Revista > Edição 6 - Dezembro/2007-Janeiro/2008 > Cinema

O coração e a mente de Peter Davis

O documentarista entrou para a história por expor, de forma contundente e irrefutável, o que os soldados norte-americanos faziam na guerra do Vietnã e como estavam morrendo. A brasileira Simone Duarte, também documentarista, entrevistou o diretor de Corações e Mentes e ouviu dele as coincidências entre Iraque e Vietnã

Simone Duarte

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É segunda-feira à noite, no Village, bairro boêmio em Nova York. Peter Davis entra apressado no prédio da New School, considerada uma das universidades mais liberais dos Estados Unidos. Com a bolsa a tiracolo, seguindo a moda estudantil, ele cumprimenta sorrindo os alunos que lotam a sala para ouvir o jornalista e documentarista que inspirou Michael Moore a fazer cinema. Aos 70 anos, com voz suave e palavras certeiras, Davis cativa uma audiência que, em sua maioria, até um mês antes, nunca tinha ouvido falar em Corações e Mentes (1974), o controverso documentário sobre o Vietnã que denuncia e questiona a campanha mentirosa de cinco presidentes norte-americanos para manter os Estados Unidos na guerra. E é a memória, ou melhor, o mal que a falta dela está fazendo ao seu país, um dos temas da palestra e das conversas que, desde esse dia, passei a ter com o ganhador do Oscar de melhor documentário em 1975.

O jornalista Peter Davis acumula uma bagagem invejável: em 1962, trabalhou para uma série de TV sobre o presidente Franklin Delano Roosevelt (FDR); em 1972, o filme que fez para a rede de televisão CBS sobre a máquina de propaganda do Pentágono - The Selling of the Pentagon - provocou tanta polêmica que forçou o poderoso Departamento de Defesa norte-americano a reduzir seu aparato de relações públicas; nos anos 1980 partiu para a Nicarágua e sua narrativa sobre as conseqüências da política intervencionista do então presidente Ronald Reagan estão no livro Where Is Nicaragua (1987); na década seguinte, chegou a viver como mendigo nas ruas de cidades da Califórnia para escrever um livro sobre a pobreza nos Estados Unidos - If You Come this Way (1995). Em 2003, quase 30 anos depois de filmar Corações e Mentes, estava de volta ao Vietnã quando a invasão norte-americana ao Iraque começou. De Saigon foi direto para Bagdá cobrir a guerra. Davis dispara: Os Estados Unidos não são um país em guerra, mas um país de guerra.

Peter Davis - Em toda a minha carreira, só houve um trabalho que vocês deveriam sentir inveja (sorriso): o de pesquisador e entrevistador da série de TV sobre o presidente Roosevelt. Imagina: aos 24 anos, eu não era ninguém e estava entrevistando Eleanor Roosevelt, além de assessores políticos, amigos, inimigos de FDR. Foi o melhor emprego do mundo para um jovem que estava tentando entender seu próprio país e o seu lugar nele. Foi uma lição de história, de relações internacionais, de política. Foi a melhor aula que eu poderia ter sonhado de história contemporânea dos Estados Unidos.

Brasileiros - Em um trecho de Corações e Mentes, o ex-assessor do Departamento de Defesa, Daniel Ellsberg, explica como cinco presidentes norte-americanos mentiram para o povo sobre a Guerra do Vietnã. A primeira reação do espectador que vê ou revê Corações e Mentes hoje é pensar no Iraque. Será que nestes 33 anos nada mudou?
Davis - Provavelmente você já ouviu falar que a primeira vítima de uma guerra é a verdade. Neste caso, a última vítima é a memória. Eu filmei no Vietnã e fui ao Iraque cobrir a guerra pela revista The Nation. Na minha opinião, a frase que melhor resume o que estamos vivendo hoje é a de um dos nossos maiores filósofos, George Santayana (1863-1952): "Os que não se lembram do passado estão condenados a repeti-lo". Durante uma geração nós lembramos do Vietnã - tivemos o Irã-Contras e, no caso da Nicarágua, o presidente Reagan inconstitucionalmente ajudou a derrubar o governo do país -, mas não houve nada comparado ao Vietnã. No dia 11 de setembro de 2001, isso mudou. O governo norte-americano foi atingido em cheio na cabeça e passou a sofrer de amnésia, provocada pelo medo, e se esqueceu das lições do passado. Sim, o governo Bush entrou em pânico, ficou aterrorizado, até hoje se comporta assim.

