Revista > Edição 5 - Novembro/2007 > Amazônia
O navio da boiada
A nova saga amazônica: no Porto de Vila do Conde, próximo a Belém, o navio-gaiola Almawashi, de bandeira irlandesa, está sendo preparado para o embarque de 12 mil bois vivos que viajarão em pé até o Porto de Beirute, no Líbano
Ricardo Kotscho
No cais de Puerto Cabello, em Barquisimeto, cidade venezuelana de 1,5 milhão de habitantes, André Avelino da Costa Nunes Neto, que se apresenta como "velho comuna", já estava à sua espera e comemorou discretamente uma vitória pessoal. Foi ele quem, só com a cara e a coragem, viajou à Venezuela no começo do ano para abrir este novo mercado de exportação de gado vivo.
A seu lado estava o comprador, José Perera, herdeiro do Frigorífico Minco, o maior e mais antigo da Venezuela, que se cansou de pagar pedágio para as tropas das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) liberarem a passagem das carretas de gado que antes ele comprava naquele país. O pai de Perera, que tem o mesmo nome, estudou Medicina em São Paulo e lhe ensinou uma singela lição para justificar a compra de gado brasileiro: "O comércio depende do mercado e tudo depende de preço". Sai mais barato comprar boi em pé no Brasil.
A Venezuela já importa mais de 50 mil cabeças de boi vivo por mês, para a alegria dos pecuaristas paraenses, sempre insatisfeitos com o preço da carne no mercado interno - e, na época, para desespero dos freqüentadores dos restaurantes da moderna Estação das Docas, que não agüentavam mais o cheiro de curral que tomou conta do porto.
Walacy, André e Perera - quem leva, quem vende e quem compra o gado vivo - são três personagens de uma nova saga amazônica inaugurada há pouco mais de dois anos, quando o turco Husseim Sleiman, dono de navios-gaiola, começou a comprar boi em pé no Pará e transportar para o Líbano em viagens que chegavam a durar 20 dias.
No começo de outubro, a reportagem de Brasileiros acompanhou uma dessas operações, que começou na Fazenda K-9, em Castanhal, a uma hora de carro de Belém, fez uma escala no centro de confinamento da Fazenda Aroeira, em Santa Isabel, para "desestressar" o gado antes de subir no navio irlandês Almawashi, no Porto de Vila do Conde, e terminaria no Líbano, 12 dias depois.
Quem nos leva até Castanhal para falar com Lula, o vaqueiro que seleciona e pesa a boiada e viajará junto com ela no navio, é um paraense de velha cepa, o mais animado desbravador desse mercado do boi vivo de exportação. Nascido em Belém e criado em Altamira, André Nunes Neto, 67 anos, estudava Economia e trabalhava como agente de crédito corporativo no Banco da Amazônia quando foi apanhado pelo golpe militar de 1964. Perdeu a faculdade e o emprego e foi ganhar a vida como vendedor.
André era membro do Comitê Estadual do Partido Comunista Brasileiro no Pará, secretário de Agitação e Propaganda, o popular "agitprop", como se dizia na época. Mas para pagar as contas no final do mês, trabalhava como motorista e vendedor do caminhão de distribuição da Coca-Cola. O proprietário da fábrica era Ronald Guimarães Levinsohn, aquele mesmo que se tornaria famoso mais tarde como dono da Delfim, empresa que quase quebrou o sistema financeiro brasileiro.
Bom de serviço, André foi sendo promovido até se tornar gerente de marketing da Coca-Cola, uma área em que ganhou muito dinheiro quando resolveu trabalhar por conta própria. Conseguiu, por exemplo, a exclusividade para vender fichas telefônicas do sistema Telebrás, primeiro no Pará e mais tarde em vários outros estados, ganhando 20% de comissão.
Em 1970, inventou o Telecriança, um serviço que contava histórias infantis gravadas por atores da TV Marajoara, a pioneira no Pará. Chegou a gravar mais de 1,3 mil histórias. Com o dinheiro juntado, comprou os 30 hectares de terra onde fica a nascente do rio Uriboca, no bairro Pato Macho, nos arredores de Belém, em que vive e trabalha até hoje numa espaçosa casa rural construída em meio à mata preservada.
