Revista > Edição 5 - Novembro/2007 > Futebol
De Sordi & Djalma
Em 2008, a crônica esportiva tem uma data redonda para celebrar: os 50 anos da conquista de nossa primeira Copa do Mundo, na Suécia, em 1958. Brasileiros localizou e entrevistou dois heróis da Seleção Canarinho: o alegre Djalma Santos e o injustiçado Newton de Sordi
Pedro Venceslau
Na intensa e breve vida "boleira", nasce-se e morre-se todos os dias. Em nenhuma outra profissão é tão curta a distância entre o paraíso e o inferno, o amor e o ódio, a glória e o esquecimento. Nos anos 1950 e 1960, dois jogadores paulistas fizeram história jogando na lateral-direita: Newton de Sordi e Djalma Santos. Com biografias e estilos parecidos, seus destinos se cruzaram de forma definitiva no inesquecível ano de 1958, na Suécia, onde o Brasil conquistou sua primeira Copa do Mundo.
Do primeiro ao penúltimo jogo do torneio, tudo conspirava para que De Sordi saísse consagrado como o melhor lateral do mundo. Titular absoluto da posição, ele jogou (e muito bem) todos os jogos, menos um.
Na semifinal contra a França, o gramado de Estocolmo estava especialmente pesado. Lá pela metade do jogo, que acabaria com a vitória do Brasil por 5 a 2, De Sordi começou a sentir uma distensão muscular na perna direita. "Em um amistoso antes da Copa, contra a Fiorentina, eu já tinha sentido aquilo. Fiquei preocupado", conta.
De Sordi poderia ter escondido a dor, mas preferiu ser honesto. "Não havia substituição na época. Se me arriscasse, podia prejudicar o time." A comissão técnica fez o que pôde e manteve um intenso tratamento até a véspera da grande final, contra a Suécia, o time da casa. Mas foi o próprio De Sordi que deu a última palavra: "Não vou arriscar". Diante do diagnóstico, o técnico Vicente Feola e o chefe da Comissão Técnica, Paulo Machado de Carvalho, foram conversar com o reserva da posição.
"Amanhã você vai jogar. Tá preparado?" Djalma Santos arregalou os olhos, disse que sim, mas lamentou sinceramente pelo colega. "Era a última partida e ele ficou muito chateado. Naquele time, um respeitava o outro. Éramos todos unidos e amigos", conta Djalma. No histórico dia 26 de junho, o Brasil engoliu a Suécia: 5 a 2. Apesar de ter jogado apenas um jogo, Djalma foi eleito o melhor lateral da Copa. Na foto oficial da vitória, De Sordi não aparece.
"Na época, parte da imprensa foi injusta comigo. Disseram que eu amarelei, que tive medo. Aquilo me prejudicou. Quem me conhece sabe que não sou disso. Fiz o maior esforço para chegar lá e ia amarelar na hora H? Acabei ficando fora da final e da foto. Na outra convocação, não fui chamado. Esqueceram de mim", desabafa De Sordi. Já Djalma viu sua carreira deslanchar no pós-Copa de 58. Com o passe valorizado, foi vendido da Portuguesa - que precisava de dinheiro para reformar o recém-adquirido Canindé - para o Palmeiras. Na Copa de 1962, foi titular do começo ao fim e voltou do Chile com a Taça do Bicampeonato.
De Piracicaba a Estocolmo, com escala em Bandeirantes
O relógio marca 14h quando o fotógrafo Mano de Carvalho toca a campainha da casa de muros altos, rodeada de cerca elétrica, no bairro do Bessa, a 300 metros da praia de mesmo nome e a uns 15 quilômetros do centro de João Pessoa (PB). Quem atende à porta é dona Celina, esposa e companheira de longa data de Newton de Sordi, 76 anos.
No caminho até a varanda onde seriam feitas as fotos, Mano nota a ausência de troféus, medalhas, camisetas de time, fotos históricas e recortes de jornal, adereços comuns em casas de ex-atletas. "Ficou tudo em Bandeirantes", explica a anfitriã. O casal Newton e Celina mudou-se há pouco tempo para a Paraíba. Queriam ficar perto do mar e dos dois filhos agrônomos que vivem na cidade.
