Balaio do Kotscho > Samba02/11/2008 - 18h20

Choro Rasgado e dona Inah no Ó do Borogodó

Aproveito para postar no Balaio a estréia do nosso correspondente em São Sebastião, o preclaro jornalista Ivan Quadros, que deu uma banana pra metrópole e foi ganhar a vida honestamente de frente para o mar

Ricardo Kotscho

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Enquanto a corrida de Fórmula-1 não acaba e o jogo do São Paulo não começa, aproveito para postar no Balaio a estréia do nosso correspondente em São Sebastião, o preclaro jornalista Ivan Quadros, que deu uma banana pra metrópole e foi ganhar a vida honestamente de frente para o mar.

O repórter Ivan, sempre falante e fuçador, escreve sobre o que mais entende: música popular brasileira. Seresteiro bom de gogó e de tamborim, esta semana ele esteve na cidade e nos conta agora o que viu de bom nos palcos paulistanos:

Dona Inah, a nossa Clementina do samba paulistano

São Paulo nunca esteve tão bem representada no samba e no choro _ e por um amplo arco de longevidade raramente visto, ligando opostos como os jovens do Grupo Choro Rasgado e, de outro lado, dona Inah, a cantora do grupo na plenitude dos seus 72 anos de idade.

Toda terça-feira eles se apresentam para uma multidão de fãs num dos principais bares da noite paulistana, o Ó do Borogodó, na Vila Madalena. Pois foi o que eu quis testemunhar no começo da semana, durante curta temporada paulistana para participar de um simpósio sobre Educomunicação e Meio Ambiente no SESC.

Até porque, mesmo o Ó do Borogodó, cenário que sintetiza a história do samba paulistano, eu desconhecia. O bar abriu depois da minha partida da boemia de São Paulo, onde eu morei, entre outros endereços, na Vila Beatriz, colado na Vila Madalena, que eu conheci como a palma da minha mão, e a pé (e ainda não havia a Lei Seca).

Quer pelo cenário, carregado do mais velho e original aspecto de butequim, o mais rústico e animado possível, quer pelo alto astral, com música ao vivo da melhor qualidade e a freqüência de um público jovem, com meia dúzia de cinqüentões pingados, como eu, todos saudáveis e inteligentes, com ou sem samba no pé.

Mas a Dona Inah, aquela senhora de quem eu já tinha ouvido alguma música e gostado dela, que ficou conhecida ao receber o Prêmio TIM de Revelação, há alguns anos, não compareceu. A cantora Anaí, que a substituiu muito bem, explicou o motivo antes de começar a roda de samba.

É que dona Inah estava descansando, ou melhor, se preparando para o show de quinta na Choperia do SESC Pompéia, onde lançaria o seu segundo disco, "Olha quem chega", uma homenagem ao nosso Aldir Banc paulistano: o compositor Eduardo Gudin.

Por tudo o que já disse, é desnecessário falar que, mesmo sem d. Inah, quem teve a chance de conseguir entrar no superlotado Ó do Borogodó na terça-feira passada, pode assistir e dançar madrugada adentro ao som das feras de ouro que formam o Choro Rasgado.

Restava então eu ir ao SESC duas noites depois e assistir dona Inah ao vivo. Aproveitei para comprar logo três CDs, dois deles já endereçados a amigos, e outro que estou ouvindo direto, desde que retornei de viagem para São Sebastião, e enquanto escrevo.

Dona Inah cantou e contou com participações especiais como a do Quinteto em Preto e Branco e a do próprio Gudin, que até deu uma palhinha e ficou visivelmente emocionado por ter sua obra cantada pela nossa Clementina Jesus paulistana - as duas cantadoras da mais recôndita raiz da história do samba.

Gostaria de partilhar o comentário que o histórico parceiro de Gudin, Paulo Cesar Pinheiro, fez para "Olha quem chega", o segundo disco de d. Inah. Posso garantir que o poeta de "Veneno" não carrega nas tintas lá onde ele diz no encerramento: "E deixa eu botar a bolacha de novo pra tocar". É o que vem acontecendo comigo nesta tarde.