O boi só entraria na sua vida em 2003, quando foi contratado para cuidar do marketing da Mafripar, uma das empresas do tradicional Grupo João Bueno. Cuidou primeiro do esquema de distribuição do frigorífico em Belém, São Paulo e Salvador, mas logo começou a pensar numa forma de abrir novos mercados dentro e fora do País.
O Pará só podia vender carne com osso para o Nordeste, em razão da barreira sanitária imposta para o combate à febre aftosa pelo Ministério da Agricultura, mas já estava exportando boi em pé para o Líbano - apenas 5 a 6 mil cabeças por mês, em média. Seus olhos se voltaram então para a vizinha Venezuela, que enfrentava problemas para a importação de boi vivo da Colômbia.
Sem nenhum contato em Caracas, munido apenas da lista de "páginas amarelas", André foi se informar em restaurantes e supermercados sobre a origem da carne consumida e bateu às portas da Embaixada do Brasil para pedir ajuda. O adido comercial, um venezuelano que não conhecia Brasília, indicou-lhe o nome de um Sr. Napoleon, no Ministério da Agricultura, mas o desencorajou. Havia dois anos, disse-lhe o adido, o embaixador tentava em vão marcar uma reunião com a dita autoridade venezuelana.
Já temendo perder o emprego e o dinheiro gasto na viagem, André resolveu arriscar. Plantou-se no Ministério e avisou que não sairia de lá sem falar com Napoleon. Após uma hora e meia de conversa, foi encaminhado para a Corporación de Abastecimiento y Servicios Agrícolas (Casa), estatal responsável pelo abastecimento estratégico de todos os alimentos consumidos no país.
Depois de pelejar com a burocracia de três ministérios venezuelanos e obter autorização das autoridades brasileiras, em poucas semanas o marqueteiro bovino estava embarcando para Puerto Cabello a primeira remessa de animais vivos comprada pelo Frigorífico Minco, de José Perera.
Belém não demorou a descobrir o cheiro da novidade: filas enormes de carretas boiadeiras começaram a se formar na Avenida Visconde de Souza Franco, conhecida por Doca, reduto nobre que abriga bares e restaurantes e onde a elite costumava fazer seu cooper matinal.
Quando o primeiro navio-gaiola partiu, pastoreado pelo vaqueiro Lula, deixou um rastro de bosta que chamou a atenção do Ministério Público. O embarque das boiadas foi então transferido para o Porto de Vila do Conde, do outro lado da baía do Guajará, antes utilizado apenas pelas empresas exportadoras de alumínio e minérios.
O capixaba Walacy José Rodrigues, 45 anos, tinha 19 quando veio para o Pará. Desde pequeno é chamado de Lula, mas o pai, José, que foi tropeiro e fiscal da Receita Estadual do Espírito Santo, morto em setembro passado, nunca lhe explicou o motivo do apelido. "Não tem nada a ver com o Lula presidente. Meu pai nem gostava muito da política dele."
Ao desembarcar em Castanhal, Lula foi trabalhar com um tio, o fazendeiro Enoir Félix Eringer, que tinha 500 cabeças de gado e fabricava gaiolas boiadeiras para o transporte de animais. Veio assim meio ressabiado, sem a menor idéia do que iria encontrar. "A gente vem para cá e pensa que vai encontrar um monte de índio e só vê zebu...", lembra, dando risada.
Lula largou a escola no segundo ano do segundo grau, mas depois fez vários cursos técnicos na sua área (inseminação artificial, tipificação de carcaça, qualificação genética, classificador de boi de corte), que o levaram a ser escolhido como o vaqueiro de navio preferido dos frigoríficos.