Deixaram na fazenda da família, na pequena Bandeirantes (PR) todas as lembranças físicas dos tempos de glória do lateral-direito campeão de 1958. Cabe ao filho mais velho, Newton de Sordi Jr., cuidar das lembranças, das terras e do sobrenome da família na cidade. Figura conhecida na região, Jr. foi prefeito do pequeno município do interior paranaense e é considerado um nome forte para voltar ao cargo nas eleições do ano que vem.
De Sordi conversou longamente com Brasileiros por telefone. Apesar de falar com dificuldade, decorrência do Mal de Parkinson, o ex-lateral-direito demonstra articulação de raciocínio e excelente memória. Lembra como se fosse ontem dos primeiros passos no futebol, no XV de Piracicaba, em 1949; da estréia no São Paulo - uma derrota de 2 a 0 para o Corinthians -; da primeira convocação para a Seleção, em 1956, para disputar um torneio em Montevidéu; além, é claro, daquele inesquecível mês de junho de 1958.
"Quando cheguei a São Paulo, fui morar na Rua Veiga Filho, em Higienópolis, dividindo apartamento com seis rapazes que estudavam no Mackenzie. Era uma república e a gente dividia as despesas. Para ir treinar, eu pegava o ônibus, descia na Praça do Correio, andava um quilômetro e pegava o bonde. Descia no fim da linha do Canindé, onde o time treinava. Só em 1961 [quatro anos antes de se aposentar] comprei meu primeiro carro, um Fusca." Foi nessa época que também conseguiu finalmente sair da república. "Aluguei um apartamento no Bexiga, que era do presidente do São Paulo."
Ao lado de Bauer, Rui e Noronha, De Sordi foi uma das maiores estrelas do São Paulo nos anos 50 e 60. Não era um jogador de explosão e nem tinha o carisma de seu rival, Djalma Santos, astro da Portuguesa. Mas era um operário disciplinado da bola, um jogador competente que cumpria bem sua missão. E era exatamente de um lateral com essas características que o técnico Feola precisava na Copa de 1958. Aquele time já tinha estrelas em bom número para cuidar do espetáculo.
"Talvez De Sordi fosse titular porque tanto o treinador como o chefe da delegação eram do São Paulo... Mas acho que o verdadeiro chefe daquela Seleção, que era o Carlos Nascimento, homem severíssimo, nunca permitiria um protecionismo desses. E De Sordi, que vi jogar só pelo cinema, parece que também era bom", avalia o jornalista Ruy Castro, autor da biografia de Garrincha e, portanto, estudioso da época.
"O que aconteceu em 1958 foi o imponderável. O De Sordi era um grande jogador. É baixinho, mas pulava mais que um pinguelão de dois metros. Ele se machucou no último jogo. Fazer o quê? É a vida. O Pelé também não estava na foto de 62...", diz Milton Neves, incansável pesquisador do futebol e amigo do peito de dez entre dez ex-jogadores da velha guarda.
As lembranças da inesquecível Copa de 1958, na Suécia, estão vivas na memória do herói do São Paulo. "Saímos desacreditados daqui. Ninguém achava que o Brasil venceria, mas surpreendemos e metemos bucha em todo mundo." Já a volta para casa não traz tão boas recordações. Além de não aparecer na foto oficial do título, De Sordi foi caluniado por alguns jornalistas.
"Na semana da final, sabia-se que ele era problema e que Djalma podia jogar. Depois, espalhou-se que ele comera pasta de dente na véspera para ter diarréia. Mentira. Vários dias antes, desde o jogo contra a França, os jornais já davam que ele estava machucado. Todo mundo sabia que ele era um grande jogador", lembra Ruy Castro.
Mentiras à parte, o fato é que a carreira do lateral nunca mais foi a mesma. "Cheguei a ser convocado em 1962, como reserva do Djalma, mas fui dispensado nas preliminares. Fiquei chateado. Me chamaram, agradeceram e pronto. Não cheguei nem a viajar com o time [para o Chile]. Ouvi pelo rádio que o Brasil foi campeão."
