.800 e R$ 2.300, dependendo dos ganhos de Eliane. Eles moram na casa do pai, um sobrado bem amplo, com duas suítes, no bairro paulistano de Santo Amaro. Há uma banheira de hidromassagem em um dos banheiros, mas falta o piso do andar de cima, que está só em concreto, e também alguns lustres. Apenas detalhes provisórios para quem comprou ultimamente uma TV de 29 polegadas, lava-louças, fogão, computador, DVD; trocou o carro, um Kadet, por um Marea; e ainda substituiu a sua moto. "Compro quase tudo parcelado, de um ano pra cá, porque estou com estabilidade no emprego." Seu próximo sonho é uma nova casa, quem sabe financiada pela Caixa Econômica Federal. Votou em Lula nas duas últimas eleições - "Pra mim a coisa melhorou" -, mas não votaria nele novamente. De conservador, só o jeito incisivo para fazer com que a mulher abandone decotes e saias muito curtas.
Com voz sempre em tom baixo, de elevada cordialidade, o segurança Antonio de Moura Moreira, o Toni, 32 anos, não sabe ao certo se sua renda chega aos R$ 1.500. A mulher, Fernanda Lisboa, de 22 anos, está grávida de um menino que vai ser irmão de Ana Paula, de 3 anos. "A partir deste ano, parece que ficou mais fácil comprar. Antes havia muita burocracia e não havia tanta facilidade. Morávamos em Iguape [litoral sul de São Paulo] e percebi que comprar em São Paulo é bem mais fácil. Há concorrência entre as lojas e o preço abaixa. Lá era uma loja só e o preço, bem mais caro." A família mora numa rua simples, em Barueri, município da Grande São Paulo. A casa, alugada, tem um quarto e uma cozinha espaçosa. Tudo muito arrumado. Na sala, sem sofá ou qualquer lugar para sentar, uma TV de 29 polegadas e um DVD. É lá que vai ficar o berço do caçula. Falta um fogão. E um microondas. "Mas não tínhamos nada quando casamos há cinco anos." Ele não votou em Lula, mas até se arrepende. "Com qualquer político vai ter escândalo", conforma-se. Ele também é evangélico e freqüenta a igreja. Trabalha praticamente todos os finais de semana, sai quase sempre com a mulher, mas não se importa se ela sair com as amigas. "Não sou de pegar no pé ou de ficar especulando." Diz que é feliz, mas tem um grande desejo: estudar Medicina.
André de Jesus Ribeiro, 26 anos, dá aula de História numa escola estadual de ensino fundamental no Embu, na Grande São Paulo. Como a maioria dos professores de ensino público, encaixa-se na nova escala social. Ganha R$ 1.000 e mora com os irmãos, Adriano, de 22 anos, auxiliar de produção numa indústria, salário de R$ 500, e Ricardo, de 18 anos, que conclui o colegial e procura emprego. Eles perderam os pais. André corrige provas enquanto os mais novos assistem à TV. Ele acaba de pagar as parcelas de uma TV de 29 polegadas, do celular que comprou para o irmão, da geladeira e de um teclado. A aspiração é igual à da maioria: uma casa. André, talvez por sua condição de professor, investe em cultura. Reserva, quando consegue, até R$ 100 para livros, DVDs, teatro e cinema. Quando terminar a faculdade de História, quer continuar estudando, até o mestrado. Já foi músico. Tocava teclado em bandas de pagode e forró e talvez por isso esteja enjoado das baladas. A nova classe média se firma com os dois pés fincados no chão. Quem chegou lá quer ir mais longe. Bom para o País, bom para o comércio, bom para a indústria. A geração C talvez comprove, de uma vez por todas, que o Brasil é mesmo o País do futuro.
Desencontros à parte - ultimamente são raras as vezes que a família consegue ficar junta -, o casal anda feliz da vida. Mora numa região valorizada em São Miguel Paulista - bairro da zona Leste paulistana que deixou para o passado o estigma de periferia -, numa rua cheia de casas bem bacanas, ainda que uma grande favela se avizinhe do lugar. Na garagem do sobrado cinza - herdado do pai -, há uma Paraty 99, comprada há dois anos. Alexsander ainda precisa quitar 15 prestações do carro. Dívida que não o impediu de comprar recentemente um celular para a mulher e se arrepender de "ter parcelado e gastado R$ 150 em juros, por besteira", já que prefere comprar tudo a vista. A renda mensal da família é de R$ 1.800, sem contar os R$ 300 de benefícios e caixinha que Alexsander recebe eventualmente. A casa é bem aparelhada: tem três TVs, DVD, geladeira, fogão. "Tudo que precisamos", como ele enfatiza.