Eles chamam esta campanha de "guerra contra o terror". Esta não é a guerra contra o terror, mas a guerra dos aterrorizados. Saddam Hussein era um ditador, mas não estava nos aterrorizando; nem o governo do Afeganistão, nem o Irã, nem a Coréia do Norte. Nós todos sabemos que voamos para estas duas guerras nas asas das mentiras. Até quem apóia o presidente Bush sabe disso. No Vietnã, o governo mentiu sobre o Golfo de Tonquin (em 1964, a desculpa que Lyndon
Johnson achou para atacar foi uma suposta ameaça a dois navios americanos). No Iraque, foram "as armas de destruição em massa" e esta ligação absurda que fizeram entre Osama Bin Laden e Saddam Hussein que, na verdade, se odiavam. Sem contar que não sabemos falar a língua, não conhecíamos a cultura, a história da região, nada. Os neoconservadores pensaram que se livrando de Saddam o Iraque viraria Connecticut. O que, obviamente, não aconteceu. Nós lutamos no Vietnã, aprendemos a lição, esquecemos o que aprendemos porque ficamos com medo, agora vamos ter de arcar com a responsabilidade. O grande debate na sociedade americana hoje é como transformar este fiasco em algo menos terrível.

Brasileiros - E qual é a responsabilidade da mídia neste processo de amnésia?
Davis - Olha, critica-se muito os jornalistas. Mas, bem ou mal, a maioria das opiniões que tenho sobre o Iraque formulo a partir do que leio nos jornais como o New York Times ou revistas como a New Yorker. Está bem, não vejo muito TV. E concordo que, logo depois dos atentados, os editoriais de jornais e TVs apoiaram a política do governo Bush sem questionar nada. Se falarmos sobre a Fox, bem, ela é mais governista do que o próprio governo; a CNN logo no início da guerra usava o logo América em Guerra. Soube de um jornalista norte-americano que distribuía viagra para os iraquianos. Terrível. O fato de a imprensa dos Estados Unidos ter endeusado Ahmed Chalabi (o candidato do Pentágono) e o colocado num pedestal como melhor candidato iraquiano ao "governo de marionetes" é lamentável. (No passado controverso de Chalabi consta até uma condenação por fraude a 22 anos de prisão na Jordânia.) Eu sinto muito que Judith Miller tenha passado 45 dias na cadeia; mas o que ela e seu colega Michael Gordon do New York Times fizeram é inconcebível. Eles "compraram" tudo que os neoconservadores de Washington lhes diziam. Agora Michael Gordon (correspondente para assuntos militares do NYT) "compra" tudo o que o governo lhe diz sobre o Irã - o país seria o responsável pelas mortes de norte-americanos no Iraque, pois fornece as armas. E por que o Irã não forneceria as armas? Eles negam, assim como o nosso governo nega que haja tortura em Guantánamo. Isso é ridículo.

Você acaba de citar a entrevista do Daniel Ellsberg, em Corações e Mentes, quando ele diz que, no caso do Vietnã, cinco administrações mentiram para nós. Agora estamos aqui de novo nesta situação. É uma vergonha. Mas, também, não é nenhum mérito para nós, jornalistas, leitores, telespectadores, cidadãos, o fato de acreditarmos tão facilmente nestas mentiras. Se pensarmos bem, a guerra do Vietnã teve uma cobertura muito mais crítica por parte da imprensa do que a Guerra do Iraque -, mas os documentários de agora, como Iraq in Fragments ou My Country My Country são muito melhores se comparados com o que fizemos naquela época. A câmera digital facilitou muito o acesso.

