Revista > Edição 4 - Outubro/2007 > Fotografia

O fotógrafo do presidente

O poder dos retratos: nas páginas seguintes, imagens de Ricardo Stuckert, o fotógrafo oficial da Presidência da República, único membro do staff que acompanhou Lula em todas as viagens internacionais

Ricardo Kotscho

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Num raro momento de descontração, depois do almoço e antes do primeiro compromisso da tarde, quem visse os dois brincando de tirar fotografias um do outro poderia pensar que ali estavam pai e filho numa reunião de família. Só que os dois estavam se fotografando no terceiro andar do Palácio do Planalto, no gabinete do presidente da República, atendendo a um pedido da reportagem de Brasileiros.

Nem dona Marisa é tão fiel. Onde quer que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva esteja, desde o primeiro dia de governo, em janeiro de 2003, no Brasil ou no exterior, sempre poderá ser visto por perto, feito um carrapato, o fotógrafo Ricardo Henrique Stuckert, um brasiliense de 37 anos, mais conhecido por Stuckinha. Ele é o único funcionário do governo que acompanhou Lula em todas as 105 viagens internacionais - o que quer dizer que já deu várias voltas ao mundo nestes últimos 57 meses.

Lula acha até engraçado quando lhe contamos o objetivo da nossa reportagem. "Quer dizer que agora o Stuckinha virou personalidade?", pergunta, fazendo troça do profissional que cativou a simpatia da família Silva durante a campanha presidencial de 2002, quando ainda trabalhava na revista IstoÉ. Como outros fotógrafos, ele queria mostrar a intimidade do candidato em sua casa com a família, um pedido que Lula costumava rejeitar liminarmente.

De tanto Stuckinha teimar comigo, que na época era assessor de imprensa da campanha, para fazer o tal ensaio fotográfico, a exemplo do que já havia produzido com outros candidatos, só para me ver livre dele propus que fizesse o pedido diretamente a Lula, na certeza de que ouviria um "não!" definitivo...

Para surpresa minha - até hoje não sei que diabos de argumentos ele usou -, o então candidato topou na hora e abriu as portas da sua vida doméstica para o insistente fotógrafo. Num domingo de manhã, Stuckinha passou horas no apartamento de São Bernardo do Campo e tirou fotos do candidato até com Michelle, sua cadela de estimação, no colo.

Os Silvas gostaram não só do resultado do trabalho publicado pela revista, mas principalmente do seu autor, um sujeito muito educado e discreto, que costuma trabalhar de terno até nos finais de semana. Por isso, quando Lula foi eleito pela primeira vez, a escolha dele para ser o fotógrafo oficial da Presidência da República talvez tenha sido a mais natural e tranqüila na montagem da equipe de governo.

Eu sabia que Stuckinha já havia sido convidado antes para ocupar esse cargo pelo antecessor de Lula, Fernando Henrique Cardoso, mas não aceitou, e achei difícil que mudasse de idéia. Pois ele não só topou na hora como mostrou muito entusiasmo de poder desempenhar esse papel no novo governo, mesmo sabendo que ganharia menos do que a metade do seu salário na revista.

"O que você quer que eu fale? Você quer que eu fale bem de um cara que você mesmo trouxe pra cá?", desconversa o presidente, já no nono mês de seu segundo mandato, ao perceber que Stuckinha está prestando atenção à conversa. Entrei na brincadeira e comecei perguntando se o fotógrafo mais ajudava ou atrapalhava, uma pergunta que fazia a mim mesmo quando ainda trabalhava com o presidente no governo.

"Claro que mais atrapalha... Agora mesmo, nessa viagem que fizemos para a Europa [eles tinham voltado dias antes de uma viagem pelos países nórdicos e Espanha], até briguei com o POC [embaixador Paulo de Oliveira Campos, chefe do cerimonial] por causa do Stuckinha. Tinha um dia de folga na Espanha e eu avisei o POC que só queria passear em Toledo, ver as igrejas, os palácios... Não queria ninguém perto de mim, nem o pessoal da segurança, nem cerimonial, nada. Quando vou ver, quem está lá na igreja, disparando uma foto atrás da outra, assustando os turistas? O Stuckinha... Sozinho, ele chamava mais a atenção do que um batalhão de seguranças."

