O lado B da notícia > Flip 200904/07/2009 - 15h58
Relatos ficcionais
Um afegão, um brasileiro e uma irlandesa
Natalia Barrenha e Isaac Pipano, de Paraty (RJ)
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Dividindo a mesa O avesso do realismo com o autor brasileiro Bernado Carvalho, dono de uma já vasta coleção que inclui um único livro de contos, Aberração, e mais nove romances - entre eles, o premiado Mongólia, Nove noites e O Sol se Põe em São Paulo. Sob encomenda, Bernardo foi a São Petesburgo e encontrou uma cidade por detrás de fachadas imponentes e avenidas projetadas, escondida em sua decadente falsa imponência. O ilho da mãe foi concebido após um mês de estada de pânico solitário na cidade, período onde Bernardo conheceu as vielas que guardam sujeitos pouco solícitos, hotéis escuros e um gosto amargo de desesperança.
O mote da discussão, um suposto onírico que emana da obra dos dois, foi tratado de modo controverso por ambos os autores. Bernardo afirmou que sua obra é realista, do ponto de vista que - desde o romance Nove Noites - deu-se conta de que o público esperava que houvesse um ponto de confluência entre a narrativa ficcional e os fatos expressos na realidade. E tal ponto mostrou-se muito produtivo para sua própria narrativa.
"Eu não concordo, acho que são relatos realistas. Mas que trazem o germe da sua autodestruição no bojo", contestou Bernardo, quando a mediadora Beatriz Resende inferiu que a obra dos dois parecia ser, realmente, um avesso do realismo. Atiq afirmou: "Eu não sei o que é o realismo", sustentando que seus livros baseiam-se numa cultura oral, proveniente dos registros de seu país, que desconheciam formas narrativas estruturadas como o romance. Reconhecendo a matéria que gerou os livros O filho da mãe e Syngué sabour - pedra-de-paciência, atribuir à mesa o nome de O avesso do realismo pareceu, inclusive aos autores, um despropósito.
Edna O'Brien
A aristocrática Edna O'Brien disse estar vivendo dias irlandeses em Paraty - segundo a escritora, a névoa que chegou por aqui na noite de quinta era culpa sua, só para lembrar sua terra natal. Afinal, a obra de Edna tem forte presença da Irlanda, lugar do qual ela fala com um misto de extrema ternura e mágoa. A escritora conversou com Liz Calder - calçando confortáveis chinelos de dedo na sua familiar Paraty - na tarde de ontem, e falou por pouco mais de uma hora de sua biografia, sempre entrelaçando-a de maneira poética à Irlanda - a qual, segundo ela, é extremamente inspiradora para a literatura devido às belíssimas paisagens, e extraordinariamente coercitiva devido à ausência de liberdade que assola o país desde a década de 60 - quando seu livro de estreia, Country girls, foi proibido e teve cópias queimadas - até os dias de hoje.
Em conversa morna, Edna também afirmou acreditar em Deus e em ressurreição (e nesta hora perguntou se o biólogo ateu Richard Dawkins não estava por ali), destacou o valioso significado de se reler os livros - e assim se aprender algo que já se sabe -, e discutiu sobre o papel da mãe como figura central na obra de um autor, citando como exemplos sua própria história e também de James Joyce, do qual O'Brien é biógrafa reconhecida - assim como de Lord Byron, o qual também figurou como assunto da mesa.


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