Brasileiros - É inevitável comparar os protestos da década de 1970 com a ausência de mobilizações significativas contra a guerra atual
Davis - Naquela época, as pessoas tinham muito mais raiva. Elas se indignavam, iam protestar nas ruas. Hoje você vê um protesto aqui, outro ali, nada comparável ao que catalisava o país durante a Guerra do Vietnã. Não era a maioria, mas eram 3 milhões de norte-americanos. E sabe por que hoje nada acontece? Porque o serviço militar não é obrigatório. Se os jovens fossem convocados como eram nos anos 1970, os campi das universidades estariam em pé de guerra, com protestos por todos os lados. Mas o governo não tem coragem de convocar ninguém, pois sabe que a medida seria muito impopular, principalmente entre a classe média alta.

Brasileiros - Depois de mais de 30 anos respondendo a todo tipo de pergunta sobre o seu documentário, o que o senhor acha mais relevante falar sobre Corações e Mentes?
Davis - Eu fiz este filme para responder a três perguntas: Por que fomos para o Vietnã? O que fizemos lá? E quais foram os efeitos desses atos em nossa sociedade? Estas perguntas não são feitas ou respondidas de forma explícita no filme, mas em cada seqüência elas estão lá. Os estudantes de sua universidade, a New School, me perguntaram sobre como consegui acesso. Eu não consegui falar com Henry Kissinger, nem com o ex-secretário de Defesa, Robert McNamara - hoje McNamara dá entrevista em cada esquina. Mas consegui entrevistar o ex-secretário de Defesa, Clark Clifford, o ex-assessor dos presidentes Johnson e Kennedy, Walt Rostow, e o general Westmoreland, que comandou as tropas no Vietnã de 1964 a 1968, e que quase desistiu da entrevista minutos antes de nos encontrarmos.

Brasileiros - Em um momento da entrevista, o general Westmoreland diz que "os orientais não dão o mesmo valor à vida que os ocidentais". Isso foi editado com a cena de uma criança vietnamita aos prantos no enterro do pai - e esse é um dos momentos mais chocantes do filme. Como foram os bastidores dessa entrevista?
Davis - Eu fui pessoalmente buscar o general Westmoreland em casa, na Carolina do Sul, e fui dirigindo sozinho com ele de Charleston para o local da entrevista, uma área fora da cidade, bem bucólica, escolhida por ele. No carro, o general puxou conversa. "Soube que o seu outro filme está todo errado." Eu respondi: "O senhor está se referindo ao filme que fiz sobre o Pentágono?" "Sim, este mesmo." Perguntei: "O senhor o viu?" "Não, mas mandei o meu pessoal ver." Aí eu comecei a dizer que não era sobre os soldados, mas sobre o aparato de propaganda Ele me interrompeu dizendo que também não gostava nada daquele show de propaganda. Imagine a cena: lá estava eu deste tamanho [Peter Davis tem pouco mais de um metro e meio] e aquele general alto como o John Wayne, que se vira para mim e diz: "Meu pessoal me disse que seu programa é incorreto". E eu: "Não, senhor". "Injusto." "Não, senhor." "Desonesto." "Não, senhor." "Então, você está me dizendo que o filme é correto?" "Sim, senhor." "Justo?" "Sim, senhor." "Honesto?" "Sim, senhor." Respondi como se fosse um soldado. Ele virou para mim e disse: "Tudo bem, vou dar a entrevista". Fizemos a entrevista. Eu já havia perguntado tudo o que queria. E quem provocou a tão famosa declaração foi o operador de som que queria saber o que o general, um homem tão viajado, pensava sobre as pessoas dos lugares mais diferentes do mundo. Bem, o que se espera como resposta é algo do tipo "apesar de tudo, todo mundo é igual". Mas ele começou: "Os orientais não dão o mesmo valor à vida que os ocidentais" Aí parou e disse que queria repetir o tal trecho. Eu pensei: o general refletiu e vai mudar a frase. Não, ele ia repetindo a mesma declaração quando o rolo do filme acabou! Eu pensei: Bem até trocarmos o rolo Westmoreland vai pensar de novo e Ele repetiu pela terceira vez a mesma frase! O outro detalhe curioso é que para conseguir a entrevista eu tinha prometido algo que um jornalista nunca deve prometer, mas como eu não estava trabalhando para uma rede de TV, prometi que não usaria nada que o general Westmoreland se arrependesse de ter dito depois da entrevista. Semanas depois, o telefone tocou. O general começou: "Peter..." Eu gelei, pensando que ele ia me dizer para não usar a tal frase. Que nada! Ele queria que eu não usasse um trecho em que falava sobre treinamento de soldados. Eu imediatamente disse: "Sim, senhor". Depois que o filme foi lançado, o general Westmoreland disse que a frase foi tirada de contexto. Agora me diz em que contexto seria OK alguém dizer que os orientais não dão valor à vida humana?