A família de Alexsander é o retrato fiel de uma nova categoria de consumidores que compõem o que a revista britânica The Economist definiu como a nova e emergente classe média brasileira. Um contingente de trabalhadores, principalmente do setor de serviços, e alguns ainda confinados no mercado informal e sem carteira assinada, que têm moldado, em ritmo de Fórmula 1, uma nova e expressiva feição da população do País. A classe média no Brasil degusta as tentações do paraíso, nem que seja em intermináveis prestações.
São os beneficiários do crescimento e da estabilidade econômica, da inflação incipiente e de uma taxa de desemprego de 8,4% registrada no ano passado, a menor desde 1997. Uma conjuntura favorável que vem sendo monitorada à exaustão pelos institutos de pesquisa. O resultado mais surpreendente, anunciado pela imprensa sob a névoa da estupefação, foi divulgado no mês passado. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apontam que o rendimento médio do trabalhador no ano passado atingiu seu melhor resultado em 11 anos. Subiu relevantes 7,2% e saltou de R$ 824 para R$ 883, o que significa muito, principalmente para as fatias mais pobres das regiões Norte e Nordeste, novo endereço para investimentos e unidades de negócio no País. A desigualdade social está caindo, sim, "duela a quien duela".
A própria PNAD já havia disparado o alerta em 2004. As classes C, D e E representam 87% da população brasileira com renda mensal de até R$ 3.500 e são responsáveis por 71% do consumo, movimentando a enormidade de R$ 575 bilhões por ano. E mais: de 2002 para cá, segundo o Data Popular - instituto criado justamente para aferir o movimento de compras dessa parcela da população -, seu poder de compra ampliou-se em mais R$ 80 bilhões.
O fenômeno, porém, é mais visível na classe C - para onde têm migrado, com entusiasmo, os ex-remediados freqüentadores das classes D e E. No ano passado, uma pesquisa da empresa LatinPanel apontou que 2,15 milhões de famílias ascenderam na pirâmide de consumo e, portanto, carimbaram seus passaportes para a classe C, aquela cuja renda familiar oscila entre 5 e 10 salários mínimos (hoje de R$ 380).
Para Ney Luiz Silva, diretor executivo do Ibope Inteligência, a classe C representa 44% da população brasileira (quase 90 milhões de pessoas) e possui uma renda familiar em torno dos R$ 1.300. "É uma renda muito próxima da média brasileira. A classe C corresponde à média brasileira em quase todas as estatísticas - escolaridade, consumo..." É, na verdade, uma nova classe média baixa, só que com bem mais disposição, e condições de crédito, para gastar.
Revanche do proletariado
Segundo a The Economist, entre 2000 e 2005 o número de lares com renda anual entre US$ 5,9 mil e US$ 22 mil cresceu de 14,5 milhões para 22,3 milhões. Já os lares que recebem menos de US$ 3 mil por ano diminuíram para apenas 1,3 milhão.
O Brasil está menos pobre. Reduziu em 52% o número de pessoas que recebem até US$ 1 por dia. O dado consta da terceira edição do Relatório Nacional de Acompanhamento dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio - 2007, elaborado pelo governo federal e pela Organização das Nações Unidas (ONU) e divulgado nos últimos dias de agosto. Mas o que realmente redefine a população do País é essa nova classe média que, segundo o Goldman Sachs, banco de investimentos norte-americano, dobrará de tamanho até 2015. Previsão que sugere um acerto de contas tortuoso entre o mundo capitalista e os anseios igualitários do comunismo. E a vingança do proletariado está sendo feita nas gôndolas dos supermercados e nas lojas de eletrodomésticos, onde essa nova massa consumidora exibe suas armas: os cartões de crédito. Pasmem: 62% dos cartões de crédito disponíveis no País estão concentrados na base da pirâmide social. E esses consumidores querem comprar, primeiro, a casa própria e, depois, o grande fetiche: o computador e o conseqüente acesso à internet. Mais do que um capricho, trata-se de um ato de sabedoria do neoconsumidor: o sem-computador é quase o analfabeto do passado, e a inclusão digital é essencial para conseguir um emprego melhor.
