O lado B da notícia > Flip 200902/07/2009 - 12h17
O amigo do rei
Davi Arrigucci Jr. abre a festa em Paraty, com aula sobre Manuel Bandeira, daquelas palestras que obrigam os alunos a anotar pontualmente cada uma das palavras
Natalia Barrenha e Isaac Pipano, de Paraty (RJ)
Antes de iniciar o que chamou de "humilde leitura" da obra poética de Manuel, Davi referiu-se à importância que a leitura deve adquirir no contexto literário do País, afirmando que devemos nos vangloriar mais dos livros que lemos do que daqueles que escrevemos, lembrando do grande leitor - e um dos gênios da literatura internacional - que foi o argentino Jorge Luis Borges. Há em tal afirmação referência imediata ao homenageado Bandeira, poeta que iniciou a atividade já com idade avançada, fruto de anos de constrangimento de uma vida marcada por doenças e debilidade física constantes.
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Nesse ponto, o autor de Itinerário de Pasárgada, excelência para a compreensão da poética brasileira, iniciou um percurso de estudo sistemático de obras literárias, assim como o contato com a historiografia e outros campos humanísticos, que ampliou o poder de concepção de sua poética, revelando a singularidade que emergia do cotidiano para tocar o insondável da aventura humana.
Acometido por uma tuberculose que inviabilizou os estudos de arquitetura, confinando-o a uma vida reclusa com gosto "cabotino de tristeza", o período entre os anos 1920 e 1933 foram de suma importância para a superação de uma pena de si mesmo, revertida na compreensão, expressa nos poemas que compõem Libertinagem e A estrela da manhã, das relações existentes entre as próprias internalizações da vida no apartamento e o mundo que se desdobrava afora, reconhecendo que a poesia, enfim, estava em tudo: "tanto nos amores quanto nos chinelos, tanto nas coisas lógicas como nas disparatadas".
A partir do período vivido num sobrado em Santa Tereza, no Rio de Janeiro, Davi aponta o reconhecimento do poeta Manuel de uma espécie da dialética entre o alto e baixo, o dentro e fora, que brota, com sensibilidade singular, numa poesia que às vezes denota com estranheza a própria essência. Em Um poema só para Jaime Ovalle, por exemplo, fica difícil reconhecer de onde surge com tamanha força aquela sensação que nos remete a uma emoção profunda, tal qual as recordações singelas da infância, que irrompem sem que sejamos capazes de compreendê-las. Essa é a capacidade de Bandeira em "dizer o complexo através do simples", como afirmou Davi, um simples que nos faz, por vezes, ignorar a grandiosidade do que é dito.
Encerrando sua conferência, que mais teve cara de aula, daquelas que obrigam os alunos a anotar pontualmente cada uma das palavras, com temor de que se perca alguma informação vital, o crítico disse ser a grandeza humilde de Manuel Bandeira a capacidade única de observar os contrastes entre sua própria experiência e o mundo, transformando-o em algo universal. Se "O poema é feito de palavras necessárias e insubstituíveis", como afirmou Octávio Paz, Bandeira soube reconhecer, como ninguém, a necessidade de dizê-las e Davi Arrigucci Jr., compreendê-lo.


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