O lado B da notícia > Cultura19/11/2008 - 17h53

Poesias da Bienal

Leia e escute os poemas declamados pelos próprios autores, na Bienal Internacional do Livro do Ceará

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1. JUAN CAMERON - CHILE
Radicado em Valparaiso, jornalista, o chileno de 61 anos passou dez deles exilado em Malmo, Suécia. Segundo ele, as estatísticas provam que em seu país apenas 46% atingem a leitura de até um livro por ano, sendo que destes apenas 3,6% lêem poesia. Um dos principais motivos de considerar-se social, política e eticamente incorreto.

OUÇA:

CHAO

no me pregunten por ella
la he dejado
vendi sus muebles me gasté el dinero
que um dia me dio como promessa
como truco o manejo a sus haberes
sus ofertas ya sé eran traiciones
me queria exclusiva y tenazmente
para ella para ella para ella
pero apenas soy fiel comigo mismo
menos de esclavo podría posserme
menos sirviente menos prisonero
no me pregunten más
la he abandonado
la muerte para mi no era partido



2. EDUARDO LANGAGNE - MÉXICO
O simpático mexicano de 55 anos sempre esteve envolvido com a cultura brasileira, chegando a morar durante um ano em Brasília. Canta músicas inteiras, discute discografias, ama Elis Regina. Seu sotaque é tão pequeno que já lhe disseram que parecia um turco jorgeamadiano.

OUÇA:

SUPE DE AMOR

ha emblanquecido mi pelo
em busca de uma virtud
no perdi la juventud
pues la inverti eN esse anhelo
supe de amor y desvelo
cuando nacieron mis hijos
mantuve los ojos fijos
al ver venir la beneza
y há podido mi cabeza
descifrar sus acertijos



3. JOSÉ LUIZ TAVARES - CABO VERDE
Residente em Lisboa, aparenta menos do que 41 anos que tem. E não se cansa de repetir isso. Habitué de premiações, teve de deixar a Bienal para receber uma homenagem em Brasília. Profundo conhecedor de seu idioma natal, português, e suas respectivas literaturas e música, considera-se um terror na sala de aula e uma companhia divertida em uma mesa de bar. Uma de suas fixações é o idiossincrático poeta brasileiro Glauco Mattoso.

OUÇA:

À BEIRA DAS CINZAS

se já morto me deste
em talião ou fotografia celeste
tabelião que minha vida escavasse
poderia apenas o eco que ficasse

da diária tinta em que me perco
patadas de suor luzindo pelo lusco-
-fusco golfadas de terra recado brusco
comunicando o jubiloso final incerto

suponho assim se nomeia o destino
pouco colorido vulto ardendo entre
pinhais árido enredo que assino
com duvidosa sabedoria campestre

arte alguma nenhuma fábula
guarda o rouco gume desta fala



4. ALFREDO FRESSIA - URUGUAI
Radicado em São Paulo, 60 anos, tradutor e reconhecido promotor de intercâmbio entre as duas línguas, acaba de assumir a edição de La Outra, revista mexicana sucedânea da célebre Alforja. Entre outras realizações, traduziu Poema Sujo, de Ferreira Gullar, lançado na Argentina - onde foi escrito, no exílio - e recentemente, a pedido de Maria Bethania, traduziu para o espanhol as canções que a cubana Omara Portuondo interpreta com a baiana.

OUÇA:

HIGIENE
(epígrafe)
olho muito tempo o corpo de um poema
até perder de vista o que não seja corpo - Ana Cristina Cesar

apagón y lluvia
la noche del eclipse
no se pudo ver nada
en casa me sequé, tomé café escuro
y con la manga me limpiaba la sangre
en las comisuras de um verso de Ana C.