O publicitário Renato Meirelles, especialista em conhecimento do consumidor e um dos criadores do instituto Data Popular, já estima que a classe C tenha adquirido mais computadores que as classes mais abastadas, A e B - 10 milhões contra 7 milhões. Uma reportagem publicada no Estadão em maio do ano passado constatou que a renda média das pessoas que acessam a internet no País é de R$ 1.772 mensais. Demonstrava ainda que a renda disponível para a classe C no final do mês é de R$ 122, dinheiro com o qual dá para sobreviver a prestações diversas. E viva o crédito fácil que começa a abundar no País! Para se ter uma idéia do que isso representa, a participação do crédito no Produto Interno Bruto (PIB) passou de 21% em 2002 para atuais 32%, de acordo com a mesma The Economist. Compram-se carros novos em distantes prestações de 80 meses, imóveis em mais de duas décadas... e os juros estão caindo.
Mas com todos esses indicadores à disposição, ainda existem confusões na hora de entender o que é exatamente essa nova classe média que brota principalmente nos grandes centros urbanos. O também publicitário Luiz Alberto Marinho, da BrandWorks, especialista em decifrar os desejos dos consumidores, explica: "A classe B e até a A - que tem renda familiar mensal de mais de R$ 7 mil - vêem-se não como elite, mas como classe média. Na visão delas, elite é quem tem dinheiro de sobra no final do mês e freqüenta o mercado de luxo".
Para Marinho, mesmo quem está no topo da pirâmide, mas não é exatamente um faraó, não tem folga no orçamento. "Os brasileiros são obrigados a pagar uma série de serviços historicamente precários, como saúde e educação, e daí depende do crédito para comprar." Além disso, há o efeito corrosivo do imposto sobre salários. "Só que estamos numa sociedade imediatista e hedonista. A classe média que emergiu busca o prazer no consumo. Como eles têm a certeza de que não vão ficar ricos - a única forma de enriquecimento seria a loteria -, eles gastam. Não se contentam com uma TV de 14 polegadas; precisa ser de 29. Afinal, você é o que você tem", atesta Marinho.
Essa ascensão da nova classe média - ainda que com padrões de consumo irrelevantes se comparados aos do Primeiro Mundo - incomoda quem hoje ainda tem mais. Segundo o publicitário, "É um soco na barriga da classe média alta, que fica infeliz, em vez de ficar feliz. A felicidade para eles não é ter muito, mas ter mais que os outros. Essa classe média emergente afeta a identidade da classe média alta e de certa forma explicita sua decadência".
Igualdade colorida
O professor universitário e então governador de São Paulo Cláudio Lembo disse, durante uma onda de ataques do Primeiro Comando da Capital (PCC) à cidade de São Paulo no ano passado, que o problema da violência no Estado só seria resolvido quando "a minoria branca" mudasse sua mentalidade. "Nós temos uma burguesia muito má, uma minoria branca muito perversa. A bolsa da burguesia vai ter que ser aberta para poder sustentar a miséria social brasileira no sentido de haver mais empregos, mais educação, mais solidariedade, mais diálogo e reciprocidade de situações". A frase é lapidar. Mas, sem licença poética, não há mais minoria branca no País.
Dados da mesma PNAD que revelou um salto na renda do trabalhador comprovam que, em 2006, o País se tornou, por força dos números, uma paritária democracia racial. Somos 49,5% de pretos e pardos e 49,7% de brancos. Mas voltemos a Cláudio Lembo. O senhor que governou São Paulo em um de seus momentos mais críticos trafega pelas ruas da cidade num modesto Ford K 2002, curiosamente um dos ícones motorizados dessa nova classe média. Ele não se cansa de exaltar a eficiência do carrinho com que se locomove com desenvoltura para dar aulas em três importantes faculdades de São Paulo. Em duas delas, a Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, no Largo São Francisco, e a Universidade Presbiteriana Mackenzie, sente florescer em seus bancos escolares as mais diferentes e coloridas etnias. "Estamos diante de uma realidade social inquestionável. A classe média está chegando à USP e às universidades particulares tradicionais, se bem que à custa de muito sacrifício." O professor tem uma visão histórica muito pertinente de um processo que, segundo ele, vem de longe, mas se vislumbra agora.