Já no São Paulo, a carreira do lateral ainda viveu dias de glória antes de sua aposentadoria precoce, aos 35 anos, em 1965, devido a uma série de contusões. "Depois da Copa fiquei mais sete anos no São Paulo, mas com muitos problemas de contusão me enchendo o saco. A distensão, mal curada, foi piorando, piorando... Passava um mês machucado, outro não. Depois que me aposentei, ainda joguei um ano no União Bandeirantes sem me machucar. Parecia mau-olhado."
D(e)jalma
O nome certo é Dejalma dos Santos, mas pode chamar de Djalma. Todo mundo em Tassio Rezende, um bairro residencial na periferia de Uberaba (MG), sabe onde fica a casa do ilustre morador da Rua Martim Eminato. Foi fácil achar o endereço. Na hora marcada, o ex-lateral da Seleção estava esperando na porta, ao lado da esposa, Esmeralda. A casa é simples, mas espaçosa. A sala parece um museu.
Acomodamo-nos em um sofá na sala, ao lado de um narguilé gigante (lembrança dos tempos em que treinou garotos na Arábia Saudita) e de uma grande estante lotada de troféus, medalhas, chuteiras, placas comemorativas, fotos antigas. Em destaque, uma imagem desbotada ao lado de craques do mundo inteiro.
"Fui o primeiro brasileiro a jogar pela Seleção da Fifa, em 1963", explica o anfitrião. Em outra foto, Djalma aparece ao lado de Zito, Gilmar, Zizinho, Nilton Santos, Didi e Vavá, na final da Copa de 1962. Na seqüência, uma terceira imagem chama a atenção: a famosa foto da final de 1958, aquela em que De Sordi não aparece. Vêem-se apenas Feola, Djalma Santos, Zito, Bellini, Nilton Santos e Gilmar, agachados. E Didi, Pelé, Vavá, Zagallo e Paulo Amaral, em pé. "É, faltou o De Sordi...", diz Djalma.
Começamos a entrevista falando do presente. Ex-lateral da Lusa (dez anos), Palmeiras (dez anos), Atlético Paranaense (três anos e meio), Seleção Brasileira (16 anos), Djalma joga bola até hoje, mas apenas por hobby. Aos 78 anos, ainda tem fôlego para encarar dois tempos de 20 minutos todo domingo, quando encontra outros veteranos no Uberaba Country Club.
"A gente fica só chutando. Depois do jogo, a gente assa um peixe, toma cerveja e joga um baralhinho", conta. O porte físico impressiona. Com zero de barriga, Djalma não aparenta a idade que tem. Anda, senta, levanta, fala e brinca como um menino. Ele conta que já é praticamente um cidadão de Uberaba, a cidade escolhida como retiro depois da aposentadoria.
"Minha falecida esposa tinha umas primas aqui. Eu sempre vinha passar férias. Faz 25 anos que moro na cidade. Hoje, trabalho para o Estado, como monitor de esporte. Supervisiono os núcleos de treinamento dos meninos. Gosto mesmo é de trabalhar com criança. Não gosto de ser treinador. Meu caráter não dá para isso. O treinador precisa ser cara-de-pau."
Escolinha fechada
Djalma não gosta muito de tocar no assunto, mas antes de "ir para o Estado", ele coordenou por 11 anos um bem-sucedido programa da Secretaria de Esporte e Lazer de Uberaba. Batizado de "Bem de Rua, Bom de Bola", o projeto ajudava 4,5 mil meninos carentes da cidade por meio do esporte. Tudo ia bem, até o ex-ministro dos Transportes, Anderson Adauto, assumir a prefeitura da cidade e decidir acabar com os rastros da administração anterior. "O projeto foi desfeito por causa desse negócio de política. Não gosto de me meter, não sou de lado nenhum, sou de Uberaba. Mas acabou por quê? Para não deixar lembrança do antecessor."
A casa de Djalma parece mesmo um museu. As portas estão sempre abertas para os visitantes que querem tirar uma foto com o ídolo ou ver de perto as lembranças de suas conquistas. São muitos os títulos. Eleito pela Federação Internacional de Futebol (Fifa) o melhor lateral-direito da história do futebol mundial, Djalma Santos integra todas as seleções "de todos os tempos" já elaboradas no Brasil, com destaque para a seleção das revistas Placar, de abril de 1996, e Época, de julho de 2006.