Mas agora ele tem planos de se estabelecer em terra firme. O primeiro passo é vender a fazenda de 35 alqueires com 300 cabeças de gado que herdou do pai na beira do asfalto da Belém-Brasília e comprar uma área maior em região mais afastada. "Com o dinheiro da venda da fazenda dá para comprar o dobro de terra e o dobro de boi", calcula, com o raciocínio típico dos pecuaristas que avançam pela floresta para abrir novos pastos gastando menos do que é necessário para recuperar os antigos.
Pai solteiro de seis filhos de quatro mulheres (precisa calcular nos dedos para acertar as contas), com idades entre 6 e 21 anos, tem orgulho do mais velho, que é músico e professor universitário. Todos vivem perto dele, no bairro Nova Olinda, em Castanhal, mas Lula pouco pára na casa onde mora com a mãe. Seu trabalho é viajar de carro ou de avião para avaliar e pesar nas fazendas o gado comprado por telefone pela empresa onde trabalha atualmente, a Kaiapós Fabril Exportadora, dona de frigoríficos e navios.
Montado sobre os palanques do curral da Fazenda K-9, ele comanda o trabalho dos peões que trazem logo cedo o gado dos pastos para o curral onde é feita a pesagem. "O que eu fizer aqui não tem como o dono desfazer lá. Quem determina o preço de cada cabeça sou eu", explica Lula, capaz de calcular pelo olho o peso de um animal. Registrado na carteira de trabalho como "comprador classificador", ganha R$ 3 mil por mês, mais diárias de viagem, padrão de classe média alta em Castanhal.
Chega a hora de tocar o gado para cima da carreta puxada por um Scania 113H com 23 metros de comprimento e capacidade para transportar 40 bois de 600 quilos em média. O trabalho de apartar os bois não é nada fácil em razão de uma exigência dos importadores libaneses. Como eles não aceitam animais castrados, só viajam bois inteiros, os touros, que ficam muito excitados antes da viagem e acabam trepando uns nos outros.
"Esse aí é o melhor vaqueiro do mundo", comenta um dos peões ao vê-lo tocar o gado para cima do caminhão como um verdadeiro maestro de boiada. Lula ainda vai passar por outras fazendas para juntar as 12 mil cabeças que serão embarcadas para a viagem ao Líbano dois dias depois. Antes, porém, ele sobe sozinho no navio para fazer uma vistoria completa dos alojamentos bovinos. Verifica a qualidade da água e o estoque de feno e ração preparado para a viagem.
A rotina do navio começa para ele às cinco da manhã, quando é acordado pelo ajudante do período noturno. "Sabarer" [Saba-hel kheir], o bom-dia deles, é uma das poucas palavras que aprendeu nas viagens. O café da manhã é reforçado: pão árabe, pasta de grão-de-bico (homus) e queijo branco, azeitonas, coalhada, tudo com fartura.
Sua primeira tarefa é pegar os medicamentos e o laço para vistoriar o gado distribuído em baias nos 14 deques do navio. "A gente tem um bom relacionamento com os árabes. Eles são gente simples, muito bons de lidar", conta o vaqueiro. "Como só tem homem no navio, falam em mulher o tempo todo..."
Quando termina de percorrer o navio, já está na hora do almoço e ele não tem queixas da comida. "Até quibe cru já aprendi a comer." Só sente falta de uma cervejinha porque bebida alcoólica é expressamente proibida no navio. À tarde, depois de duas horas de descanso, repete a mesma operação da manhã. "Não dá muito problema de saúde no navio. O problema é mais psicológico, sabe, até os bois se acostumarem com a viagem em alto-mar."
E quando morre um animal no navio, o que acontece? Os bois são sangrados e lançados ao mar, menos no estreito de Gibraltar, onde essa prática é proibida. Nesse caso, os animais mortos seguem no navio até Beirute. Numa viagem ao Líbano, a perda pode chegar a 2% dos animais embarcados. Para a Venezuela, viagem que dura de três a quatro dias, não há registro de óbitos.
O que dá mais trabalho é reagrupar os animais nas baias, pois os maiores tomam conta dos coxos e não deixam os menores chegarem perto. É o trabalho que ele chama de "padronização da boiada". Para se entenderem, os tripulantes árabes e os vaqueiros brasileiros falam uma língua própria que lembra vagamente o inglês, "more or less".