O ponto de partida da formação dessa nova sociedade foi o êxodo rural brasileiro - que se acentuou nos últimos 50 anos, a partir da construção de Brasília. "Foi um fenômeno muito duro e perverso, mas está se estabilizando. As pessoas, quando chegavam às grandes cidades, pareciam átomos perdidos. Perdiam todas as referências, as autoridades que conheciam, o padre, o juiz, o delegado e seus valores. A periferia de São Paulo que os acolheu era formada de regiões vulcânicas, de depressões sociais. Mas o quadro foi se estabilizando, em parte pela presença das igrejas - evangélicas e católicas", diz Lembo.
Para ele, a irreversível urbanização ficou mais nítida com a construção da Rodovia Rio-Bahia (1957) e com a vinda dos paus-de-arara para São Paulo, trazendo entre eles um menino de Guaranhuns (PE), que, todos sabem, virou presidente. "Lula não seria ninguém se ficasse em Pernambuco e não vivesse naquela agitação social de São Paulo." Não por acaso, a reportagem da The Economist, que ajuda a demarcar a conflagração dessa nova classe social, escolheu como cenário Montanhão, bairro de São Bernardo do Campo (SP), berço político de Lula. "É uma das regiões mais pobres de São Paulo, mas não é mais tão pobre como era há dez anos", assinala a revista. Em Montanhão, afirmam os britânicos da The Economist, encontra-se gente que emergiu de "uma hora para outra para a classe média, dezenas de milhões de pessoas...".
Cláudio Lembo, por sua vez, diz que isso nada mais é que o bom e velho "darwinismo social" em ação, uma onda inexorável que derruba hegemonias financeiras, recicla espaços no comércio e, fatalmente, provoca alegrias e depressões. Tem-se então uma sociedade "mais igual, depois de ser tão desigual". "Havia essa falsa aristocracia e um vazio. Um país sem assistência, de servos, vassalos e escravos. Hoje os filhos dos pedreiros que chegaram aqui para trabalhar com sua saúde notável estão nas boas universidades. Temos uma sociedade aberta e flexível. E se não fosse essa flexibilidade, o Brasil teria explodido."
Ainda que confira ao fenômeno seu real acento histórico, Lembo concorda em que o ajuste da inflação, de tempos mais recentes, contribuiu para cristalizar as igualdades. Mas frisa que a inflação só abandonou os patamares absurdos por pressão incisiva dos organismos financeiros internacionais. Ou seja, sugere que a inflação não caiu exatamente por vontade política dos governantes.
Um leão por dia
Foi justamente para entender esse fenômeno de consumo que o publicitário Renato Meirelles, o demógrafo e economista Haroldo da Gama Torres e a antropóloga Luciana Aguiar se uniram em 2002 em torno do Data Popular, primeiro e único instituto até agora a prospectar exclusivamente os desígnios do novo consumidor. Meirelles lembra que análises do banco Goldman Sachs demonstram que é nos países emergentes denominados BRIC - Brasil, Rússia, Índia e China - que essa promissora classe média se ergue com mais força. "Sabíamos que o futuro do mercado estava na base da pirâmide e existia uma demanda para olhar os valores desse consumidor. É preciso fazer um exercício de humildade para se colocar no lugar do outro, e os publicitários têm dificuldade de se comunicar com quem é diferente deles. Esse novo consumidor é conservador, é contra o aborto e favorável à pena de morte e tem uma referência muito diferente da das classes A e B. Essa classe média gosta do que é extravagante, farto - tudo o que os diretores dos comerciais chamam de brega." O papel do Data Popular é auxiliar as agências e empresas a entender o novo público, e Meirelles costuma dar conselhos esmagadores em direção à vaidade de alguns publicitários: "Quem está preocupado em ganhar Leão em Cannes (referência ao prêmio mais cobiçado da publicidade mundial) não entende a rotina de quem mata um leão por dia". Disposto a encurtar a distância "entre o mundo corporativo e o universo popular", o publicitário sabe como funciona a cabeça do novo cliente. "Ele é muito mais exigente, porque não pode errar na compra, não tem dinheiro para isso e é muito mais cruel para expressar sua insatisfação. O consumidor A e B é ótimo porque liga para o SAC [Serviço de Atendimento ao Consumidor] e reclama para a empresa, que tem um retorno do cliente. O consumidor popular, não. Chega na gôndola e faz a propaganda negativa, boca a boca, do produto que não gostou. É a classe C que faz a virada do jogo do consumo. Eles gostam do bom, bonito e barato."