Ele foi, ainda, o primeiro brasileiro a atingir a marca de 100 jogos com a camisa canarinho. O entrevistado se diverte quando fala do passado. "Na concentração da Copa de 58, na Suécia, a gente ficava perto de uma estação de esqui. Para impressionar os russos, o treinador fazia a gente subir e descer aquilo lá."
Assim como a maioria dos jogadores de sua época, Djalma demorou para ganhar dinheiro com o futebol. Nos primórdios da carreira, nas divisões de base da Portuguesa, saía correndo do trabalho em uma fábrica de calçados para ir treinar. Largou o emprego quando foi promovido ao time titular e passou a jogar ao lado da maior geração de craques da Lusa de todos os tempos: Muca, Nena, Noronha, Brandãozinho e Ceci; Julinho Botelho, Renato, Nininho, Pinga e Simão.
"Na década de 1950, aquele time era imbatível. Chegou a emplacar nove jogadores na Seleção Paulista. Só não foram campeões porque naquela época os juízes eram muito corruptos", conta o psiquiatra Laércio de Almeida Lopes, torcedor fanático da Lusa e ex-jogador dos juniores do São Paulo.
"Fiquei dez anos e dois meses na Lusa. Quando saí, foi a transferência mais cara da época, para o Palmeiras, depois da Copa de 1958. Fui vendido porque a Lusa comprou o Canindé. Eles tinham que reformar o estádio, mas não tinham grana. Além do Palmeiras, o Corinthians e o Fluminense queriam meu passe. Mas aí o Oswaldo Brandão, treinador, e o Julinho Botelho, ponta-direita que tinha jogado comigo, foram em casa. Eles estavam no Palmeiras e me convenceram. Me lembro que recebi muitos telefonemas e cartas na época dizendo: 'O Palmeiras não aceita crioulo'. Acho que fui o primeiro crioulo que jogou lá. Fiquei dez anos e quatro meses", conta Djalma.
"O Djalma Santos foi fantástico. Herói de quem viu e ouviu pelo rádio. Um monstro sagrado do tamanho de Gilmar, Nilton Santos, Garrincha e Zito. É claro que perde para Pelé e Carlos Alberto Torres, o melhor lateral da história do mundo. Mas Djalma Santos foi tão genial que conseguiu fazer mais de 120 jogos pela Seleção Brasileira, mesmo jogando em épocas em que a Seleção jogava 60% menos do que atualmente", lembra Milton Neves.
Do primeiro ao penúltimo jogo do torneio, tudo conspirava para que De Sordi saísse consagrado como o melhor lateral do mundo. Titular absoluto da posição, ele jogou (e muito bem) todos os jogos, menos um.
Na semifinal contra a França, o gramado de Estocolmo estava especialmente pesado. Lá pela metade do jogo, que acabaria com a vitória do Brasil por 5 a 2, De Sordi começou a sentir uma distensão muscular na perna direita. "Em um amistoso antes da Copa, contra a Fiorentina, eu já tinha sentido aquilo. Fiquei preocupado", conta.
De Sordi poderia ter escondido a dor, mas preferiu ser honesto. "Não havia substituição na época. Se me arriscasse, podia prejudicar o time." A comissão técnica fez o que pôde e manteve um intenso tratamento até a véspera da grande final, contra a Suécia, o time da casa. Mas foi o próprio De Sordi que deu a última palavra: "Não vou arriscar". Diante do diagnóstico, o técnico Vicente Feola e o chefe da Comissão Técnica, Paulo Machado de Carvalho, foram conversar com o reserva da posição.
"Amanhã você vai jogar. Tá preparado?" Djalma Santos arregalou os olhos, disse que sim, mas lamentou sinceramente pelo colega. "Era a última partida e ele ficou muito chateado. Naquele time, um respeitava o outro. Éramos todos unidos e amigos", conta Djalma. No histórico dia 26 de junho, o Brasil engoliu a Suécia: 5 a 2. Apesar de ter jogado apenas um jogo, Djalma foi eleito o melhor lateral da Copa. Na foto oficial da vitória, De Sordi não aparece.