5. EDUARDO MOSCHES - MÉXICO
O argentino de 64 anos, radicado no México para onde fugiu da ditadura em seu país há 32, é bem divertido. Gosta de lembrar que nos Estados Unidos de Obama os latinos são a primeira minoria e que Chicago é a maior população mexicana depois da Cidade do México. Para ele a crise é crítica, uma vez que o que sustenta a economia de seu país adotivo é a remessa informal de dinheiro do exterior, de parte de mexicanos para suas famílias. Mais que essa remessa, só o lucro com o petróleo. Se acabarem os empregos nos EUA, babau.

OUÇA:

LOS TIEMPOS MEZQUINOS

los olivos murmuran
sobre las zanjas que fueron casas
o em los trozos de loza
que alguna vez
cobijaron redondos
panes árabes
que sonreían blanco a los dientes.
un trago lento y leve
de agua fresca
lavado el paladar
de esse café pastoso
um corto ademán
de entretejerse dedos
en el mismo momento
en que la explosión
hacía hondo
el instante del silencio

las bocas de todos los asesinados
fragmentan
a la historia
em um gemido largo



6. ALEYDA QUEVEDO ROJAS - EQUADOR
Natural de Quito, miúda, 36 anos, redatora, editora e consultora dos principais jornais de seu país, tem uma poesia dominada pelo erotismo. Estava feliz em Fortaleza, indo à praia todos os dias em companhia do marido. Afinal, sua cidade se encontra nas encostas de montanhas de cinco quilômetros de altura - a 2.850 metros acima do nível do mar. Ela acredita que isso influenciou sua poesia uma vez que precisou sobreviver quente e comunicativa em uma cidade fria e de ar rarefeito.

OUÇA:

?QUIÉN SOY?

?quién soy?
Tal vez la mujer senos de âmbar
y pies helados que escribe versos
para reconfortarse
Mas la poesia
solo logra descarrilarme
Como el tren rojo que soy
Ese tren que se abre paso
entre las montañas pontiagudas
y difíciles de algún país
Ese tren que nunca llega
a ninguna estación de humo
Esta mujer que emana voces
Trenes y más trenes
que me esperan
Versos para sobrevivir
?Quién soy?
Quizá este cuerpo encendido
que aún guarda tus huellas em los pliegues



7. EDWIN MADRID - EQUADOR
Marido de Aleyda, 47 anos, um dos grandes poetas contemporâneos de seu país, há 22 se dedica a esse ofício. Conhecido na América Latina e Espanha, tem livros publicados e traduzidos nos Estados Unidos, Líbano e Alemanha. Bibliotecário, salienta que veio de uma família sem a menor ligação com letras e que em Quito não houve tanto derramamento de sangue durante o governo militar. Foram vítimas de uma "ditabranda". Não obstante produz poemas viscerais.

OUÇA:

CAPERUCITA ROJA Y EL LOBO FEROZ

un día caperucita roja
se internó en el bosque
y mientras escudriñaba
apareció el lobo feroz
y com voz de caperucita
le preguntó:
- ?Que llevas em la canastra?
y caperucita
contestó com voz de lobo:
Una carabina com tres balas
- ?Por qué la carabina tiene mira?
preguntó el lobo
- Para verte mejor
contestó caperucita
- ?Por qué la arrimas al pecho?
- Para disparar mejor
- ?Y a quién vas a disparar?
- A vos. Pum / Pum.
Colorín colorado
este cuento
está contado.



8 . CLÁUDIO WILLER - BRASIL
Sociólogo, psicólogo, figura lendária entre os jovens graças ao seu envolvimento como tradutor no movimento beat, atualmente envolvido com misticismo, hermetismo, divide com Floriano Martins a edição de Agulha, revista que norteia, sem trocadilho, a integração poética das Américas. Além de poeta convidado atuou na Bienal como curador do espaço dedicado a revistas de cultura da comunidade hispânico brasileira.