Uma lição que a gigante do varejo Casas Bahia sabe bem aplicar. Ancorada em números impressionantes - são 550 lojas espalhadas em todo o País (90 apenas na capital de São Paulo) e um faturamento de R$ 11,5 bilhões no ano passado, com perspectivas de crescer 10% neste ano -, a história das Casas Bahia se mistura com a formação desse novo consumidor emergente, muitas vezes incapaz de comprovar a própria renda, mas que sempre foi muito bem aceito nos famosos crediários das lojas. Hoje a rede não é a única a investir nesse comércio popular, principalmente de eletrodomésticos e móveis - tem a concorrência bem-sucedida do Magazine Luiza, por exemplo, que aposta também nas vendas na internet. Pioneira no comércio popular, a Casas Bahia, ao contrário, estuda ainda com muita cautela a oferta de seus produtos on-line. "O movimento pela internet seria o mesmo que abrir mais três lojas físicas", diz Michael Klein, filho do patriarca Samuel Klein e diretor executivo das Casas Bahia, convicto da filosofia que fez o sucesso da empresa. "Há 50 anos não havia esse crédito para o consumidor; exigiam enormes garantias. Nós demos esse crédito. O público de baixa renda quer um produto de qualidade, ele sabe o que é bom, o que vai durar e a única via é o crediário. Hoje as escolas públicas têm computador e muitas crianças precisam dele para fazer a lição de casa. Está chegando o dia em que vamos ter mais computadores que televisores nas casas. Outro objeto de desejo é a TV de 29 polegadas."
Segundo Klein, as pessoas sabem que, se não conseguirem crédito em nenhum lugar, conseguirão lá - é 1 milhão de novos crediários por mês, com uma inadimplência que hoje beira os 10%. "Num bairro popular, chega um caminhão da Casas Bahia e aquilo passa como um sinal de respeito. A pessoa é vista com olhos melhores. Então entregamos em qualquer lugar - na favela, no morro..."
A estabilidade econômica e o fim da inflação de dois dígitos fizeram com que o que Klein chama de "a geração do real" adquirisse mais segurança em fazer prestações - os planos médios das Casas Bahia são de dez meses, em valores de R$ 65. "Eles sabem que as empresas em que trabalham não estão mais tão suscetíveis às alterações da economia e, por isso, o emprego deles corre menos riscos, mesmo com uma correção menor de salário. As pessoas estão trocando menos de emprego e optando pela estabilidade."
Não por acaso, os Klein têm investido nos próprios 55 mil funcionários, com treinamentos, planos de carreira e qualidade no trabalho. "Estamos ajudando-os a ser bons comerciantes, a ser bons executivos. Não é só pagar o salário. Temos de oferecer uma socialização."
Nos braços das oportunidades
Não falta realmente disposição a essa nova classe média para se manter com a vida confortável. "Depois que o Lula foi eleito, o negócio melhorou e hoje só não trabalha quem não quer", avisa nosso frentista Alexsander - lembra-se? -, personagem que descortina esta reportagem. Ele votou em Lula em 2002, mas, decepcionado com os escândalos, em 2006 votou em Enéas, só para não anular o voto. Sem pensar em políticos, acredita no próprio taco. "Comecei como frentista e hoje sou chefe de equipe. Estou a um passo da gerência. Ano que vem vou voltar a estudar. Quero fazer Administração de Empresas. Eu abraço todas as oportunidades que surgem, faço todos os concursos que aparecem."
Alexsander freqüenta a igreja evangélica com a mulher todos os domingos, mas adverte: "Sou bem moderno". Ele explica: "Tem igreja onde mulher não pode sentar perto de homem, não pode usar maquiagem. Não concordo". Alex não é de baladas; gosta de surfar, de comer açaí e raramente bebe cerveja. "Quando estou aqui à noite, no posto de gasolina, vejo a molecada sem noção, todo mundo bêbado fazendo besteiras na rua."