"Na época, parte da imprensa foi injusta comigo. Disseram que eu amarelei, que tive medo. Aquilo me prejudicou. Quem me conhece sabe que não sou disso. Fiz o maior esforço para chegar lá e ia amarelar na hora H? Acabei ficando fora da final e da foto. Na outra convocação, não fui chamado. Esqueceram de mim", desabafa De Sordi. Já Djalma viu sua carreira deslanchar no pós-Copa de 58. Com o passe valorizado, foi vendido da Portuguesa - que precisava de dinheiro para reformar o recém-adquirido Canindé - para o Palmeiras. Na Copa de 1962, foi titular do começo ao fim e voltou do Chile com a Taça do Bicampeonato.
De Piracicaba a Estocolmo, com escala em Bandeirantes
O relógio marca 14h quando o fotógrafo Mano de Carvalho toca a campainha da casa de muros altos, rodeada de cerca elétrica, no bairro do Bessa, a 300 metros da praia de mesmo nome e a uns 15 quilômetros do centro de João Pessoa (PB). Quem atende à porta é dona Celina, esposa e companheira de longa data de Newton de Sordi, 76 anos.
No caminho até a varanda onde seriam feitas as fotos, Mano nota a ausência de troféus, medalhas, camisetas de time, fotos históricas e recortes de jornal, adereços comuns em casas de ex-atletas. "Ficou tudo em Bandeirantes", explica a anfitriã. O casal Newton e Celina mudou-se há pouco tempo para a Paraíba. Queriam ficar perto do mar e dos dois filhos agrônomos que vivem na cidade.
Deixaram na fazenda da família, na pequena Bandeirantes (PR) todas as lembranças físicas dos tempos de glória do lateral-direito campeão de 1958. Cabe ao filho mais velho, Newton de Sordi Jr., cuidar das lembranças, das terras e do sobrenome da família na cidade. Figura conhecida na região, Jr. foi prefeito do pequeno município do interior paranaense e é considerado um nome forte para voltar ao cargo nas eleições do ano que vem.
De Sordi conversou longamente com Brasileiros por telefone. Apesar de falar com dificuldade, decorrência do Mal de Parkinson, o ex-lateral-direito demonstra articulação de raciocínio e excelente memória. Lembra como se fosse ontem dos primeiros passos no futebol, no XV de Piracicaba, em 1949; da estréia no São Paulo - uma derrota de 2 a 0 para o Corinthians -; da primeira convocação para a Seleção, em 1956, para disputar um torneio em Montevidéu; além, é claro, daquele inesquecível mês de junho de 1958.
"Quando cheguei a São Paulo, fui morar na Rua Veiga Filho, em Higienópolis, dividindo apartamento com seis rapazes que estudavam no Mackenzie. Era uma república e a gente dividia as despesas. Para ir treinar, eu pegava o ônibus, descia na Praça do Correio, andava um quilômetro e pegava o bonde. Descia no fim da linha do Canindé, onde o time treinava. Só em 1961 [quatro anos antes de se aposentar] comprei meu primeiro carro, um Fusca." Foi nessa época que também conseguiu finalmente sair da república. "Aluguei um apartamento no Bexiga, que era do presidente do São Paulo."
Ao lado de Bauer, Rui e Noronha, De Sordi foi uma das maiores estrelas do São Paulo nos anos 50 e 60. Não era um jogador de explosão e nem tinha o carisma de seu rival, Djalma Santos, astro da Portuguesa. Mas era um operário disciplinado da bola, um jogador competente que cumpria bem sua missão. E era exatamente de um lateral com essas características que o técnico Feola precisava na Copa de 1958. Aquele time já tinha estrelas em bom número para cuidar do espetáculo.
"Talvez De Sordi fosse titular porque tanto o treinador como o chefe da delegação eram do São Paulo... Mas acho que o verdadeiro chefe daquela Seleção, que era o Carlos Nascimento, homem severíssimo, nunca permitiria um protecionismo desses. E De Sordi, que vi jogar só pelo cinema, parece que também era bom", avalia o jornalista Ruy Castro, autor da biografia de Garrincha e, portanto, estudioso da época.