O jantar é servido pontualmente às seis da tarde e, em seguida, todos vão para o salão de vídeo, onde passam todo dia os mesmos filmes, com as mesmas moças executando a dança do ventre, sem nada de sexo explícito. Lula prefere ir para o camarote que divide com um ajudante e seu aparelho de som, em que só toca música brega ou sertaneja. Nessas horas bate a saudade, mas ele nem sabe direito de quem. "Não sei o que é... Não sei se não acho a mulher certa ou se eu que estou errado, mas agora mesmo estou sem nenhuma..." Às nove da noite é hora de dormir no navio boiadeiro.
Numa das viagens à Venezuela, Lula até já arrumou uma namorada por lá, mas não é fácil. O maior drama do vaqueiro galante é o cheiro de boi, que fica impregnado no corpo após as viagens (as roupas, por imprestáveis, são simplesmente jogadas fora). Leva pelo menos uma semana para o fedor sair do corpo depois de voltar para casa. No navio, para suportarem o cheiro de amônia exalado pela urina do gado, todos trabalham com máscaras.
Na viagem de volta, quando foi a primeira vez ao Líbano, no ano passado, as duas moças que se sentaram ao lado de Lula no avião viravam a cara cada vez que ele olhava para elas. "A gente acostuma com o cheiro, até esquece, mas os outros não... Só quando cheguei em casa é que me falaram como eu estava fedendo..."
Descendente de libaneses, Eduardo Salles, 52 anos, o dono do gado que Lula está levando da Fazenda K-9 para Beirute, não conhece a terra dos seus antepassados, mas é muito grato a eles neste momento. "Esta exportação para o Líbano foi a salvação da lavoura para nós", comemora o pecuarista, que consegue lá fora um preço 20% maior nas exportações do que aqui dentro.
O avô paterno tinha o sobrenome Salleh, mas virou Salles quando veio para o Brasil, instalando-se em Itacoatiara, no Amazonas, há 80 anos. Eduardo nasceu no Acre, cria gado há 30 anos e hoje é dono de outras seis fazendas com mais de 3 mil cabeças de gado zebu. Como seus colegas donos de terra e gado, ele diz que estava quebrando por causa dos preços baixos no mercado interno. "Só agora, com a exportação, começou a animar de novo, é o que salva a gente."
A carreta carregada de bois levanta poeira ao deixar a K-9 em direção à Belém-Brasília para pegar o rumo de Santa Isabel, onde é recebida por Márcio Santos Reis, 29 anos, gerente da Fazenda Aroeira, uma central de confinamento que fica a meio caminho do Porto de Vila do Conde. Com uma área total construída de 22 mil metros quadrados, em apenas 60 dias foram erguidos ali três galpões, com capacidade para abrigar 3,5 mil cabeças cada um.
Dia e noite, caminhões carregados de gado entram e saem da fazenda de 200 hectares criada há dois anos e meio para preparar as boiadas antes do embarque no navio. Como a maioria desses animais é criada solta no pasto, é preciso habituá-los ao ambiente de confinamento no navio. Ao mesmo tempo, como sempre perdem peso nas longas viagens pelas estradas do Pará e do Maranhão até chegar à Aroeira, os bois recebem uma alimentação reforçada de feno e ração - a mesma que terão no navio, cerca de 18 quilos por dia.
Formado em Pedagogia, Administração e Língua Portuguesa, o "xerife" Márcio, que vive na fazenda, é de pouca conversa. "Aqui não tem história, só tem trabalho", justifica, enquanto controla a entrada e saída dos caminhões que fazem a conexão dos pastos amazônicos com os navios em que Lula leva o boi em pé para o Líbano, aonde chegará daqui a duas semanas. Na volta de Beirute, como ninguém é de ferro, fará uma conexão em Paris, antes de seguir novamente para os pastos da vida.