Nem Stuckinha sabe quantas dezenas de milhares de fotos já operou com suas duas máquinas Canon e arquivou nos computadores do Palácio do Planalto. De qualquer lugar do Brasil ou do mundo, armado de laptop e celular, Stuckinha alimenta on-line com suas imagens o site www.imprensa.planalto.gov.br, criado em 2004, de onde são baixadas, em média, 50 mil fotos por mês.

A principal preocupação de Stuckinha na cobertura de eventos e viagens é facilitar o trabalho dos outros fotógrafos e evitar atritos com o pessoal da segurança, comuns no início do governo, quando ninguém estava habituado a ver um presidente que, a todo o momento, quebrava o protocolo para ficar mais perto das pessoas.

Um dia que ele nunca vai esquecer nessa sua atividade de fotógrafo oficial foi exatamente o primeiro dia de trabalho no Palácio do Planalto. Pela primeira vez ele saiu de trás do "chiqueirinho", como os colegas chamam a área cercada pela segurança para o trabalho dos fotógrafos. "Que bom que estou aqui...", festejou, ao ver que se encontrava do outro lado, podendo olhar o poder de dentro para fora. "Só aí eu comecei a entender melhor a instituição Presidência da República."

Realista, Stuckinha sabe que esse é um ofício passageiro e, por isso, procura se colocar sempre no lugar dos demais fotógrafos. "Eu sei que amanhã vou estar do outro lado da cerca de novo." Na sua família mesmo, ele tem um bom exemplo. Bisneto de Edward, um suíço-alemão de Lucerna, o primeiro da dinastia que desembarcou no Brasil (no Porto de Cabedelo, na Paraíba, onde se quedou primeiro), neto de Eduardo e filho de Roberto, todos fotógrafos, Stuckinha ocupa hoje o cargo que já foi do pai, no governo do general João Figueiredo. Entre mortos e vivos, são 33 fotógrafos na família Stuckert.

Nas mais belas fotografias que ele fez nesse período, Lula, curiosamente, não aparece. São imagens do Cristo Redentor e de um entardecer na Praça dos Três Poderes, feitas de helicóptero, a pedido do próprio Lula, que ornam as ante-salas do gabinete presidencial. Antes de Stuckinha, a tarefa do fotógrafo oficial era fazer o registro burocrático das atividades presidenciais para a posteridade. Com ele, profissional unanimemente reconhecido como um dos mais qualificados fotógrafos do País, a arte chegou ao poder.

Só depois que Stuckinha se afasta da mesa de Lula, ao se tocar que está deixando o presidente constrangido para falar dele na sua frente e, por isso mesmo, disposto a sacaneá-lo, como costuma fazer com seus auxiliares mais próximos, o presidente Lula resolve falar a sério e, como também costuma acontecer, emociona-se com as próprias palavras.

"O Stuckinha é daquelas pessoas que, do ponto de vista do caráter, do companheirismo, da lealdade e da sua competência profissional, Deus faz uma vez e joga a fórmula fora. Além de tudo, é um cara com dedicação exclusiva ao seu trabalho. Com ele não tem hora, não tem tempo ruim, não tem adversidade que o impeça de cumprir a sua tarefa. Se eu deixo, ele fica até sem comer. Eu que preciso pedir para ele descansar de vez em quando, ficar com a família..."

Nosso tempo no gabinete do presidente chega ao fim. Feitas as fotos, somos gentilmente convidados pelos assessores a cair fora, mas antes Lula ainda resume o que gostaria de dizer sobre o trabalho do fotógrafo: "Este é o exemplo vivo, a fotografia do exercício do meu mandato".