"O que aconteceu em 1958 foi o imponderável. O De Sordi era um grande jogador. É baixinho, mas pulava mais que um pinguelão de dois metros. Ele se machucou no último jogo. Fazer o quê? É a vida. O Pelé também não estava na foto de 62...", diz Milton Neves, incansável pesquisador do futebol e amigo do peito de dez entre dez ex-jogadores da velha guarda.
As lembranças da inesquecível Copa de 1958, na Suécia, estão vivas na memória do herói do São Paulo. "Saímos desacreditados daqui. Ninguém achava que o Brasil venceria, mas surpreendemos e metemos bucha em todo mundo." Já a volta para casa não traz tão boas recordações. Além de não aparecer na foto oficial do título, De Sordi foi caluniado por alguns jornalistas.
"Na semana da final, sabia-se que ele era problema e que Djalma podia jogar. Depois, espalhou-se que ele comera pasta de dente na véspera para ter diarréia. Mentira. Vários dias antes, desde o jogo contra a França, os jornais já davam que ele estava machucado. Todo mundo sabia que ele era um grande jogador", lembra Ruy Castro.
Mentiras à parte, o fato é que a carreira do lateral nunca mais foi a mesma. "Cheguei a ser convocado em 1962, como reserva do Djalma, mas fui dispensado nas preliminares. Fiquei chateado. Me chamaram, agradeceram e pronto. Não cheguei nem a viajar com o time [para o Chile]. Ouvi pelo rádio que o Brasil foi campeão."
Já no São Paulo, a carreira do lateral ainda viveu dias de glória antes de sua aposentadoria precoce, aos 35 anos, em 1965, devido a uma série de contusões. "Depois da Copa fiquei mais sete anos no São Paulo, mas com muitos problemas de contusão me enchendo o saco. A distensão, mal curada, foi piorando, piorando... Passava um mês machucado, outro não. Depois que me aposentei, ainda joguei um ano no União Bandeirantes sem me machucar. Parecia mau-olhado."
D(e)jalma
O nome certo é Dejalma dos Santos, mas pode chamar de Djalma. Todo mundo em Tassio Rezende, um bairro residencial na periferia de Uberaba (MG), sabe onde fica a casa do ilustre morador da Rua Martim Eminato. Foi fácil achar o endereço. Na hora marcada, o ex-lateral da Seleção estava esperando na porta, ao lado da esposa, Esmeralda. A casa é simples, mas espaçosa. A sala parece um museu.
Acomodamo-nos em um sofá na sala, ao lado de um narguilé gigante (lembrança dos tempos em que treinou garotos na Arábia Saudita) e de uma grande estante lotada de troféus, medalhas, chuteiras, placas comemorativas, fotos antigas. Em destaque, uma imagem desbotada ao lado de craques do mundo inteiro.
"Fui o primeiro brasileiro a jogar pela Seleção da Fifa, em 1963", explica o anfitrião. Em outra foto, Djalma aparece ao lado de Zito, Gilmar, Zizinho, Nilton Santos, Didi e Vavá, na final da Copa de 1962. Na seqüência, uma terceira imagem chama a atenção: a famosa foto da final de 1958, aquela em que De Sordi não aparece. Vêem-se apenas Feola, Djalma Santos, Zito, Bellini, Nilton Santos e Gilmar, agachados. E Didi, Pelé, Vavá, Zagallo e Paulo Amaral, em pé. "É, faltou o De Sordi...", diz Djalma.
Começamos a entrevista falando do presente. Ex-lateral da Lusa (dez anos), Palmeiras (dez anos), Atlético Paranaense (três anos e meio), Seleção Brasileira (16 anos), Djalma joga bola até hoje, mas apenas por hobby. Aos 78 anos, ainda tem fôlego para encarar dois tempos de 20 minutos todo domingo, quando encontra outros veteranos no Uberaba Country Club.
"A gente fica só chutando. Depois do jogo, a gente assa um peixe, toma cerveja e joga um baralhinho", conta. O porte físico impressiona. Com zero de barriga, Djalma não aparenta a idade que tem. Anda, senta, levanta, fala e brinca como um menino. Ele conta que já é praticamente um cidadão de Uberaba, a cidade escolhida como retiro depois da aposentadoria.