PROSTITUTAS DELIVERY
No Porto de Vila do Conde, pequena comunidade do município de Barcarena, que sobrevive da pesca artesanal, barqueiros cobram 20 dólares por garota levada para os tripulantes nos navios. Os moradores reclamam do mau cheiro provocado durante o embarque dos animais nos navios-gaiola, que espanta os fregueses dos restaurantes da praia. O recente vazamento de toneladas de caulim nos igarapés e rios da vila está provocando a morte de peixes na região.
A seu lado estava o comprador, José Perera, herdeiro do Frigorífico Minco, o maior e mais antigo da Venezuela, que se cansou de pagar pedágio para as tropas das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) liberarem a passagem das carretas de gado que antes ele comprava naquele país. O pai de Perera, que tem o mesmo nome, estudou Medicina em São Paulo e lhe ensinou uma singela lição para justificar a compra de gado brasileiro: "O comércio depende do mercado e tudo depende de preço". Sai mais barato comprar boi em pé no Brasil.
A Venezuela já importa mais de 50 mil cabeças de boi vivo por mês, para a alegria dos pecuaristas paraenses, sempre insatisfeitos com o preço da carne no mercado interno - e, na época, para desespero dos freqüentadores dos restaurantes da moderna Estação das Docas, que não agüentavam mais o cheiro de curral que tomou conta do porto.
Walacy, André e Perera - quem leva, quem vende e quem compra o gado vivo - são três personagens de uma nova saga amazônica inaugurada há pouco mais de dois anos, quando o turco Husseim Sleiman, dono de navios-gaiola, começou a comprar boi em pé no Pará e transportar para o Líbano em viagens que chegavam a durar 20 dias.
No começo de outubro, a reportagem de Brasileiros acompanhou uma dessas operações, que começou na Fazenda K-9, em Castanhal, a uma hora de carro de Belém, fez uma escala no centro de confinamento da Fazenda Aroeira, em Santa Isabel, para "desestressar" o gado antes de subir no navio irlandês Almawashi, no Porto de Vila do Conde, e terminaria no Líbano, 12 dias depois.
Quem nos leva até Castanhal para falar com Lula, o vaqueiro que seleciona e pesa a boiada e viajará junto com ela no navio, é um paraense de velha cepa, o mais animado desbravador desse mercado do boi vivo de exportação. Nascido em Belém e criado em Altamira, André Nunes Neto, 67 anos, estudava Economia e trabalhava como agente de crédito corporativo no Banco da Amazônia quando foi apanhado pelo golpe militar de 1964. Perdeu a faculdade e o emprego e foi ganhar a vida como vendedor.
André era membro do Comitê Estadual do Partido Comunista Brasileiro no Pará, secretário de Agitação e Propaganda, o popular "agitprop", como se dizia na época. Mas para pagar as contas no final do mês, trabalhava como motorista e vendedor do caminhão de distribuição da Coca-Cola. O proprietário da fábrica era Ronald Guimarães Levinsohn, aquele mesmo que se tornaria famoso mais tarde como dono da Delfim, empresa que quase quebrou o sistema financeiro brasileiro.
Bom de serviço, André foi sendo promovido até se tornar gerente de marketing da Coca-Cola, uma área em que ganhou muito dinheiro quando resolveu trabalhar por conta própria. Conseguiu, por exemplo, a exclusividade para vender fichas telefônicas do sistema Telebrás, primeiro no Pará e mais tarde em vários outros estados, ganhando 20% de comissão.
Em 1970, inventou o Telecriança, um serviço que contava histórias infantis gravadas por atores da TV Marajoara, a pioneira no Pará. Chegou a gravar mais de 1,3 mil histórias. Com o dinheiro juntado, comprou os 30 hectares de terra onde fica a nascente do rio Uriboca, no bairro Pato Macho, nos arredores de Belém, em que vive e trabalha até hoje numa espaçosa casa rural construída em meio à mata preservada.
O boi só entraria na sua vida em 2003, quando foi contratado para cuidar do marketing da Mafripar, uma das empresas do tradicional Grupo João Bueno. Cuidou primeiro do esquema de distribuição do frigorífico em Belém, São Paulo e Salvador, mas logo começou a pensar numa forma de abrir novos mercados dentro e fora do País.