OUÇA:

MAIS UMA VEZ

Mergulho no amor
com a cega convicção dos suicidas
penetro passo a passo
nessa região misteriosa turva opaca
aberta pelo encontro dos corpos
e sinto outra familiaridade nas coisas
essa calma permanência dos objetos
agora formas de lembrar-se
o mundo que se reduz a traços da presença
a realidade que fala ao transformar-se em memória
tudo é conivência e signo
o espaço uma extensão do gesto
as coisas matéria de evocação
qualquer coisa treme dentro da noite
como se fosse um som de flauta
e a cidade se contorce se retrai
mais uma vez
ao abrir-se para este turbulento silêncio
de olhar frente ao olhar
pele contra a pele
sexo sobre sexo



9. RODRIGO PETRONIO - BRASIL
O paulistano de 33 anos cursou letras na Universidade de São Paulo (USP) e tem mestrado em literatura espanhola sobre a obra de Luis de Góngora. Escreve ensaios, é tradutor e editor, ultimamente de livros infantis e infanto-juvenis.

OUÇA:

O SOPRO AZUL DA TERRA

Ninguém nunca pisou
Essa terra negra abafando o carvão sob a sola dos sapatos
Nem dormiu o sono circular de teus cães nem folheou o teu
jornal diário.
Ninguém passou à beira dessas estradas de terra
Nem esse gado em rotações lentas
Pariu a luz rude de teus dias e o ouro de tuas bacias.
Jamais alguém grafou nomes nas cascas de tuas árvores.
Ninguém disparou a bala da boca da noite em fuga
Nem circundou tuas águas turvas cheias de larvas.
Nem houve jamais uma abertura de pálpebras
Dentro de teus quartos sujos de cabeças baixas.
Ninguém desfraldou teu horizonte de magma
Nem perscrutou tua ciência e luz incidental sobre pedras pardas
Animal tricéfalo com o revólver engatilhado em uma tocaia.
Nunca houve esse homem de espáduas curvas.
Nunca houve esse deambular de besouros de prata
Apagando a lâmpada de tuas chagas.
Nunca esse quadril de bronze cheio de água.
Nunca essa muralha adusta de gravetos e faces que contemplam
a lua parada.
Nunca esses pilares de trigo e esse boi no prato.
Nunca esse cavalo com a cabeça cravada na parede da sala.
E velhos descascando gumo entre soluços de asma.
Nunca teus filhos correram contra a brisa e se moveram no
xadrez de tuas casas.
Nunca o relâmpago azul descansou nessa acácia
Que geme entre lábios magros.
Ninguém nunca pisou tuas garças ou vestiu tuas sábanas de
retalhos velhos
Adorou em um espelho teus deuses frescos e vasculares
Que nascem onde o cristal espalha suas sementes.
Ninguém arou teus campos.
Ninguém colheu os filhos redondos e molhados
Da vagina de tuas fêmeas de boca aberta e olhar diáfano.
Nunca esse homem sobre os trilhos.
Nunca esse som de tirsos e tiros e risos sem dentes.
Nunca ninguém pousou uma carícia sobre tuas garrafas em
forma de cisne
Nem meneou tuas chaleiras pálidas no abismo.
Rio de esquecimento e páginas que o sol apaga e grifa.
Só o avesso de tua luz em ti palpita.



10. LIROVSKY (LIRINHA, JOSÉ PAES DE LIRA) - BRASIL
Pernambucano de Arco Verde, Lirinha é conhecido pelo seu trabalho à frente do grupo Cordel do Fogo Encantado. Mercadorias e Futuro é o livro que lançou sob o pseudônimo, heterônimo, alter ego, Lirovsky. Na peça homônima, de Lirovsky, co-dirigida com a mulher do ator-cantor-compositor, Leandra Leal, e sonorizada juntamente com o mago Buguinha Dub, Lirinha em um monólogo soberbo vende o livro valendo-se de ancestrais e por vezes toscas estratégias de marketing. Em uma de suas falas Lirovsky põe a poesia a nu.

OUÇA:

A profecia não precisa acertar
não se deveria esperar de um profeta
o que não se espera de um poeta
porque a profecia é uma poesia sobre o futuro
e nada mais
a gente cresceu escutando
cuidado com os falsos profetas
mas não existem falsos profetas
como não existem verdadeiros poetas

LEIA: A Bienal do Ceará