"Minha falecida esposa tinha umas primas aqui. Eu sempre vinha passar férias. Faz 25 anos que moro na cidade. Hoje, trabalho para o Estado, como monitor de esporte. Supervisiono os núcleos de treinamento dos meninos. Gosto mesmo é de trabalhar com criança. Não gosto de ser treinador. Meu caráter não dá para isso. O treinador precisa ser cara-de-pau."
Escolinha fechada
Djalma não gosta muito de tocar no assunto, mas antes de "ir para o Estado", ele coordenou por 11 anos um bem-sucedido programa da Secretaria de Esporte e Lazer de Uberaba. Batizado de "Bem de Rua, Bom de Bola", o projeto ajudava 4,5 mil meninos carentes da cidade por meio do esporte. Tudo ia bem, até o ex-ministro dos Transportes, Anderson Adauto, assumir a prefeitura da cidade e decidir acabar com os rastros da administração anterior. "O projeto foi desfeito por causa desse negócio de política. Não gosto de me meter, não sou de lado nenhum, sou de Uberaba. Mas acabou por quê? Para não deixar lembrança do antecessor."
A casa de Djalma parece mesmo um museu. As portas estão sempre abertas para os visitantes que querem tirar uma foto com o ídolo ou ver de perto as lembranças de suas conquistas. São muitos os títulos. Eleito pela Federação Internacional de Futebol (Fifa) o melhor lateral-direito da história do futebol mundial, Djalma Santos integra todas as seleções "de todos os tempos" já elaboradas no Brasil, com destaque para a seleção das revistas Placar, de abril de 1996, e Época, de julho de 2006.
Ele foi, ainda, o primeiro brasileiro a atingir a marca de 100 jogos com a camisa canarinho. O entrevistado se diverte quando fala do passado. "Na concentração da Copa de 58, na Suécia, a gente ficava perto de uma estação de esqui. Para impressionar os russos, o treinador fazia a gente subir e descer aquilo lá."
Assim como a maioria dos jogadores de sua época, Djalma demorou para ganhar dinheiro com o futebol. Nos primórdios da carreira, nas divisões de base da Portuguesa, saía correndo do trabalho em uma fábrica de calçados para ir treinar. Largou o emprego quando foi promovido ao time titular e passou a jogar ao lado da maior geração de craques da Lusa de todos os tempos: Muca, Nena, Noronha, Brandãozinho e Ceci; Julinho Botelho, Renato, Nininho, Pinga e Simão.
"Na década de 1950, aquele time era imbatível. Chegou a emplacar nove jogadores na Seleção Paulista. Só não foram campeões porque naquela época os juízes eram muito corruptos", conta o psiquiatra Laércio de Almeida Lopes, torcedor fanático da Lusa e ex-jogador dos juniores do São Paulo.
"Fiquei dez anos e dois meses na Lusa. Quando saí, foi a transferência mais cara da época, para o Palmeiras, depois da Copa de 1958. Fui vendido porque a Lusa comprou o Canindé. Eles tinham que reformar o estádio, mas não tinham grana. Além do Palmeiras, o Corinthians e o Fluminense queriam meu passe. Mas aí o Oswaldo Brandão, treinador, e o Julinho Botelho, ponta-direita que tinha jogado comigo, foram em casa. Eles estavam no Palmeiras e me convenceram. Me lembro que recebi muitos telefonemas e cartas na época dizendo: 'O Palmeiras não aceita crioulo'. Acho que fui o primeiro crioulo que jogou lá. Fiquei dez anos e quatro meses", conta Djalma.
"O Djalma Santos foi fantástico. Herói de quem viu e ouviu pelo rádio. Um monstro sagrado do tamanho de Gilmar, Nilton Santos, Garrincha e Zito. É claro que perde para Pelé e Carlos Alberto Torres, o melhor lateral da história do mundo. Mas Djalma Santos foi tão genial que conseguiu fazer mais de 120 jogos pela Seleção Brasileira, mesmo jogando em épocas em que a Seleção jogava 60% menos do que atualmente", lembra Milton Neves.
Dupla vencedora: De Sordi e Djalma Santos foram bicampeões pelo Brasil, mas o primeiro não saiu na foto oficial, porque se contundiu na semifinal
|
|