O Pará só podia vender carne com osso para o Nordeste, em razão da barreira sanitária imposta para o combate à febre aftosa pelo Ministério da Agricultura, mas já estava exportando boi em pé para o Líbano - apenas 5 a 6 mil cabeças por mês, em média. Seus olhos se voltaram então para a vizinha Venezuela, que enfrentava problemas para a importação de boi vivo da Colômbia.
Sem nenhum contato em Caracas, munido apenas da lista de "páginas amarelas", André foi se informar em restaurantes e supermercados sobre a origem da carne consumida e bateu às portas da Embaixada do Brasil para pedir ajuda. O adido comercial, um venezuelano que não conhecia Brasília, indicou-lhe o nome de um Sr. Napoleon, no Ministério da Agricultura, mas o desencorajou. Havia dois anos, disse-lhe o adido, o embaixador tentava em vão marcar uma reunião com a dita autoridade venezuelana.
Já temendo perder o emprego e o dinheiro gasto na viagem, André resolveu arriscar. Plantou-se no Ministério e avisou que não sairia de lá sem falar com Napoleon. Após uma hora e meia de conversa, foi encaminhado para a Corporación de Abastecimiento y Servicios Agrícolas (Casa), estatal responsável pelo abastecimento estratégico de todos os alimentos consumidos no país.
Depois de pelejar com a burocracia de três ministérios venezuelanos e obter autorização das autoridades brasileiras, em poucas semanas o marqueteiro bovino estava embarcando para Puerto Cabello a primeira remessa de animais vivos comprada pelo Frigorífico Minco, de José Perera.
Belém não demorou a descobrir o cheiro da novidade: filas enormes de carretas boiadeiras começaram a se formar na Avenida Visconde de Souza Franco, conhecida por Doca, reduto nobre que abriga bares e restaurantes e onde a elite costumava fazer seu cooper matinal.
Quando o primeiro navio-gaiola partiu, pastoreado pelo vaqueiro Lula, deixou um rastro de bosta que chamou a atenção do Ministério Público. O embarque das boiadas foi então transferido para o Porto de Vila do Conde, do outro lado da baía do Guajará, antes utilizado apenas pelas empresas exportadoras de alumínio e minérios.
O capixaba Walacy José Rodrigues, 45 anos, tinha 19 quando veio para o Pará. Desde pequeno é chamado de Lula, mas o pai, José, que foi tropeiro e fiscal da Receita Estadual do Espírito Santo, morto em setembro passado, nunca lhe explicou o motivo do apelido. "Não tem nada a ver com o Lula presidente. Meu pai nem gostava muito da política dele."
Ao desembarcar em Castanhal, Lula foi trabalhar com um tio, o fazendeiro Enoir Félix Eringer, que tinha 500 cabeças de gado e fabricava gaiolas boiadeiras para o transporte de animais. Veio assim meio ressabiado, sem a menor idéia do que iria encontrar. "A gente vem para cá e pensa que vai encontrar um monte de índio e só vê zebu...", lembra, dando risada.
Lula largou a escola no segundo ano do segundo grau, mas depois fez vários cursos técnicos na sua área (inseminação artificial, tipificação de carcaça, qualificação genética, classificador de boi de corte), que o levaram a ser escolhido como o vaqueiro de navio preferido dos frigoríficos.
Mas agora ele tem planos de se estabelecer em terra firme. O primeiro passo é vender a fazenda de 35 alqueires com 300 cabeças de gado que herdou do pai na beira do asfalto da Belém-Brasília e comprar uma área maior em região mais afastada. "Com o dinheiro da venda da fazenda dá para comprar o dobro de terra e o dobro de boi", calcula, com o raciocínio típico dos pecuaristas que avançam pela floresta para abrir novos pastos gastando menos do que é necessário para recuperar os antigos.