Flávio Sorbello, 33 anos, vendedor em uma concessionária de motos, não abre mão, pelo menos uma vez por semana, de tomar "uma" com os amigos. Ele também se insere no perfil dessa nova classe média. Mora com a mulher, Eliane, de 28 anos, que trabalha como diarista; com a filha, Isabela, de 4 anos; e com o pai, aposentado. A renda de toda a família, contando a aposentadoria de um salário mínimo do pai, oscila entre R$ 1.800 e R$ 2.300, dependendo dos ganhos de Eliane. Eles moram na casa do pai, um sobrado bem amplo, com duas suítes, no bairro paulistano de Santo Amaro. Há uma banheira de hidromassagem em um dos banheiros, mas falta o piso do andar de cima, que está só em concreto, e também alguns lustres. Apenas detalhes provisórios para quem comprou ultimamente uma TV de 29 polegadas, lava-louças, fogão, computador, DVD; trocou o carro, um Kadet, por um Marea; e ainda substituiu a sua moto. "Compro quase tudo parcelado, de um ano pra cá, porque estou com estabilidade no emprego." Seu próximo sonho é uma nova casa, quem sabe financiada pela Caixa Econômica Federal. Votou em Lula nas duas últimas eleições - "Pra mim a coisa melhorou" -, mas não votaria nele novamente. De conservador, só o jeito incisivo para fazer com que a mulher abandone decotes e saias muito curtas.
Com voz sempre em tom baixo, de elevada cordialidade, o segurança Antonio de Moura Moreira, o Toni, 32 anos, não sabe ao certo se sua renda chega aos R$ 1.500. A mulher, Fernanda Lisboa, de 22 anos, está grávida de um menino que vai ser irmão de Ana Paula, de 3 anos. "A partir deste ano, parece que ficou mais fácil comprar. Antes havia muita burocracia e não havia tanta facilidade. Morávamos em Iguape [litoral sul de São Paulo] e percebi que comprar em São Paulo é bem mais fácil. Há concorrência entre as lojas e o preço abaixa. Lá era uma loja só e o preço, bem mais caro." A família mora numa rua simples, em Barueri, município da Grande São Paulo. A casa, alugada, tem um quarto e uma cozinha espaçosa. Tudo muito arrumado. Na sala, sem sofá ou qualquer lugar para sentar, uma TV de 29 polegadas e um DVD. É lá que vai ficar o berço do caçula. Falta um fogão. E um microondas. "Mas não tínhamos nada quando casamos há cinco anos." Ele não votou em Lula, mas até se arrepende. "Com qualquer político vai ter escândalo", conforma-se. Ele também é evangélico e freqüenta a igreja. Trabalha praticamente todos os finais de semana, sai quase sempre com a mulher, mas não se importa se ela sair com as amigas. "Não sou de pegar no pé ou de ficar especulando." Diz que é feliz, mas tem um grande desejo: estudar Medicina.
André de Jesus Ribeiro, 26 anos, dá aula de História numa escola estadual de ensino fundamental no Embu, na Grande São Paulo. Como a maioria dos professores de ensino público, encaixa-se na nova escala social. Ganha R$ 1.000 e mora com os irmãos, Adriano, de 22 anos, auxiliar de produção numa indústria, salário de R$ 500, e Ricardo, de 18 anos, que conclui o colegial e procura emprego. Eles perderam os pais. André corrige provas enquanto os mais novos assistem à TV. Ele acaba de pagar as parcelas de uma TV de 29 polegadas, do celular que comprou para o irmão, da geladeira e de um teclado. A aspiração é igual à da maioria: uma casa. André, talvez por sua condição de professor, investe em cultura. Reserva, quando consegue, até R$ 100 para livros, DVDs, teatro e cinema. Quando terminar a faculdade de História, quer continuar estudando, até o mestrado. Já foi músico. Tocava teclado em bandas de pagode e forró e talvez por isso esteja enjoado das baladas. A nova classe média se firma com os dois pés fincados no chão. Quem chegou lá quer ir mais longe. Bom para o País, bom para o comércio, bom para a indústria. A geração C talvez comprove, de uma vez por todas, que o Brasil é mesmo o País do futuro.
Admirável mundo próspero: Flávio, a mulher, Eliane, e a filha Isabela: casa ampla, TV de 29 polegadas, lava-louças, computador, DVD, carro, banheira de hidromassagem, moto e carro nos trinques com renda mensal entre R$ 1.800 e R$ 2.300
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