Brasileiros - Qual é o seu conselho para os jovens que, hoje, com a facilidade da câmera digital, aspiram à profissão de documentarista?
Davis - O papel de um documentarista é o mesmo de sempre: capturar fragmentos da realidade, organizá-los de acordo com a maneira que você vê o mundo e editá-los de um modo que o espectador sinta estes fragmentos e se sinta parte desta realidade. Eu não estou aqui dizendo que todos os documentários têm que ser antigoverno, não. Mas é importante pôr o poder em questão sob os holofotes da câmera de cinema, esta que é a luz mais intensa criada pelo homem. É o único modo de evitar que o poder se transforme em tirania. Eu sei É difícil ter acesso à turma do Bush. Mas Michael Moore teve o suficiente para mostrar o quão decadentes, corruptos e hipócritas são. Tão hipócritas que não mandam os seus próprios filhos para uma guerra que eles insistiram tanto em lutar.

ENCONTROS COM PETER DAVIS
A primeira vez que ouvi falar em Peter Davis e seu Corações e Mentes foi em 1986 quando era estudante de jornalismo na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Anos depois, em 2004, meu documentário sobre Sergio Vieira de Mello era exibido no Festival do Rio, o mesmo em que Corações e Mentes foi relançado. Na época, o crítico da Time Out, de Londres, escreveu que o melhor momento de sua passagem pelo Rio tinha sido depois da sessão do filme de Davis, quando, ao saborear uma caipirinha, pensava em Corações e Mentes, no documentário sobre Vieira de Mello, no filme de Patrício Guzmán e em como o mundo pouco mudara. Guardei o recorte.
Este ano, convidei Peter Davis para participar do curso que leciono no programa de mestrado da New School, em Nova York, e finalmente o conheci. A integridade, simplicidade e simpatia de Davis são contagiantes. Tive a chance de pedir que ele autografasse um DVD para mim. Afinal, esperara 21 anos por este dia. Ao ler a dedicatória não consegui evitar o riso: "Para Simone, com admiração por seu coração e mente". Vendo minha reação, ele jurou que nunca escrevera tal dedicatória a nenhum de seus "fãs". Sorri e jurei que acreditava De coração e mente.
Simone Duarte

Trabalhos premiados
Simone Duarte é autora de vários documentários, dentre eles o trabalho A Caminho de Bagdá (En Route to Baghdad). Nele, Simone registra a atuação do embaixador brasileiro Sergio Vieira de Mello que morreu vítima de um brutal atentado cometido contra a sede da ONU, em Bagdá, em 2003. O filme foi premiado, no ano seguinte, pela Associação de Correspondentes da ONU e será lançado no Brasil, no ano que vem, pela Versátil Home Video
Outro trabalho premiado de Simone foi a série de reportagens que realizou no Timor Leste, em 1999, onde integrou a missão da ONU. Ela recebeu menção honrosa da mesma Associação de Correspondentes da ONU.
A autora, que trabalhou durante 15 anos na TV Globo, em Nova York, está produzindo e dirigindo um documentário sobre negociações de paz entre palestinos e israelenses (Track4).
Na Onu
Simone Duarte, com o então secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Kofi Annan: documentário premiado pela Associação de Correspondentes

Barbárie Documentada: As cenas da Guerra do Vietnã transmitidas pela televisão e registradas em documentários como Corações e Mentes desnudaram a postura falaciosa do governo norte-americano

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