Pai solteiro de seis filhos de quatro mulheres (precisa calcular nos dedos para acertar as contas), com idades entre 6 e 21 anos, tem orgulho do mais velho, que é músico e professor universitário. Todos vivem perto dele, no bairro Nova Olinda, em Castanhal, mas Lula pouco pára na casa onde mora com a mãe. Seu trabalho é viajar de carro ou de avião para avaliar e pesar nas fazendas o gado comprado por telefone pela empresa onde trabalha atualmente, a Kaiapós Fabril Exportadora, dona de frigoríficos e navios.
Montado sobre os palanques do curral da Fazenda K-9, ele comanda o trabalho dos peões que trazem logo cedo o gado dos pastos para o curral onde é feita a pesagem. "O que eu fizer aqui não tem como o dono desfazer lá. Quem determina o preço de cada cabeça sou eu", explica Lula, capaz de calcular pelo olho o peso de um animal. Registrado na carteira de trabalho como "comprador classificador", ganha R$ 3 mil por mês, mais diárias de viagem, padrão de classe média alta em Castanhal.
Chega a hora de tocar o gado para cima da carreta puxada por um Scania 113H com 23 metros de comprimento e capacidade para transportar 40 bois de 600 quilos em média. O trabalho de apartar os bois não é nada fácil em razão de uma exigência dos importadores libaneses. Como eles não aceitam animais castrados, só viajam bois inteiros, os touros, que ficam muito excitados antes da viagem e acabam trepando uns nos outros.
"Esse aí é o melhor vaqueiro do mundo", comenta um dos peões ao vê-lo tocar o gado para cima do caminhão como um verdadeiro maestro de boiada. Lula ainda vai passar por outras fazendas para juntar as 12 mil cabeças que serão embarcadas para a viagem ao Líbano dois dias depois. Antes, porém, ele sobe sozinho no navio para fazer uma vistoria completa dos alojamentos bovinos. Verifica a qualidade da água e o estoque de feno e ração preparado para a viagem.
A rotina do navio começa para ele às cinco da manhã, quando é acordado pelo ajudante do período noturno. "Sabarer" [Saba-hel kheir], o bom-dia deles, é uma das poucas palavras que aprendeu nas viagens. O café da manhã é reforçado: pão árabe, pasta de grão-de-bico (homus) e queijo branco, azeitonas, coalhada, tudo com fartura.
Sua primeira tarefa é pegar os medicamentos e o laço para vistoriar o gado distribuído em baias nos 14 deques do navio. "A gente tem um bom relacionamento com os árabes. Eles são gente simples, muito bons de lidar", conta o vaqueiro. "Como só tem homem no navio, falam em mulher o tempo todo..."
Quando termina de percorrer o navio, já está na hora do almoço e ele não tem queixas da comida. "Até quibe cru já aprendi a comer." Só sente falta de uma cervejinha porque bebida alcoólica é expressamente proibida no navio. À tarde, depois de duas horas de descanso, repete a mesma operação da manhã. "Não dá muito problema de saúde no navio. O problema é mais psicológico, sabe, até os bois se acostumarem com a viagem em alto-mar."
E quando morre um animal no navio, o que acontece? Os bois são sangrados e lançados ao mar, menos no estreito de Gibraltar, onde essa prática é proibida. Nesse caso, os animais mortos seguem no navio até Beirute. Numa viagem ao Líbano, a perda pode chegar a 2% dos animais embarcados. Para a Venezuela, viagem que dura de três a quatro dias, não há registro de óbitos.
O que dá mais trabalho é reagrupar os animais nas baias, pois os maiores tomam conta dos coxos e não deixam os menores chegarem perto. É o trabalho que ele chama de "padronização da boiada". Para se entenderem, os tripulantes árabes e os vaqueiros brasileiros falam uma língua própria que lembra vagamente o inglês, "more or less".
O jantar é servido pontualmente às seis da tarde e, em seguida, todos vão para o salão de vídeo, onde passam todo dia os mesmos filmes, com as mesmas moças executando a dança do ventre, sem nada de sexo explícito. Lula prefere ir para o camarote que divide com um ajudante e seu aparelho de som, em que só toca música brega ou sertaneja. Nessas horas bate a saudade, mas ele nem sabe direito de quem. "Não sei o que é... Não sei se não acho a mulher certa ou se eu que estou errado, mas agora mesmo estou sem nenhuma..." Às nove da noite é hora de dormir no navio boiadeiro.
Numa das viagens à Venezuela, Lula até já arrumou uma namorada por lá, mas não é fácil. O maior drama do vaqueiro galante é o cheiro de boi, que fica impregnado no corpo após as viagens (as roupas, por imprestáveis, são simplesmente jogadas fora). Leva pelo menos uma semana para o fedor sair do corpo depois de voltar para casa. No navio, para suportarem o cheiro de amônia exalado pela urina do gado, todos trabalham com máscaras.
Na viagem de volta, quando foi a primeira vez ao Líbano, no ano passado, as duas moças que se sentaram ao lado de Lula no avião viravam a cara cada vez que ele olhava para elas. "A gente acostuma com o cheiro, até esquece, mas os outros não... Só quando cheguei em casa é que me falaram como eu estava fedendo..."
Descendente de libaneses, Eduardo Salles, 52 anos, o dono do gado que Lula está levando da Fazenda K-9 para Beirute, não conhece a terra dos seus antepassados, mas é muito grato a eles neste momento. "Esta exportação para o Líbano foi a salvação da lavoura para nós", comemora o pecuarista, que consegue lá fora um preço 20% maior nas exportações do que aqui dentro.
O avô paterno tinha o sobrenome Salleh, mas virou Salles quando veio para o Brasil, instalando-se em Itacoatiara, no Amazonas, há 80 anos. Eduardo nasceu no Acre, cria gado há 30 anos e hoje é dono de outras seis fazendas com mais de 3 mil cabeças de gado zebu. Como seus colegas donos de terra e gado, ele diz que estava quebrando por causa dos preços baixos no mercado interno. "Só agora, com a exportação, começou a animar de novo, é o que salva a gente."
A carreta carregada de bois levanta poeira ao deixar a K-9 em direção à Belém-Brasília para pegar o rumo de Santa Isabel, onde é recebida por Márcio Santos Reis, 29 anos, gerente da Fazenda Aroeira, uma central de confinamento que fica a meio caminho do Porto de Vila do Conde. Com uma área total construída de 22 mil metros quadrados, em apenas 60 dias foram erguidos ali três galpões, com capacidade para abrigar 3,5 mil cabeças cada um.
Dia e noite, caminhões carregados de gado entram e saem da fazenda de 200 hectares criada há dois anos e meio para preparar as boiadas antes do embarque no navio. Como a maioria desses animais é criada solta no pasto, é preciso habituá-los ao ambiente de confinamento no navio. Ao mesmo tempo, como sempre perdem peso nas longas viagens pelas estradas do Pará e do Maranhão até chegar à Aroeira, os bois recebem uma alimentação reforçada de feno e ração - a mesma que terão no navio, cerca de 18 quilos por dia.
Formado em Pedagogia, Administração e Língua Portuguesa, o "xerife" Márcio, que vive na fazenda, é de pouca conversa. "Aqui não tem história, só tem trabalho", justifica, enquanto controla a entrada e saída dos caminhões que fazem a conexão dos pastos amazônicos com os navios em que Lula leva o boi em pé para o Líbano, aonde chegará daqui a duas semanas. Na volta de Beirute, como ninguém é de ferro, fará uma conexão em Paris, antes de seguir novamente para os pastos da vida.
PROSTITUTAS DELIVERY
No Porto de Vila do Conde, pequena comunidade do município de Barcarena, que sobrevive da pesca artesanal, barqueiros cobram 20 dólares por garota levada para os tripulantes nos navios. Os moradores reclamam do mau cheiro provocado durante o embarque dos animais nos navios-gaiola, que espanta os fregueses dos restaurantes da praia. O recente vazamento de toneladas de caulim nos igarapés e rios da vila está provocando a morte de peixes na região.
Abertura de Mercado: Depois do Líbano, a Venezuela: até o final do ano, o Pará vai exportar mais de 500 mil cabeças de boi em pé
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